Tuesday, March 31, 2009

Dúvida


Quem não se lembra dos diálogos cirúrgicos e cenas inusitadas de Feitiço da Lua (1987)? O filme valeu Oscar de Melhor Atriz para Cher e Atriz Coadjuvante para Olympia Dukakis. De quebra, um de Melhor Roteiro original para John Patrick Shanley, então com 37 anos de idade.
A estreia de John Patrick Shanley no cinema não poderia ter sido mais auspiciosa. Vamos dizer que depois as expectativas meio que se frustraram. Dirigiu o filme Joe contra o vulcão (1990) e passou a roteirizar adaptações de cotação duvidosa, como Alive (1993) e Congo (1995). Volveu o foco ao teatro: Psychophatia Sexualis (1996) e Where is my Money (2001)? Em 2004, lançou Doubt, parábola sobre a dúvida. A peça estreou fora da Broadway mas depois transferiu-se para a meca do teatro norte-americano, e dali para a telona, sob a batuta do próprio autor e diretor da peça. No cinema, é o segundo trabalho como realizador.
Dúvida baseia-se na desconfiança da Madre Superior Beauvier (Meryl Streep) com o comportamento do padre Brendan Flynn (Philip Seymour Hoffman). A dúvida surge a partir do relato da professora de História, a irmã James (Amy Adams), sobre a forma enfática com que o padre protege o único aluno negro da escola. Com o tempo, a Madre Beauvier passa a ter a certeza de que há uma relação "imprópria" entre padre e aluno. Para investigar o caso, convoca a mãe do menino de doze anos, a sra. Miller (Viola Davis).
Todo o filme se desenvolve a partir dessa situação. Pelas cenas mostradas, o espectador não tem elementos para avaliar se a desconfiança da Irmã Beauvier tem ou não fundamento. Há motivo real para suspeita ou será apenas implicância com um padre carismático e bondoso? A dúvida permeia cada fotograma, e cada pessoa enxerga a história com seus olhos, princípios e preconceitos.

Friday, December 26, 2008

Mamma Mia!

O Cine Brasília é um herói da resistência. Encravado no meio do planalto gaúcho, sua bilheteria (muitas vezes capitaneada pelo próprio dono) se abre na calçada da gloriosa Av. Flores da Cunha, da gloriosa cidade de Carazinho.
É, portanto, um dos últimos e remanescentes "cinemas de rua" dessas plagas distantes demais das capitais. Depois de décadas recebendo multidões que assistiam abismadas filmes como Guerra nas Estrelas, Super-Homem (em que a fila dava a volta na quadra) e Alien, o Oitavo Passageiro, o Brasília encerra 2008 e entra em 2009 firme e forte. Claro, a capacidade diminuiu. Hoje a platéia fica no que antes era o mezanino. Já os funcionários (o porteiro e o projetista-lanterninha) são os mesmos há trinta ou quarenta anos. Só o vendedor de balas mudou. E o pipoqueiro se aposentou. Agora as pipocas são estouradas na hora... no microondas da bomboniere. Dá orgulho de ser carazinhense e poder assistir de vez em quando bons filmes no Brasília.

É o caso de Mamma Mia! da diretora Phyllida Lloyd, que pude conferir na resiliente e histórica tela do Brasília. O filme conta a história de Sophie (Amanda Seyfried), que mora com a mãe numa ilha grega. Sophie está empolgada, pois vai se casar. A alegria só não é completa pois ela não tem quem a conduza ao altar: a mãe é solteira e nunca revelou quem é o pai. Antes do casamento, a moça acha o diário da mãe. O diário conta que Donna (Meryl Streep, fonte de juventude) conheceu (inclusive no sentido bíblico) três homens cerca de nove meses antes de Sophie nascer. Então Sophie convida à festa os três prováveis pais: Sam (Pierce Brosnan), Harry (Colin Firth) e Bill (Stellan Skarsgard). O roteiro é mero veículo para as atmosféricas canções do Abba, cantadas pelo próprio elenco. O modo com que as letras se encaixam no roteiro é no mínimo engenhoso. Divertida alternativa de verão.

Sunday, November 30, 2008

Queime depois de ler

Filme sobre a ridicularidade do ser humano. Filme sobre a banalidade das relações. Filme sobre a inutilidade de órgãos oficiais. Filme sobre a vaidade feminina. Filme sobre a veleidade masculina. Filme sobre a infidelidade feminina e masculina.

Filme sobre a previsibilidade do ser humano. Filme sobre a complexidade das relações. Filme sobre a necessidade de exercícios físicos. Filme sobre a frieza feminina. Filme sobre a superficialidade masculina. Filme sobre a fraqueza feminina e masculina.


Filme sobre Harry Pfarrer (George Clooney), Linda Litzke (Frances McDormand), Chad Feldheimer (Brad Pitt), Osborne Cox (John Malkovich) e Katie Cox (Tilda Swinton). Filme sobre a eficiência de reunir um elenco. Filme sobre a versatilidade dos atores. Filme sobre a criatividade do roteiro. Filme sobre a genialidade dos realizadores. Filme dos irmãos Coen.

Sunday, November 16, 2008

007 - Quantum of Solace (Quanto solaço)

Pelo que pesquisei no google pouca gente sabe o que significa Quantum of Solace. Nem mesmo um dos roteiristas, o oscarizado e ubíquo Paul Haggis. O onipresente Haggis declarou a jornalistas: esse não era o título de sua escolha. Ao que consta, a expressão aparece num dos livros de Ian Fleming para definir o tênue grau de conforto existente numa relação amorosa. "(...) um número exato que define o conforto, a humanidade e o sentimento de amizade necessários entre duas pessoas para o amor perdurar. Sem quantum of solace, o amor está morto". Talvez os produtores tenham achado o título dos roteiristas muito comercial e tenham resolvido complicar ou sofisticar um pouquinho. Ou talvez eles queiram disfarçar no título pomposo a série de erros cometidos na realização de Quanto Solaço.



Main Entry: quan·tum
Pronunciation: \ˈkwän-təm\
Function: noun
Inflected Form(s): plural quan·ta
\ˈkwän-tə\
Etymology: Latin, neuter of quantus how much
Date: 1567
1 a:
quantity , amount b: portion , part c: gross quantity : bulk2 a: any of the very small increments or parcels into which many forms of energy are subdivided b: any of the small subdivisions of a quantized physical magnitude (as magnetic moment)

Fora o engano de escolher um título tão enigmático que nem os próprios roteiristas têm idéia do que se trata, o erro que mais salta aos olhos no novo filme de 007 é de 'miscasting'. Fique tranqüilo/a, não é de Daniel Craig que estou falando. Nem tampouco de Gemma Arterton, que interpreta a ruiva agente Fields, muito menos de Olga Kurylenko, que encarna Camille. Nem de Jeffrey Wright (o agente da CIA Felix Leiter, um dos poucos acertos do roteiro). Refiro-me a Mathieu Amalric, ator gentil e clássico, capaz de comover mexendo apenas um olho (ver abaixo comentário sobre O escafandro e a borboleta), escalado aqui como o vilão Dominic Greene. Carismático nas cenas de diálogo, mas não o tipo de ator para confrontos físicos. E contra Daniel Craig, então, torna-se até ridículo e sem graça uma luta. Mas é esse o 'clímax' do filme: um 'violento e emocionante' combate entre o brucutu, o brutamontes, o neandertal Craig contra o nanico, o mirrado, o esmilingüido Amalric. Não, não me venham dizer que isso é detalhe. Mesmo se fosse, Deus está nos detalhes, já disse um arquiteto famoso. E não me venham dizer também que estou cometendo spoiler, pois todo filme de 007 tem um confronto final entre ele e o vilão, ou o capanga do vilão. Pois até nisso houve miscasting: o capanga também é magricela e pateta.



Main Entry: solace
Function: noun
Etymology: Middle English solas, from Anglo-French, from Latin solacium, from solari to console
Date: 14th century
1 : alleviation of grief or anxiety 2 : a source of relief or consolation

Esses produtores estão ficando previsíveis demais. Pegam um dos melhores diretores atuais, Marc Forster para ser mais exato (2004, Finding Neverland; 2005, Stay; 2006, Mais estranho que a ficção; e 2007, O caçador de pipas), para dar credibilidade e algum estilo (a propósito, seria curioso saber que cenas ele dirigiu, já que a maioria das cenas tem o perfil de terem sido filmadas pelo 'diretor de segunda unidade', por serem cenas específicas de ação). Contratam roteiristas promissores e pelo menos um renomado (Paul Haggis), também para dar um ar de 'puxa, a história deve ser interessante, afinal o roteirista escreveu e dirigiu Crash' (mas em compensação cometeu No vale das sombras). Temperam isso tudo com duas mulheres longilíneas e o resultado da equação deve ser um novo sucesso de bilheteria.


Sucesso de bilheteria à parte, desta vez o pudim perdeu a forma, pois a trama de Haggis e companhia é por demais forçada e descabida. Esses roteiristas partem do princípio que o cérebro do espectador é um depósito de lixo bem grande, capaz de receber montanhosas doses de besteirol, com pretensas críticas políticas embutidas e pretensas piadas. Haggis é o roteirista mais pretensioso da atualidade. E não se recicla, todo filme que ele assina é invólucro das mesmíssimas idéias. Se ainda não viu Quantum of solace: cuidado com a insolação.

Saturday, November 08, 2008

Em busca da vida

Consta que o diretor Jia Zhang-ke era pintor antes de dedicar-se ao cinema. Em busca da vida pinta com tintas soturnas uma China em literal demolição. Prédios demolidos em locais em breve inundados por uma barragem. Vidas demolidas pela incompreensão e pelo desamor. Uma sociedade desarticulada em processo de desconstrução, face às exigências do "mundo globalizado". Uma China na corda bamba - como os demais países do BRIC, grupo de países emergentes que inclui também o Brasil, a Rússia e a Índia - oscilando entre a revolução tecnológica e o uso de métodos que privilegiam a mão-de-obra barata.

Pois é como trabalhador no ramo das demolições que Han (Han Sanming) consegue emprego enquanto procura localizar a esposa e a filha que não vê há dezesseis anos. História inserida dentro da história principal é a de Shen (Zhao Tao), outra pessoa em busca de alguém, no caso o marido que a deixou numa província para trabalhar num centro maior e parou de mandar notícias. Sempre bebericando água de uma garrafa plástica, não sossega até encontrar o marido. Mas o filme centra-se mesmo na saga de Han. Na jornada em busca da filha, conhece pessoas como o dono da pensão desalojado devido às demolições e o simpático colega de trabalho que acaba soterrado no meio dos entulhos.

Com fotografia opressiva, toques non-sense e falta de pressa em contar a (?) história, Jia Zhang-ke ostenta o posto de um dos 'mais importantes cineastas mundiais'. Talvez o mais correto fosse rotulá-lo como um dos 'mais engajados cineastas mundiais'. Que os recursos artísticos utilizados pelo diretor (lentidão, poucas cores, escuridão, ausência de fatos relevantes no enredo) atingem seus objetivos não há dúvida.

A China pintada por ele é uma China de prédios em demolição, vales inundados, pessoas enganadas, trabalhadores explorados com baixos salários e sem o mínimo de segurança, esposas compradas. Uma China em que prevalecem sentimentos como o desamor e a intolerância. Uma China sem esperança. Uma China cuja globalização parece faltar a "face humana", apregoada pelo indiano Jagdish Bhagwati na obra Em defesa da globalização.

REM in POA: Living well is the best revenge


A quinta-feira dia 6 de novembro amanheceu nublada em Porto Alegre. Em alguns pontos da cidade uma fina cerração dava lugar a uma chuva tímida. Tudo levava a crer que poderia chover e estragar as condições do gramado. Mas, para a felicidade geral da nação roqueira, o tempo clareou, e quinze mil felizardos presenciaram o show do R.E.M. no campo do Zequinha (Esporte Clube São José, fundado em 1913 e considerado o 'time mais simpático do RS).

Os colorados torciam para o seu time, que naquela mesma hora enfrentava o Boca Juniors da Argentina pela Copa Sul-Americana. Os gremistas secavam o Inter. Mas todos sem exceção esperavam ansiosos os primeiros acordes da guitarra de Peter Buck, do baixo de Mike Mills e das abençoadas cordas vocais de Michael Stipe.

Abre parênteses. O que faz do R.E.M. uma banda tão apreciada pelos fãs e até mesmo pelos não-fãs, o 'público em geral'? Talvez eles estejam para o rock como o Zequinha está para o futebol gaúcho, ou seja, uma banda que mesmo sem querer agrada a gregos e a troianos, ou pelo menos não desagrada. E volta e meia emplacam hits inesquecíveis e quase unânimes, como é o caso de Imitation of life e Losing (e não 'Loosing', como saiu no Correio do Povo!) my religion, para citar apenas dois exemplos. Fecha parênteses.

Bem, o fato é que às 20 horas e trinta, lá estava eu em companhia da mãe de meu filho de treze meses (que ficou aos cuidados da supervovó) na quilométrica fila para entrar no estádio. Fomos de táxi, por isso aproveitamos para comprar cervejas. 473 ml para cada um depois, adentrávamos no modesto mas (novamente) simpático estádio do Zequinha, que certamente depois deste show tornar-se-á um dos locais do circuito rock porto-alegrense. Tudo preparado, o show de abertura começa, com o Nenhum de nós tocando, entre outras, Camila e Flores na cabeça. In the meantime, começa o jogo do Inter na Bombonera. O vocalista do Nenhum de nós declara que o R.E.M. é a banda predileta deles. Entonces, com a platéia devidamente aquecida, eles saem e os roadies desmontam a bateria da banda gaúcha.

Como vai ser o show? Qual será o setlist? Melhor que o do Rock in Rio 3, em 2001? Repleto de hits, um show pop? Ou mais direcionado aos fãs de carteirinha, que conhecem as músicas mais obscuras? Ou um meio-termo? Em que situação eu me enquadraria, by the way? Tenho todos os álbuns da banda, mas confesso que escutei pouco alguns deles. Por outro lado, domino bem alguns discos relativamente desconhecidos, como Life's rich pageant, de 1986 (o nome desse disco é uma expressão idiomática; 'be part of life's rich pageant/tapestry'; difficult experiences are part of our lives' rich tapestry). Mas felizmente nossa vida é feita de retalhos bons também. Como, por exemplo, ficar imaginando que canções serão escolhidas de um fantástico repertório.

Living well is the best revenge, a faixa de abertura do recente Accelerate (2008), é a escolhida para iniciar os trabalhos. Depois vieram duas que eu não conhecia, que depois fiquei sabendo serem do álbum Monster, muito admirado por uns mas que ainda precisa me conquistar. Enquanto lá na Bombonera o Inter segurava o empate de 0 x 0 no primeiro tempo, no campo do Zequinha a banda norte-americana de Athens, Geórgia, emendava uma canção após a outra, com extrema competência, mas nem sempre com o domínio pelo público do material apresentado. Parecia que a platéia esperava ouvir uma das mais 'conhecidas'. Foi então que a banda disparou a clássica Drive, a faixa um de Automatic for the people (1992). Com sua atmosfera psicodélica e sua cadência hipnotizante, a canção serviu para aproximar mais o público e engrenar um show até ali um pouco frio. Ao mesmo tempo, na Bombonera, o Inter abriu o placar no começo do segundo tempo. Metade do público do show vibrou e entoou "Vamo, vamo, Inter". A outra metade desdenhou e torceu para o Boca empatar, o que aconteceu dez minutos depois.

No palco, a banda continuava a tecer sua colcha de retalhos, alguns um tanto inesperados mas muito bem-vindos (como o caso de Walk unafraid, jóia incrustada no álbum Up, de 1998). Enquanto isso, o colorado caminhava sem medo rumo à vitória em plenas plagas argentinas. Depois de jogada de D'Alessandro, Alex marcou o segundo gol gaúcho, para desespero dos gremistas. O R.E.M., por sua vez, marçou um golaço ao tocar Imitation of life (de Reveal, 2001) . O público animou-se e entoou com ardor o refrão da canção: That's sugarcane, that tasted good /That's cinnamon that's hollywood/ C'mon c'mon no one can see you try... Do álbum novo, mais duas: Man-Sized Wreath e, mais tarde, Horse to Water. Os destaques da primeira fase do show, foram, sem dúvida, além da já mencionada Imitation of Life, The one I love (do LP Document, de 1987) e It's the end of the world as we know it (and I feel fine), também do Document.

Então a banda retirou-se do palco (lá na Bombonera, o Inter retirava-se do gramado, após o apito final: Boca 1 x 2 Inter). No telão, Stipe brincou com o público mostrando recadinhos manuscritos de 'Mais R.E.M.?', 'não estou esutando (sic) vocês'. Com Mike Mills envergando a canarinho, o bis começou com a esperada Supernatural superserious, uma das melhores do Accelerate. Então Peter Buck largou a guitarra e pegou a viola com que ele toca um dos clássicos imortais da banda: Losing my religion, de Out of Time (1991). Depois disso, parecia que nada poderia dar continuidade, era a apoteose consumada. Mas eis que a banda guardava mais surpresas. Uma delas foi fazer subir ao palco a placa "We are Obama too", erguida pelos fãs-porto-alegrenses. Stipe aproveitou a deixa e fez o link com a música seguinte, uma preciosidade pinçada de Life's Rich Pageant: Cuyahoga. A canção fala sobre salvar o Rio Cuyahoga e construir um novo país (ver letra abaixo). Nessa parte do show senti-me um pouco estranho, pois eram poucas as pessoas que como eu cantavam o refrão "Cuyahoga". Depois deste momento inusitado, o que ainda restaria? Duas canções belíssimas do Automatic for the people: Everybody hurts e, para encerrar uma noite perfeita, Man on the moon.

Mais fotos e comentários sobre este memorável show, ver
http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp de onde foi retirada a primeira foto (de Omar Jr.) que ilustra este post. A foto do jogo Inter x Boca é do site http://www.scinternacional.net/.






Foto: Rio Cuyahoga no inverno (http://usparks.about.com/od/parkphotographs/ig/cuyahogaphotos)


CUYAHOGA (Berry/Buck/Mills/Stipe)

Let's put our heads together and start a new country up
Our father's father's father tried, erased the parts he didn't like
Let's try to fill it in, bank the quarry river, swim
We knee-skinned it you and me, we knee-skinned that river red

(chorus 1)
This is where we walked, this is where we swam
Take a picture here, take a souvenir

This land is the land of ours, this river runs red over it
We knee-skinned it you and me, we knee-skinned that river red
And we gathered up our friends, bank the quarry river, swim
We knee-skinned it you and me, underneath the river bed (repeat chorus 1)

(chorus 2)

Cuyahoga
Cuyahoga, gone

Let's put our heads together, start a new country up
Underneath the river bed we burned the river down
This is where they walked, swam, hunted, danced and sang
Take a picture here, take a souvenir

repeat chorus 2)

Rewrite the book and rule the pages, saving face, secured in faith
Bury, burn the waste behind you
This land is the land of ours, this river runs red over it
We are not your allies, we can not defend

Monday, November 03, 2008

R. E. M.


Em semana de show do R.E.M., resgato um texto do baú de relíquias.


R.E.M.

Rapid Eye Movement. Enquanto você sonha, dormindo, eletrodos levemente afixados às suas pálpebras podem detectá-lo. Movimento ocular rápido, rápido; trajetória de cometas, beija-flores, granizo...

Relâmpago, êxtase, mágica! Eletrizante e onírica, pulsante e otimista, trilha para dias de céu azul intenso e noites flechadas por estrelas cadentes; assim é a música do R.E.M., banda de rock. Mills, Berry, Stipe e Buck, respectivamente baixo, batera, voz e guitarra.

Reinaram nas garagens de Athens, Georgia, no circuito independente e nas rádios alternativas; hoje estão no cast da Warner e tocam para platéias de 20.000 pessoas. Entrelaçam acordes country ao urbano desespero; a acústica suave, o ar, a poesia, ao mais pesado dos metais. “MURMUR”, o primeiro LP, de 83, soou como um grito de lucidez no universo pop, tão forte e compacto como a canção símbolo desta estréia, Radio Free Europe.

RECKONING”, o segundo trabalho, veio no ano seguinte e marcou a sedimentação do estilo único do grupo e, embora os mais entendidos o tenham taxado como de “menor inspiração”, tem sete irmãos chineses e muita transpiração. “Este é o meu erro, deixe-me fazê-lo bem feito”, letra do LP “GREEN”, seria perfeita para abrir “FABLES OF THE RECONSTRUCTION”, o terceiro e o “menos bom” da carreira, por sinal, o primeiro a ser lançado em nossas plagas, na amarela moldura da New Rock Collection. Meses depois, “LIFE’S RICH PAGEANT”, o quarto, de 86, segundo os entendidos não alcançou “resultado satisfatório”; levou os fãs, porém, ao orgasmo.

Rispidamente começa, com a canção de trabalho mais refinada, a hora mais primorosa: “DOCUMENT”, o quinto, documenta a ascensão do R.E.M. para além das nuvens, uma tour alucinante na alta estratosfera, na carona da supersonicamente acelerada “It’s the end of the world (as we know it)”. E sobra tempo para brincar: “DEAD LETTER OFFICE”, que Thomas Pappon bem conceituou como o disco que todas as bandas gostariam de fazer: sobras de LPs, covers, lados B de singles. Mata nativa em dia de sol, com suas diferentes tonalidades de verde – imagem comparável a “GREEN”, laranja de capa e, na realidade, maduro, foi o disco mais bonito, mais vivo, mais transmissor de esperança lançado no Brasil no ano passado.

Publicado originalmente no zine Wall of Sound (editora Jussara Neves), em janeiro de 1990.

Wednesday, October 08, 2008

Busca implacável



O diretor Pierre Morel, após estrear em 2006 com o elogiado District B13 (também rodado em Paris e também co-escrito por Luc Besson), lança um filme direto ao ponto. Sem frescuras ou trejeitos, lembra o ritmo de O profissional, de Luc Besson. Pra começar, o maior e indiscutível mérito dos produtores foi o de selecionar o cara certo para o papel ideal: Liam Neeson, do alto de seus 56 anos, está perfeito na pele de Bryan, agente do governo. Agora aposentado, de vez em quando colabora com ex-colegas na segurança de eventos. Paralelamente, procura aproximar-se da filha de 17 anos Kim (Maggie Grace), sem contar com a ajuda da ex-mulher Lenore (a sublime Famke Janssen). Quando na ativa, o trabalho de Bryan era impedir que coisas ruins acontecessem. Mas isso não impede que uma coisa pra lá de ruim aconteça com Kim, a passeio em Paris. Bryan pega o primeiro avião a Paris para tentar resgatá-la. Ação sem firulas.


Tuesday, October 07, 2008

The Cult World Tour, Porto Alegre, 02 de outubro de 2008

Na última quinta-feira subiu ao palco do Pepsi on Stage em Porto Alegre a banda britânica The Cult. A "formação original" prometida consistia na dupla que constitui a espinha dorsal do Cult: o vocalista Ian Astbury e o guitarrista Billy Duffy. Os outros músicos não constam no cd Pure Cult, que traz as formações mais importantes da banda. Mas o aloirado baixista Chris Wyse, o estranhíssimo guitarrista Mike Dimkich e o discreto (nas atitudes, não na habilidade) baterista John Tempesta não deixaram a peteca cair e fizeram a base sonora para a voz de Astbury e a guitarra de Duffy se destacarem.

Astbury, que na década de 80 usava uma vasta cabeleira negra e cantava que os seus cabelos eram uma extensão de sua alma, agora naturalmente está com um corte mais comportado. Por isso é um tanto irônico que tenha comentado sobre o cabelo dos porto-alegrenses, segundo ele, dignos de uma convenção de jovens empresários. Mas Astbury falou pouco, cantou muito e tocou bastante pandeiro.

Em uma hora e dez minutos de show pulsante, a banda apresentou canções do novo álbum Born into this, e sucessos como Rain, Wild Flower, Eddie (Ciao Baby) e Love Removal Machine. Ao cabo do tempo regulamentar, a banda retornou para um magro, cronometrado mas elétrico bis: Sweet Soul Sister e a clássica das clássicas She Sells Sanctuary.

Foto: Omar Freitas.

Tuesday, August 26, 2008

DAVID LYNCH NO FRONTEIRAS DO PENSAMENTO


AUTO-AJUDA
Em 10 de agosto de 2008, o diretor de cinema David Lynch esteve em Porto Alegre para a divulgação de seu livro de auto-ajuda Catching the Big Fish (que no Brasil recebeu o título Em águas profundas). Quem foi ao auditório da Reitoria da UFRGS esperando palavras sobre cinema saiu decepcionado: noventa por cento do tempo Mr. Lynch teceu elucubrações sobre a importância da meditação e de que como o bem-estar pode ser canalizado para boas coisas, inclusive para fazer obras de arte.

OUR NATURE IS BLISS
Se fosse para resumir o colóquio de Mr. Lynch em uma simples frase, seria “Our nature is bliss!”. O bordão foi repetido várias vezes pelo convicto cineasta, afirmando sua crença em que o ser humano nasceu para ser feliz. A natureza humana, frisou Mr. Lynch, é encantamento e felicidade. Felizes, produzimos mais em todos os sentidos. Sentindo-nos miseráveis e depressivos não conseguimos alcançar nossos objetivos.

PERGUNTAS

A palestra de David Lynch foi dada em formato “perguntas e respostas”. Um “host” um tanto deslumbrado e fazendo piadas no mínimo desnecessárias (como aquela sobre Quem matou Laura Palmer) seguiu um protocolo de perguntas-padrão. Teoricamente, o público poderia enviar perguntas, mas o critério de seleção das perguntas do público foi também no mínimo equivocado. Tanto que a última e constrangedora pergunta (novamente a insistência, “O sr. pode nos dizer quem matou Laura Palmer?”) recebeu a única e límpida resposta: “Essa pergunta é absurda”.

DONOVAN
Para ajudar David Lynch em sua peregrinação e pregação pró-meditação, acompanha-o mundo afora o bem-sucedido músico dos anos 60, Donovan, que naquela década emplacou vários hits. Assim, a platéia pôde curtir quatro de suas canções, interpretadas ao melhor estilo ‘voz e violão’.

AUTÓGRAFOS
Os tietes de Mr. Lynch após o evento enfileiraram-se no pátio da Reitoria para conseguir um autógrafo do carismático cineasta e artista multimídia, que no momento não trabalha em nenhum projeto na área de cinema. Um dos fãs porto-alegrenses pediu um autógrafo no braço e depois mandou tatuar. Minha irmã contentou-se com a assinatura no livro e um simpático recado verbal: “Take care”.
Foto: Ana Guerra

Tuesday, August 19, 2008

Mangue Negro



Fantástica realização de Rodrigo Aragão. Nascido em 1977 na comunidade de pescadores do Perocão, em Guarapari, cresceu no meio de muita imaginação e fantasia – o pai era mágico profissional e dono de cinema. Com esse background, nada menos surpreendente que, ao assistir filmes como O Império Contra-Ataca, de George Lucas, e Uma Noite Alucinante, de Sam Raimi, o menino ficasse entusiasmado por efeitos especiais e terror. O interesse adolescente estava lá, mas só com muito esforço transformou-se em habilidade para fazer efeitos eficientes e roteiros funcionais. Essa habilidade, desenvolvida e posta em prática nos curtas Chupa Cabras (2004), Peixe Podre (2005) e Peixe Podre 2 (2006), pode agora ser conferida em seu primeiro longa: Mangue Negro.

O filme integrou a mostra de filmes fantásticos de Porto Alegre – o conceituado Fantaspoa – e também teve sessão no Clube do Cinema de Porto Alegre, na presença do realizador.
Antes da sessão, o diretor capixaba disse que o objetivo dele ao fazer o filme era apenas possibilitar momentos de diversão ao público, deixando claro que se tratava de um filme com certo “nicho de mercado”.

Ao cabo da película (?) (o filme foi passado em dvd) a platéia estupefata pôde tecer considerações e críticas, tirar dúvidas e fazer perguntas. Uma dessas perguntas envolveu justamente o comentário de antes da sessão: qual a relação entre diversão e horror? O que há de divertido em colocar os heróis do filme na madrugada no meio de um mangue cheio de zumbis esfomeados e alucinados? A resposta concisa: o horror, para Rodrigo Aragão, é algo intrinsecamente divertido.
O custo do filme? Estarrecedoramente baixo para a qualidade do produto final: 60 mil reais, levantados com um empreendedor privado após assistir a 15 minutos do filme produzidos com sacrifício do elenco e da equipe, pagando despesas de transporte com dinheiro do próprio bolso.

Com simpatia, Aragão respondeu a todos, inclusive a mim, que perguntei o que diacho era um caramuru. Na minha ignorância de gaúcho, não sabia o nome dessa espécie de moréia do manguezal, de carne não muito apreciada, mencionada no filme. E como essa há outras referências bem regionais que dão a Mangue Negro sua autenticidade e visceralidade.

Vísceras, aliás, não faltam. Nem sangue de mentira. Nada menos que setecentos litros de sangue (cuja receita inclui até chocolate) foram gastos nas filmagens, inteiramente realizadas no quintal da casa de Rodrigo - onde ele construiu com madeiras velhas os barracos que serviram de cenário e por onde passa o principal astro do filme: o mangue.

Logo na primeira cena o espectador é apresentado ao bizarro meio em que as ações ocorrem. Uma câmera meio Peter Jackson-meio Sam Raimi aproxima-se depressa de um bote e enquadra o rosto de Agenor dos Santos (Markus Conká), um pescador contador de causos que percorre lentamente o mangue em busca de um pesqueiro, na companhia do colega remador. A tomada tem grande eficácia para incitar a curiosidade, criar a atmosfera de suspense e introduzir as personagens.

Batista (Reginaldo Secundo) enterra as mãos na lama à cata de caranguejos cada vez mais escassos. A brejeira Raquel (Kika de Oliveira) lava roupas na beira do mangue para ajudar a mãe, presa a uma cama e deficiente visual. O tímido Luís (Valderrama dos Santos) ensaia uma declaração de amor. O asqueroso Valdê (Ricardo Araújo), pai de Raquel, recebe a visita do asqueroso atravessador (Antônio Lâmego), que, enquanto espera um lote de caranguejos asquerosos, dá em cima de Raquel, para desespero de Luís.

Mas, quando o mundo enlouquece e seres desvairados e esfaimados despertam do fundo do manguezal, Luís é obrigado a adiar os momentos idílicos e a se preocupar com o essencial: salvar a pele (e a carne) da amada (e a sua também). Em meio à gosma e ao sangue, Luís maneja a machadinha com perícia, tentando repelir o ataque irresistível dos zumbis à cabana. Quando a doce carne de Raquel é dilacerada por dentes infectos, a única chance passa a ser a preta velha Dona Benedita (André Lobo), que aconselha Luís a (em plena madrugada e no mangue infestado de mortos-vivos) pescar um baiacú, cujo fel pode salvar Raquel. A preta velha é importante e bem interpretada, além de emprestar certo misticismo ao filme, mas o ritmo cai nessa parte. Aliás, no final, a única crítica feita pelos cineclubistas foi que o filme poderia ser um pouco mais curto.

Mesclando crítica ecológica e humor negro, fotografia dark e tomadas eficazes, Mangue Negro é um clássico do horror tupiniquim. A versatilidade do diretor lembra a de outro criador de efeitos especiais: Tom Savini, o responsável pelos efeitos dos filmes de George Romero. Com a diferença que Savini só estreou na direção em 1990, no remake de A noite dos mortos vivos. O Tom Savini brasileiro logo na estréia dirige, cria efeitos especiais e roteiriza. Com a pretensão apenas de divertir, mas despretensão não torna um filme bom. Talento, sim.

Saturday, July 19, 2008

O Cavaleiro das Trevas

Christopher Nolan despontou com seu segundo filme, Amnésia (Memento), prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Sundance, em 2000. Antes filmara Following (1999). Com forte tendência de focalizar o interesse de seus filmes mais na edição do que em outros fundamentos como algo a contar (faça uma simples experiência: alugue Amnésia e selecione o extra em que o filme passa na ordem cronológica dos eventos), de modo curioso Nolan viu-se alçado à condição cômoda de novo queridinho da crítica. A partir daí, teve carreira meteórica: fez o sonolento Insônia (2002), com cenas patéticas de perseguição protagonizadas por um obeso Robin Williams e um quase ancião Al Pacino. Apesar disso, seus filmes iniciais demonstraram certa originalidade só percebida em cineastas promissores. Mas, tendo apenas 3 filmes no currículo, foi comprado pelo sistema. Escalado para dirigir a nova série de filmes do Batman, passou a dedicar-se quase que exclusivamente à franquia (a exceção foi a pausa para realizar O Grande Truque - The Prestige, 2005, com Hugh Jackman). Então, o que poderia se tornar uma carreira inventiva, inovadora e imaginativa passou a ser mero exercício de competência e aprimoramento.
Em Batman Begins (2005), e também agora com O Cavaleiro das Trevas, Nolan não decepcionou os fãs dos primeiros filmes, além de agradar aos endinheirados produtores que o contrataram. E, é claro, agradou também a crítica. Seria Nolan uma pessoa com o poder de agradar a atenienses e espartanos?

O fato é que o poder corrompe. E no caso de Nolan esse poder aparece em minutos a mais de película. Senão, vejamos:
Following (1999) = 1 hora e 10 minutos;
Memento (2000) = 1 hora e 56 minutos;
Insomnia (2002) = 1 hora e 58 minutos;
Batman Begins (2005) = 2 horas e 20 minutos;
The Prestige (2006) = 2 horas e 15 minutos;
The Dark Knight (2008) = 2 horas e 32 minutos.
Como é fácil de observar, os filmes mais recentes de Nolan tem metragem mais extensa. Tudo isso para dizer que O Cavaleiro das Trevas seria um ótimo filme caso tivesse menos duração.
Se Nolan não tivesse tido a ânsia de contar muitas histórias num filme só, teria realizado um filme melhor - mas ninguém em sã consciência poderia dizer que "não ficou bom". Apenas quero dizer que a parte final é excessiva. Como prova disso, dou o testemunho de ter cochilado na parte daquela função dos barcos.
Quanto à atuação de Heath Ledger, é algo de memorável e surpreendente. Falar mais do que isso seria correr o risco de cometer clichês e ser... excessivo.

Saturday, July 12, 2008

O escafandro e a borboleta


Estudo de Julian Schnabel sobre a necessidade humana de comunicar pensamentos de forma articulada. Podendo mover apenas um olho, Mathieu Amalric interpreta Jean-Dominique Bauby, redator de uma revista de moda que, aos quarenta e dois anos, tem um acidente vascular cerebral. O filme focaliza as sensações de Bauby no hospital, ao perceber sua situação desesperadora (compreende tudo o que se passa mas só consegue mover o olho esquerdo). Por exemplo, numa cena de puro terror, Jean-Do vê o seu olho direito sendo costurado por decisão do médico-chefe Dr. Lepage (Patrick Chesnais). Com a pertinácia da fonoaudióloga, Bauby aos poucos começa a expor o que pensa. Primeiro, piscando uma vez para dizer "sim" e duas vezes para dizer "não". Mais tarde, ao ver repetida uma seqüência das letras do alfabeto (a partir da letra de uso mais freqüente até a menos freqüente), piscando letra a letra para formar palavras e frases. O método, apesar de demorado, seria otimizado pelo treino e renderia - com a colaboração exaustiva de Claude (Anne Consigny) - um livro aclamado pela crítica. Entremeadas ao drama da recuperação atual, cenas ajudam a montar o passado da personagem, sua agitada vida profissional, seu relacionamento com o pai Papinou (Max von Sydow), o amor pelos filhos, a relação contraditória com a ex-mulher Celine e a paixão pela namorada Inès (Agatha de la Fontaine). São inúmeros os momentos tocantes do filme, mas gostaria de mencionar um: quando Inès liga ao hospital e a ex-mulher Celine (encarnada de modo inesquecível por Emanuelle Seigner) precisa intermediar a conversa.

Saturday, July 05, 2008

WALL-E


Filho, com teus 9 meses, tu é muito novinho para ir ao cinema. Mesmo assim, estou tentando convencer tua mãe a participar dessa aventura.

Wall-E é um robozinho solitário e incansável, um dos únicos habitantes do planeta Terra, fabricado para coletar o lixo, esmagá-lo em pequenos cubos e fazer pilhas gigantescas de resíduos. A propósito, Wall-E é uma sigla em inglês (Waste Allocation Load Lifter - Earth Class), que significa algo como "Carregador e Transportador de Resíduos - Classe Terrestre". Indiferente à sua quase total solitude, Wall-E faz o que está programado a fazer. Mas está na cara que ele é um robozinho inteligente e sensível. Misto de obediência robótica e inteligência artificial, tem como único amiguinho uma barata, e como seu único momento de lazer assistir ao musical de Gene Kelly, Hello, Dolly (1969). Faz isso sempre que chega em casa - o container em que descansa depois do longo dia de trabalho. No seu cantinho, coleciona um monte de tralhas que vai achando durante o dia e que acha interessante. Mas por que Wall-E mora quase só na imensa Terra? É que os terráqueos, devido à poluição, tiveram de abandonar o planeta. Agora agora moram numa estação espacial numa galáxia próxima. Na rotina de Wall-E, também está o convívio com estranhas, freqüentes e ruidosas movimentações vindas da atmosfera. Um dia, Wall-E vai descobrir do que se trata, e conhecer uma robozinha que vai mudar sua vida. Não te preocupa, não vou contar toda a história pra ti. Acho que assim tu já pode ter uma idéia. O diretor do filme (a pessoa que toma as decisões mais importantes, planeja as tomadas e escolhe os movimentos da câmera) é Andrew Stanton, o mesmo de Procurando Nemo. Wall-E é um alerta não apenas para a tua geração, mas para toda a humanidade cuidar melhor desse tênue ponto azul chamado Terra.

Friday, June 27, 2008

Antes que o diabo saiba que você está morto

O legendário Sidney Lumet (nascido em 25 de junho de 1924) traz a lume um aterrador estudo sobre a corrupção moral e ética de membros de uma família de classe média alta. Com cinqüenta filmes no currículo, entre eles Doze Homens e uma Sentença (1957), Serpico (1973), Assassinato no Expresso Oriente (1974), Um Dia de Cão (1975), Rede de Intrigas (1976) e O Veredito (1982), Lumet ganhou fama como "diretor de atores", ou seja, o tipo de cineasta que costuma fazer ensaios das cenas (nas décadas de 50 e 60 dirigiu teatro na Broadway) e extrair do elenco atuações iluminadas. Ethan Hawke está frágil e manipulável como Hank, o irmão mais novo do maquiavélico Andy (Philip Seymour Hoffman). Apesar de pertencerem a uma "boa família" e de terem crescido como satélites de um pai bem sucedido nos negócios, os dois mancebos chegam na maturidade quebrados e desesperados por dinheiro. Andy concebe um plano perfeito: roubar uma pequena joalheria cuja atendente é uma senhora de idade e lucrar com o roubo a bagatela de 600 mil dólares, entre o caixa e as jóias. Com um pequeno detalhe: a joalheria pertence a Charles (Albert Finney), ninguém menos que o pai deles. Outro detalhe sórdido (?) desta sórdida história tem a ver com Gina (Marisa Tomei), esposa de Andy e amante de Hank. É legal lembrar que as lúcidas películas de Lumet continuam iluminando a arte dos irmãos Lumière - como é legal perceber que o corpo de Marisa Tomei continua perfeito.

Na minha cabeça este filme faz intertexto com a canção abaixo:

Pace is the trick (Interpol)
You can't hold it too tight
These matters of security
You don't have to be wound so tight
Smoking on the balcony
But it's like sleaze in the park
You women you have no self-control,
We angels remark outside
You are known for insatiable needs
I don't know a thing
I've seen love
And I follow the speed in the starlight
I've seen love
And I follow the speed in the starswept night
Yeah pace is the trick
And to all the destruction in man
Well I see you as you take your pride, my lioness
Your defences seem wise I cannot press
And attentions at demise, my lioness
Can't you hurt it some, think I hurt it
I've seen love and I follow the speed in the starlight
I've seen love
And I follow the speed in the starswept night
And now I select you,
Slow now I let you
See how I stun, see how I stun
Now I select you, slow now I bet you
See how I stun, see how I stun
and to all the destruction in man
and to all the corruption in my hand...
And now I select you,
Slow now I let you see how I stun, see how I stun
Now I select you, slow now I bet you see how I stun, see how I stun
Now I select you,
Slow now I let you, see how I stun, see how I stun
Now I select you, slow now I let you
I always follow the speed in the starswept night...
You don't hold a candle

Sunday, June 22, 2008

Chega de saudade

Filme conceitual de Laís Bodanzky, o segundo da cineasta de Bicho de sete cabeças. Diferentemente de O baile (1983), de Ettore Scola, que por meio da música e das memórias das personagens de um salão de baile retoma 60 anos de história da França, Chega de saudade (2008), bem menos pretensioso, conta
apenas a história de um baile. Neste democrático salão paulista, dançam pessoas de todas as idades, cores e credos. Desde o malevolente Eudes (Stepan Nercessian), que dá em cima de Marici (Cássia Kiss), mas tira para dançar Bel (Maria Flor), namorada do DJ Marquinhos (Paulo Vilhena), colega de trabalho do garçom Gilson (Marcos Cesana), conselheiro do viúvo Álvaro (Leonardo Villar), que briga com a também viúva Alice (Tonia Carrero), que dança com o argentino Hugo (Raul Bordale), que protagoniza cenas tórridas com a fogosa Rita (Clarisse Abujamra), até a triste Elza (Betty Faria), que inutilmente tenta atrair atenção dos coroas. Uma cornucópia de personagens que flutua num salão onde tudo pode acontecer. Entre blecautes e cenas de ciúmes, embalado por som ao vivo ou "mecânico", o baile progride e revela a essência de cada personagem. Uma boa (e dançante) surpresa.

Monday, June 16, 2008

O Incrível Hulk

Começo a achar que sou "do contra". Quando "crítica" e "fãs" decepcionaram-se com Hulk (2003), publiquei texto intitulado Hulk, King Kong e o Lobisomem (http://olharcinefilo.weblogger.terra.com.br/200306_olharcinefilo_arquivo.htm)
elogiando o trabalho de Ang Lee. Portanto, se supostamente este O Incrível Hulk (2008) foi feito no intuito de desfazer a impressão do primeiro, no meu caso essa tese não se aplica. O francês Louis Leterrier, o diretor do novo filme (que tem no currículo Cão de Briga - Unleashed, 2005 - e Carga Explosiva 2 - Transporter 2, 2005), prefere um discurso humilde e conciliador. Em entrevista recente ao jornal Folha de São Paulo, comenta sobre as reações ao primeiro Hulk: "É engraçada a reação ao filme de Ang Lee. Os fãs mais radicais odiaram de verdade, mas alguns gostaram por seu valor cinematográfico. Esse foi o desafio, fazer algo suficientemente diferente para agradar aos fãs, mas não irritar quem gostou do filme de Ang. Tentei fazer um complemento à obra dele". O diretor Louis Leterrier alcançou o objetivo: o novo Hulk não desagrada as pessoas que gostaram do primeiro (entre outros, pessoas que admiram o trabalho de Ang Lee como diretor e o trabalho de Jennifer Connelly como atriz). E, ao buscar as raízes da personagem nas HQs e na série televisiva, procura satisfazer e renovar os fãs do anti-herói esverdeado.
Segundo Stan Lee, o criador da personagem, Hulk é um misto da criatura de Victor Frankenstein (concepção de Mary Shelley, no livro Frankenstein, de 1818) e Mr. Hyde, a face monstruosa do Dr. Jekyll (O Médico e o Monstro, 1886, de Louis Robert Stevenson). Fã de aliterações (vide Peter Parker), Stan Lee deu ao cientista nome e sobrenome com a mesma letra: Bruce Banner. Interpretado por Bill Bixby (mais aliterações!) na série televisiva dos anos 70 e por Eric Bana em 2003, agora Banner é vivido por Edward Norton (As Duas Faces de um Crime, 1996; O Clube da Luta, 1999). O papel de Jennifer Connelly, Betty Ross, agora é de Liv Tyler. O general Ross é encarnado por ninguém menos que o oscarizado William Hurt. O ator inglês Tim Roth é o militar Emil Blonsky, que depois se transforma na Abominação. Curiosidade: o fisiculturista Lou Ferrigno, que pintado de verde fazia o Hulk da TV, faz a voz do Hulk 2008, além de uma ponta como o segurança que aceita uma pizza como propina.
O roteiro nos leva ao Rio de Janeiro, na Favela da Rocinha (na verdade as cenas foram filmadas na favela Tavares Bastos, com tomadas aéreas da Rocinha), onde Bruce Banner trabalha numa antiga indústria de bebidas. Aqui, um parênteses nacionalista. É constrangedor o modo que os "brasileiros" do filme falam português. Arrevesado, enrolado e totalmente fora do vernáculo. Segundo o diretor Louis Leterrier explicou-se à Folha, ficaria muito "caro" contratar atores brasileiros para filmar no Canadá (onde a maioria das cenas foi realizada). Daí, nós brasileiros somos obrigados a tolerar este tipo de coisa. Diga-se de passagem, os dois únicos atores genuinamente brasileiros do elenco enriquecem esta fase do filme: a brejeira Débora Nascimento, colega de Banner na fábrica, e o convincente Rickson Gracie, instrutor de artes marciais que ensina Banner a dominar a respiração e a adrenalina. Banner está no Brasil atrás de uma flor que pode servir como antídoto para a sua condição (de se transformar num monstro poderoso e incontrolável quando sente muita raiva, medo ou emoções fortes). Pela Internet, Banner mantém contato e recebe dicas de um misterioso cientista, Mr. Blue (Tim Blake Nelson). Mas o incansável General Ross (Hurt) está no encalço de Banner, a fim de transformá-lo numa cobaia-modelo para um super-soldado. Para a missão de capturá-lo no Brasil, contrata o veterano Emil Blonsky (Roth, não o Celso). Quando a missão gringa chega ao Brasil atrás de Banner, começa a ação, a perseguição - e os crimes contra a geografia. Não é à toa que o povo americano não entende patavinas de geografia. Hulk foge do Rio e Banner acorda na Guatemala! Tudo bem que ele se locomove com pulos quilométricos, mas não precisavam exagerar tanto. Podia ter feito uma paradinha na Venezuela, ou até mesmo no Panamá. Da Guatemala ao México e do México aos Estados Unidos, Banner vai atrás dos dados que podem lhe ajudar a alcançar a cura. Leterrier capricha na agilidade da câmera, mas seu O Incrível Hulk perde para o Hulk de Ang Lee.

Saturday, June 14, 2008

Bella

Filme preferido do público em Toronto 2006, Bella é o longa de estréia do mexicano Alejandro Gomes Monteverde. Segundo alega superiormente o crítico Roger Ebert, ele "consegue entender" por que este filme foi a escolha popular e, em vez de dizer o que o filme é, prefere dizer o que não é: nem "profundo" nem "estúpido".
Puxa vida! O famoso resenhista não esclarece, porém, o que ele considera um filme "profundo" e um filme "estúpido". Filme profundo seria, talvez, aquele que possibilita leituras variadas, faz intertextos, gera reflexões, provoca o intelecto ao mesmo tempo que carrega ternura? Filme estúpido seria, talvez, a antítese do filme profundo, aquele que não possibilita leitura alguma, faz pastiches, não gera reflexão alguma, afronta o intelecto ao mesmo tempo que carrega repulsa? Profundo seria Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman? Estúpido seria Fome Animal, de Peter Jackson?
O raciocínio de que Bella "não é estúpido" soa-me uma tremenda estupidez.
Bella é bem mais do que apenas isso. Comparado com a maioria dos filmes atuais, Bella é um filme profundíssimo. Tipo do filme que dá vontade de cultuar e de ver repetidas vezes, assim como Lúcia e o Sexo (leia sobre o filme de Julio Medem em

(http://olharcinefilo.weblogger.terra.com.br/200305_olharcinefilo_arquivo.htm). Por sinal, Monteverde deve ter algum tipo de admiração por Julio Medem. Os dois filmes tecem retalhos intertextuais e sob certos aspectos abordam temas afins.
Em Bella, Jose (o carismático Eduardo Verastegui) trabalha como cozinheiro-chefe do restaurante de seu irmão Manny. No dia em que o exigente Manny despede Nina (Tammy Blanchard) por ter chegado a terceira vez com atraso ao trabalho, Jose abandona a cozinha e segue Nina. Os dois passam o dia juntos, numa jornada de conhecimento mútuo e revelações pessoais. Delicado e sensível, Bella merece a atenção de quem é capaz de apreciar cinema - desde os filmes mais profundos até os mais estúpidos.

Tuesday, June 10, 2008

As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian

A obra acadêmica mais importante do irlandês C. S. Lewis (1898-1963) chama-se The Allegory of Love: A Study in Medieval Tradition (1936). É na fonte da literatura medieval e das mitologias romana, grega e nórdica que Lewis embasa o mundo de seres fantásticos e animais falantes criado nas Crônicas de Nárnia, série de 7 livros infanto-juvenis lançada ao longo da década de 1950 (1950, O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa; 1951, Príncipe Caspian; 1952, A Viagem do Peregrino da Alvorada; 1953, A Cadeira de Prata; 1954, O Cavalo e seu Menino; 1955, O Sobrinho do Mago; e 1956, A Última Batalha). Marcada pela apologética cristã, as Crônicas de Nárnia são uma metáfora da luta do bem (os habitantes de Nárnia - animais, centauros, faunos) contra o mal (o povo Telmarine, de aparência humana). O único personagem presente em todos os livros é o leão Aslam (que, para alguns, representa Jesus Cristo). Dublado por Liam Neeson, Aslam em O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa comanda as ações; em Príncipe Caspian aparece pouco, mas decisivamente. O diretor do primeiro filme das Crônicas de Nárnia, Andrew Adamsom (co-diretor de Shrek e Shrek 2), continua o maior responsável pelo processo de trazer à tela a obra rica de Lewis. Partícipe da roteirização, Adamson enfatiza a ação e as batalhas, sem, entretanto, privar a película da alegoria do amor, no caso, entre Caspian (Ben Barnes), príncipe dos Telmarines, e Susan Pevensie (Anna Popplewell), tímida estudante londrina/rainha arqueira de Nárnia. A sessão contou com a simpática presença de um grupo de adolescentes do sexo feminino, que dominou a fileira de cima e, por sua inquietude, impaciência e certa falta de etiqueta cinéfila, provocou contínuas (e infrutíferas) reclamações de Telmarines, digo adultos rabugentos.

Thursday, May 29, 2008

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal


Qualquer pessoa um pouco ligada em cinema sabe que não há mistério na receita para se fazer um bom filme. Bom roteiro, bom elenco, boa equipe e bom diretor quase invariavelmente resultam num bom filme. Há casos, porém, em que o roteiro parece ótimo, o elenco é cheio de figurões, a equipe técnica é oscarizada e o diretor tem uma filmografia quase impecável, mas o resultado é uma droga. Em que categoria se enquadra Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal?

Comecemos nossa análise pelo roteiro. Bem estruturado, faz o espectador entrar na história de modo envolvente. Com ingredientes clássicos como mapas em código, povos remotos, tesouros perdidos, objetos mágicos e segredos misteriosos, traz também pitadas de humor e inúmeras citações intertextuais com os primeiros três filmes da série. Além disso, ao fixar o ano das ações em 1957, lança mão de humor político, com menção à guerra fria EUA x Rússia e à "caça às bruxas" ianque contra os "comunistas", ocorrida na década de 1950. Por isso, com um ou outro senão, é possível afirmar que o roteiro foi muito bem trabalhado e executado.

O elenco do filme? Bem, é chover no molhado falar, por exemplo, na qualidade de Cate Blanchett, mas a verdade é que ela comprova mais uma vez o grande talento como a gélida Irina Spalko, militar e pesquisadora russa que procura de modo obstinado descobrir a origem e a verdade sobre a Caveira de Cristal. Karen Allen, no papel de Marion Ravenwood, numa ótima jogada dos roteiristas, dá o ar de sua graça na série, depois de um longo e tenebroso inverno (só tinha estrelado Os Caçadores da Arca Perdida). Ela contribui com seu charme (que não diminuiu com a idade) para tornar o filme melhor. Já Shia LaBeouf (isso lá é nome de gente?), um dos atores mais versáteis e solicitados na Hollywood atual (senão, vejamos: participou do blockbuster Transformers [2007], do obscuro Paranóia [2007] e do alternativo Bobby [2006]), não podia deixar de marcar presença e não decepciona na pele de Mutt Williams, o rebelde motoqueiro que pede ajuda a Indy para resgatar o Professor Oxley, perdido em algum lugar da América do Sul. Oxley, por sua vez, é interpretado por um descabelado e alucinado John Hurt, outro mestre da metamorfose (já fez por exemplo O Homem Elefante, de David Lynch e serviu de pasto para o primeiríssimo Alien, de Ridley Scott). Ray Winstone interpreta Mac, parceiro de Indy nas aventuras, enquanto Jim Broadbent encarna o reitor da Universidade que é obrigado a afastar Indiana Jones, devido às investigações da CIA. Em resumo, o elenco tem peso, inspiração e todos os clichês mais que você conseguir lembrar. Mas, falta falar dele, não é?
Sim, e o que dizer do nosso velho Harrison Ford? Em 35 anos de carreira, já trabalhou com alguns dos melhores diretores, como George Lucas (American Grafitti, 1973; Guerra nas Estrelas, 1977; O Império Contra-Ataca, 1980 e O Retorno de Jedi, 1983); Francis Ford Coppola (A Conversação, 1974 e Apocalypse Now, 1979); Steven Spielberg (Os Caçadores da Arca Perdida, 1981, Indiana Jones e O Templo da Perdição, 1984, Indiana Jones a A Última Cruzada e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, 2008); Peter Weir (o filmaço imortal A Testemunha, 1985, e o incompreendido A Costa do Mosquito, 1986); Ridley Scott (o cult dos cults Blade Runner, 1982); Mike Nichols (Uma Secretária de Futuro, 1988); Roman Polanski (Frantic, 1988); Alan Pakula (Presumed Innocent, 1990); Phylip Noyce (Jogos Patrióticos, 1992, e Perigo Real e Imediato, 1994); Andrew Davis (O Fugitivo); Sidney Pollack (que os Deuses do bom cinema o tenham, Sabrina, 1995) e Kathryn Bigelow (K-19, 2002). Diga-me com quem andas, que eu dir-te-ei quem és. Só o fato de ter trabalhado com tanta gente genial já poderia atestar a qualidade e o carisma de Harrison Ford. Mas não se trata disso, de citar currículo por citar, de criar fama e cair na cama. O carpinteiro que virou ator humilde nunca quis ser diretor. Ford é um cara que sabe as próprias limitações. E apesar delas, deu vida a inúmeras personagens e cenas gravadas na retina de quem ama cinema.
Falando em retina, essa é a deixa para comentar sobre a equipe reunida para otimizar o filme. Sim, pois O Reino da Caveira de Cristal tem uma das características marcantes dos filmes de Spielberg: a excelente fotografia assinada por Janusz Kaminski. A música? John Williams. A produção? George Lucas e Frank Marshall. O roteiro? David Koepp, baseado em história de George Lucas. Para quem não lembra de David Koepp: ele assinou nada menos que Jurassic Park, Missão Impossível, Homem Aranha, Quarto do Pânico, sem falar nos dois filmes de Brian De Palma: Carlito's Way e Olhos de Serpente. Em suma, uma bela equipe como era de se esperar.
O que nos leva ao homem que ganha o crédito artístico: o diretor. No caso, Steven Spielberg. Desde que estreou com o baixo orçamento de Encurralado (1971), passando pelo blockbuster Tubarão (1975), pelo pioneiro Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) e pela magia de E.T. (1982), até chegar ao Oscar em A Lista de Schindler (1993), unindo faro comercial, talento visual e timing infalível, mesclando o senso de humor (1941 - Uma guerra muito louca, 1977; Prenda-me se for capaz, 2002; O Terminal, 2004) à capacidade de urdir dramas (A Cor Púrpura,1985) e de retratar realidades cruéis (vide Munique, 2005), eclético, indo da aventura (O Império do Sol, 1987) à guerra (O Resgate do Soldado Ryan, 1998), do suspense (Twilight Zone, 1983) à ficção (A.I., 2001, Minority Report, 2002, A Guerra dos Mundos, 2005), Spielberg é o protótipo do CINEASTA. Completo.
Bem, dirá um leitor crítico, que tal parar de citar nomes e currículos e falar um pouco sobre o filme? Ora, um filme é feito de nomes e de currículos. O que eu posso dizer é que Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal faz jus ao currículo das pessoas envolvidas. Claro que tudo tem um pequeno senão, e, nesse caso, já havia comentado en passant que o roteiro, mesmo excelente, tinha seus senões. Pois bem, o senão é que a fundamentação científica (?) está mais para Erich von Däniken do que para Carl Sagan. Mas isso não chega a comprometer a 'obra como um todo'.

Sunday, May 18, 2008

Encurralados

O título original de Encurralados (Butterfly on a Wheel), produção independente britânica (cujo DVD recebeu nos EUA o título Shattered ), é uma referência à frase "Who breaks a butterfly upon a wheel?", citação de Alexander Pope; por sua vez, alusão à forma de tortura em que as vítimas eram amarradas a uma roda e tinham fêmures e úmeros quebrados por uma barra de ferro. Uma das conotações da expressão "estraçalhar uma borboleta sobre uma roda" é dispender um esforço grande para alcançar algo sem importância. Para quem gosta de música pop: Butterfly on a Wheel é, também, o título da bela canção do Mission, cujo refrão é Love breaks the wings of a butterfly on a wheel.
E o amor de Amy (Maria Bello) e Neil Warner (Gerard Butler) pela filha Sophie será colocado à prova. Neil Warner, bem-sucedido executivo do ramo de publicidade, na agência onde trabalha cultiva a inveja de alguns e a admiração de outros, como o seu chefe e a secretária Judy (Claudette Mink). Num fim-de-semana em que Neil tem programado um encontro com o chefe e Amy um encontro com as amigas, o casal é obrigado a contratar uma babá para cuidar da filha Sophie (Emma Karwandy). Tudo parece estar calmo, mas de súbito os dois se vêem raptados por Tom Ryan (Pierce Brosnan) e informados de que a filha deles, na verdade, está nas mãos de uma cúmplice. A partir daí, o roteirista William Morrissey tenta fazer de Tom Ryan um vilão implacável com objetivos obscuros. Os fatos sucedem-se de modo tão vertiginoso que, se o espectador se deixar confundir, pode até chegar a pensar que está vendo um bom thriller. Porém, a despeito dos esforços dos atores, o argumento é mesmo frágil como asas de borboleta. Não bastasse o exagero e a falta de bom senso das situações, o filme conta com uma das cenas finais mais mal-resolvidas e constrangedoras dos últimos tempos. Não à toa o filme nem entrou em cartaz nos Estados Unidos: ir ao cinema para assistir Encurralados é despender muito esforço para um retorno ínfimo.

Saturday, May 17, 2008

Homem de Ferro

Gwyneth Paltrow em Iron Man está linda como Pepper, a fiel e eficiente secretária particular de Tony Stark; Robert Downey Jr. não deixou por menos e fez um trabalho fenomenal como Tony Stark/Iron Man. Paltrow, de modo contido, faz de Pepper o protótipo da secretária competente, que nutre pelo chefe algo mais que respeito e admiração. Downing Jr., por sua vez, faz com maestria e charme o papel do patrão frio e calculista, que finge não saber da paixão da secretária.
O diretor Jon Favreau conduz a história de modo ágil, focando (méritos para o roteiro) sempre a personalidade contraditória, carismática e enigmática do engenheiro nato Tony Stark. Herdeiro da Stark Industries, empresa líder em produção de armas pesadas, após a demonstração de um novo armamento no Afeganistão, é capturado por uma milícia local. Seriamente ferido, é salvo por um estratagema científico de seu colega de prisão Yinsen (Shaun Toub). A situação obriga Tony a usar toda a sua habilidade e o seu conhecimento para fazer uma armadura rudimentar mas poderosa e tentar escapar com vida.
Esse é apenas o resumo da situação inicial de Homem de Ferro. A experiência abala as convicções de Stark, o que provocará choque de interesses com o sócio Obadiah Stane (Jeff Bridges) (a propósito, o veterano e eficiente ator faz de Obadiah um dos vilões mais carecas e mais patéticos do cinema). Nos EUA, com toda tecnologia à disposição em pleno porão de sua casa encravada num penhasco à beira-mar, Tony desenvolve uma nova espécie de energia, constrói a armadura perfeita e se torna o Homem de Ferro, para tentar desfazer males criados pela sua própria indústria. A voz de Jarvis, o computador que é a 'alma' da armadura, é do ator Paul Bettany.
A equação do Homem de Ferro: boa fonte + roteiro inspirado + atores consistentes + direção ágil = puro divertimento.

Um beijo roubado

Jeremy (Jude Law), um imigrante inglês, toca o próprio negócio - espécie de confeitaria intimista - em Nova York. Uma das freguesas assíduas é Elizabeth (Norah Jones), com quem Jeremy trava aquele tipo de amizade inocente e desinteressada, mas com potencial de quem sabe, talvez, um dia, ir um pouco, bastante, muito além de uma relação cordial-comercial. Porém, entretanto, todavia, eis que o fato desencadeador acontece: o relacionamento de Elizabeth está se desintegrando. Sem aviso prévio, pára de freqüentar a confeitaria, por um simples motivo: está a centenas de milhas, em busca da auto-estima perdida.
Para os novos amigos, justifica o fato de trabalhar noite (com o nome Lizzie num bar) e dia (com o codinome Beth numa lancheria) pelo objetivo de juntar dois mil dólares para comprar um carro.
Mas, entre um emprego e outro, entre uma cidade e outra, entre o testemunho de uma história paralela e outra (que incluem o relacionamento tempestuoso de Arnie [David Strathairn], um policial beberrão, e sua sensual, mas perdida esposa [Rachel Weisz]; e as aventuras da jogadora de pôquer Leslie [Natalie Portman]), Elizabeth mantém o contato com Jeremy por meio de cartões-postais enviados à confeitaria.
Wong Kar Wai, diretor oriundo de Hong Kong, abusa dos closes, das câmaras lentas e das cores fortes para tentar dar um tom 'artístico' a My Blueberry Nights (que virou Um beijo roubado). Alguém poderia ponderar que, devido às andanças de Elizabeth, a amizade dela com Jeremy fica em segundo plano boa parte do filme. Outro rebateria que perde o 'romance', mas ganha o 'road movie'. Um espírito mais crítico poderia avaliar que, devido à dispersão de foco nas histórias paralelas, a história 'principal' (Jeremy e Elizabeth) acaba mal-desenvolvida. Outro retrucaria que, na verdade, o filme não é sobre Jeremy e Elizabeth, e sim sobre a viagem de reconstrução da vida de Elizabeth. Talvez essa seja uma boa definição - e uma das qualidades - de Um beijo roubado: difícil de rotular.

Friday, May 02, 2008

A vida começa aos 40

A médica ginecologista Elisabeth Staf estaciona o carro com pressa e com mais pressa sai do carro em direção à igreja. É o casamento do filho. A pressa não a impede, porém, de argumentar com a fiscal de trânsito, ansiosa por multá-la. A conversa entre doutora e fiscal vira bate-boca (com direito a tapa no quepe e troca de comentários não muito elogiosos). É assim que Colin Nutley, diretor britânico radicado na Suécia, apresenta as protagonistas de seu novo filme: A vida começa aos 40 (Schwedisch für Fortgeschrittene / Heartbreak Hotel).

Por essa primeira cena, o espectador pode avaliar a personalidade das duas. Elizabeth: decidida, petulante, do tipo que não leva desaforo para casa. Gudrun: discreta, zelosa, do tipo que leva as coisas ao pé-da-letra. Claro que essas personagens vão se encontrar de novo e a desavença inicial será esquecida em prol de uma amizade irresistível, avassaladora, do tipo que não acontece muitas vezes. Afinal, as duas têm muita coisa em comum: quarentonas, (enrustidamente) fogosas e (teoricamente) desimpedidas. Dessa forma, Gudrun e Elizabeth passam a freqüentar juntas nas frias noites suecas a pista animada do Heartbreak Hotel.

Misto de Embalos do Sábado à Noite com Thelma e Louise, o tema da película realizada na Suécia (como os demais filmes de Nutley) é a importância de certos itens: a amizade, a música, a dança, a diversão, a compreensão dos filhos, a colaboração dos cônjuges (no caso, êx-conjuges). Se esses itens já são importantes em situações ditas normais, mais importantes se tornam num contexto de reestruturação. Aos quarenta e poucos anos, a recatada Gudrun (Maria Lundqvist) e a extrovertida Elisabeth (Helena Bergström, esposa do diretor e presença constante em seus filmes) não precisam mais ter vergonha de nada (nem mesmo de aceitar o fato de nunca ter tido um orgasmo). No auge das células cinzentas, dão-se ao luxo de escolher o momento apropriado de não utilizá-las.


A trajetória do diretor Colin Nutley é no mínimo inusitada:
mesmo sem falar sueco fluente firmou-se como um dos mais importantes realizadores contemporâneos do país escandinavo. Seu maior sucesso foi talvez Änglagard (House of Angels, 1990), sobre a estranha chegada de dois forasteiros numa pequena cidade. Nas palavras do jornalista Rob Hincks, o filme é "provavelmente a quintessência dos filmes suecos de verão de todos os tempos". Foi tanto o sucesso que rendeu uma seqüência.

Nutley já foi procurado por Hollywood, mas até o momento tem resistido a "vender a alma". Gosta mesmo é de trabalhar na Suécia e fazer os filmes a seu modo, com pouco de roteiro e muito de improviso. Segundo Nutley (ver entrevista em
http://www.sweden.se/templates/cs/Article____14295.aspx),
seu método de trabalho é simples. O elenco só fica sabendo sobre o que vai ser a cena três minutos antes dela ser rodada. Então Nutley discute com o elenco como seria a reação deles àquela situação na vida real. E o resto é por conta dos atores. A vida começa aos 40 é uma boa amostra dos prós e contras desse método.

Monday, April 07, 2008

A megera domada


Com este post, o olhar cinéfilo comemora o quinto aniversário.

A peça A megera domada, encenada no Teatro de Câmara Júlio Piva, na R. da República 575, em Porto Alegre, é teatro de alto nível made in Porto Alegre. Assisti ao espetáculo no dia 5 de abril, já com Sandra Possani no papel da megera (em substituição a Roberta Savian). Três espetáculos no próximo fim-de-semana encerram a breve temporada.

Bebendo um vinho oferecido por cortesia, o público aguarda a abertura da sala. Enquanto entra e se acomoda, a primeira surpresa: os atores passam a apresentar números denominados por eles como "de risco". Dessa forma, o público retardatário tem oportunidade de chegar, e os atores de "quebrar o gelo", além de mostrar outras facetas do seu talento.

Começa o espetáculo propriamente dito, e o que se vê encheria de orgulho até mesmo o próprio Shakespeare, que dirá os gaúchos: um show de tradução, direção, iluminação e interpretação.

Batista (Carlos Mödinger) só vai liberar a linda Bianca (Elisa Volpatto) para casar depois que a irascível primogênita e consumada megera Catarina (Sandra Possani) desencalhar. Os sedentos candidatos a abiscoitar o coração de Bianca torcem para que Petrúquio (Heinz Limaverde), seduzido pelo dote 20 mil coroas, consiga dobrar a indobrável Cati, em meio a palpitantes jogos de palavras.

A tradução realizada (sob encomenda e sob medida) por Beatriz Viégas-Faria revela-se brilhante sempre, com destaque para o embate verbal aguçadíssimo entre o resoluto Petrúquio (o pretendente) e a irredutível Catarina (a "megera"). Como bem ressalta o jornalista Renato Mendonça, Beatriz "não evita o desafio de reinventar em português os muitos trocadilhos do texto". Ou seja, dá uma inspiradora aula de tradução.

A moderna direção de Patrícia Fagundes não é menos inspirada e segura. O espectador tem a impressão de que nada acontece no palco sem ter sido meticulosamente pensado, e que o elenco segue as determinações/orientações/sugestões da diretora à risca. Tudo isso sem perda da naturalidade de cada um. Em resumo, a diretora aproveita ao máximo a verve e o talento de cada um dos atores.

Iluminação e figurino enfatizam o preto, o branco e o vermelho. Parte técnica, produção executiva, trilha sonora: o apuro nos detalhes contribui para o excelente resultado. Por fim, a trupe de atores é realmente algo! Além dos citados acima, Rafael Guerra, Álvaro Vilaverde, Felipe de Paula, Lisandro Belloto e Leonardo Machado dão show na hora exigida, e são coadjuvantes quando lhes compete.

Noite perfeita, apesar das cadeiras-destruidoras-de-coluna do charmoso Teatro de Câmara.

Thanks, grandma, for taking care of the baby!

Sunday, March 09, 2008

10.000 a.C.



No papel de Tic'tic, o gabaritado ator neozelandês de etnia maori Cliff Curtis (o 'uncle Bully' de O amor e a fúria, de Lee Tamahori) dá ao elenco de 10.000 a.C. a mínima consistência necessária para tentar tornar verossímeis um roteiro pífio e um amontoado de efeitos especiais baratos. Integram o elenco Steven Strait (D'Leh), Nathaniel Baring (Baku), Mo Zinal (Ka'ren), Marco Khanlian (One-Eye) e Camille Belle (como a bela Evolet).

A história (?) do novo filme de Roland Emmerich [o cineasta autor de The Day After Tomorrow (2004), The Patriot (2000), Godzilla (1998), Independence Day (1996), Stargate (1994), Universal Soldier (1992), Moon 44 (1990), Ghost Chase (1988), Joey (1985), Making Contact (1985) e The Das Arche Noah Prinzip (1985)] parece toda chupada de Apocalypto, o filme de Mel Gibson. Senão, vejamos: tribo é invadida por caçadores de escravos; alguns integrantes da tribo lançam-se em busca do regate dos capturados. A seqüência final - a exemplo de Apocalypto - mostra o local aonde os escravos são levados e os sacrifícios a que são submetidos.
Sem uma cena sequer memorável, 10.000 a.C. perde a oportunidade de ser um retrato aventuroso do período em que o homem inventou a agricultura para ser um mosaico de referências toscas e mal costuradas. Repleto de cenas previsíveis e com efeitos pasteurizados ao extremo, o novo filme de Roland Emmerich é coerente e se encaixa bem dentro de sua filmografia - fácil de deglutir e de descartar.

Monday, January 14, 2008

Um beijo a mais

Tony Goldwyn dirigiu o roteiro de Paul Haggis, baseado no roteiro original do filme italiano L'ultimo bacio (2001) de Gabriele Muccino. O resultado, Um beijo a mais (The last kiss, 2006) é uma 'comédia romântica' ianque com jeito e estofo europeus, personagens críveis e situações delicadas, normalmente não debatidas em filmes do gênero. Zach Braff é Michael, arquiteto de 29 anos que namora uma bela e inteligente mulher, Jenna (interpretada pela estrela em ascensão Jacinda Barrett). No começo do filme, num encontro de família, o casal de namorados comunica os pais de Jenna que
ela está grávida de dez semanas. Tudo estaria ótimo, não fossem as dúvidas na cabeça de Zach. Prestes a completar 30 anos, o promissor arquiteto se pergunta: estou pronto para assumir compromisso para o resto da vida? Sou capaz de ser um bom pai, um bom marido, um bom genro? Posso abdicar de "conhecer" outras mulheres? Em resumo: é isso mesmo que eu quero para minha vida?
Os amigos de Michael, todos da mesma faixa etária, estão em situações distintas, e, cada um a seu modo, enfrentam a "crise dos trinta anos". Chris (Casey Affleck) tem um filho de dois anos com a esposa Lisa; pensava que o filho sedimentaria a união, mas as brigas são constantes; Izzy (Michael Weston) está transtornado pois acaba de romper um relacionamento com a namorada da adolescência; Kenny (Eric Christian Olsen) não tem namorada fixa e tem pânico de estabelecer relacionamentos duradouros.
Como ia dizendo, tudo estaria ótimo para Zach, não fossem suas dúvidas. Essas se materializam ainda mais quando conhece Kim, uma moreninha insidiosa, insistente e nem um pouco insossa.
O diferencial de Um beijo a mais, além da qualidade do roteiro e o do elenco bem escolhido, é a coragem de 'tocar o dedo na ferida', ou seja, abordar sem hipocrisia questões até certo ponto revoltantes. Típico filme ideal para assistir em DVD, ainda mais que os extras trazem dois curiosos finais alternativos.

Monday, December 31, 2007

Inland empire


A trintona quase quarentona gordinha e faceira e o filho magro e sisudo de treze anos sobem as escadas do Unibanco Arteplex 1. Estou sentado numa das fileiras superiores, na seção central, numa poltrona mais ou menos no meio. A dupla sobe as escadas e senta-se na seção lateral à direita. Outras pessoas vão chegando aos poucos, a sessão atrasou – como, com toda polidez, o bilheteiro havia avisado – devido ao um cálculo errado sobre a duração do filme anterior (Gigante, como o Inter conquistou o mundo). O clima na sala é de pura expectativa. Neste meio tempo, a dupla anteriormente citada abandona o local escolhido, a mamãe passa sorrindo e pedindo licença, eu recolho as pernas e acompanho-a com o olhar até os dois se acomodarem na estreita seção de poltronas da esquerda. Mais pessoas vão sentando cá, ali, acolá, aqui e lá. Então mamãe e filho fãs de David Lynch levantam-se dos novos lugares escolhidos, descem alguns degraus e sentam-se novamente. A sessão está prestes a ter início. Um clima de água na boca no ar. A dupla dinâmica levanta-se mais uma vez e senta-se, agora definitivamente, na primeira fila da extrema esquerda, esperando, ansiosos, o início do banquete.
Sim, pois um filme de David Lynch é para cérebros o que a Festa de Babette é para olhos e estômagos: um cardápio rico e multicor, nutritivo e substancial. A digestão pode não ser muito fácil, mas o prazer sublime do consumo compensa. Mas e por que toda essa introdução sobre a indecisão da cinéfila mãe e do cinéfilo filho sobre onde sentar? Porque isso exemplifica um pouco o tipo de pessoa que estava no cinema. Fãs de Lynch são pessoas um tanto imprevisíveis, não-lineares, pouco dadas a seguirem uma mesma e repetitiva linha de ação. Lynchnianos são seres cientes de que pagar ingresso para ver um filme de Lynch é assinar um contrato de risco. Nada garante nada e nada se prende a nada nos próximos 120 ou 180 minutos. O que vai passar? Um filme sem pé nem cabeça, enigmático, como A estrada perdida, ou um filme com começo, meio e fim, como História real? Pouco importa. É um novo filme de David Lynch, que aos 22 anos virou pai e, baseado em suas experiências assustadoras, fez o primeiro e acachapante longa-metragem: Eraserhead (1978). O filme assombrou o produtor Mel Brooks que convocou o diretor novato para realizar O homem elefante (1980), a história de um homem gentil e culto interpretado por John Hurt que sofre de elefantíase e por isso é explorado como atração de circo. Em 1984, após ter declinado o convite para fazer O retorno de Jedi, lançou Duna, que, devido a uma série de cortes, ficou desfigurado, e o próprio Lynch pediu sem sucesso para que seu nome fosse retirado dos créditos. Em 1986 e 1990 fez dois filmes especialíssimos: Veludo azul e Coração selvagem. Veludo azul, com Dennis Hopper e Isabela Rosselini, explora o mistério sobre uma orelha cortada e os desejos masoquistas de uma bela morena, enquanto Coração selvagem traz o casal mais quente e alucinado do cinema (Lula Fortune / Laura Dern e Sailor Ripley / Nicolas Cage). Para mais detalhes sobre Coração selvagem, ler post neste blog. Twin Peaks: fire walk with me (1992) aproveita o sucesso da séria televisiva, o quebra-cabeças A estrada perdida (1997), o belíssimo História real (1999), o mais concreto e rural dos filmes de Lynch (as lindíssimas cenas aéreas das lavouras são uma espécie de tributo à profissão do pai, pesquisador do Departamento de Agricultura), e o onírico Cidade dos sonhos (2001), completam sua filmografia prévia. Abre parêntese. A julgar pela tendência tradutória dos recentes dois filmes, o próximo filme de Lynch será “'Alguma coisa' dos sonhos”: Mulholland drive virou Cidade dos sonhos e Inland empire virou Império dos sonhos. Fecha parêntese.
E tudo isso nos leva ao exato minuto em que as luzes se apagam e começa a passar Inland empire, e Lynch começa a fazer uma queda de braço com a paciência do espectador comum. Por espectador comum, leia-se o neófito em assuntos lynchnianos. A queda de braço é a seguinte: quando você vai cansar e abandonar a sala? Quando vai ter sangue na veia o suficiente e simplesmente jogar a toalha? E é assim do princípio ao fim de Inland empire. Mesmo para quem já conhece as piras de Lynch, em alguns momentos passa isso na cabeça. E foram várias pessoas que abandonaram a sessão. Pelo sitcom com homens-coelhinhos? Pelas demências de uma mulher traída? Pelas confusões de uma atriz decadente? Pela ausência de um fio condutor? Pela ausência de um fio? Pela ausência de um condutor? Pelo formato digital sem charme? Pela fotografia escura? Pela falta de noção? Pela falta de nós? Pela falta de ação? Não sei... sei não... O fato é que muitos desertaram, e me chamou a atenção uma hora que na tela aparece na legenda algo como “o que é que eu estou fazendo aqui” e, ato contínuo, vários espectadores aproveitaram a deixa e se arrancaram para respirar ar puro.
Ah sim, e o filme? Sim, Inland empire (2006) é sufocante; uma experiência introspectiva, intimista e claustrofóbica. Um filme que exige muito a atenção do espectador, pois não há história linear para acompanhar; um filme que provoca muita tensão no espectador, a tensão de tentar entender, de amarrar os fios soltos e de formar um todo coerente. Sim, pois, conforme Charolles, por mais que nos defrontemos com algum texto aparentemente absurdo, todo texto é coerente, ou seja: tentamos vislumbrar um contexto ou uma situação em que aquele teórico absurdo adquira coerência. Pois bem, eis que o contexto é um filme de David Lynch. O elenco inclui Laura Dern e Justin Theroux, ambos com papéis duplos, mais Jeremy Irons, como o diretor de cinema.
Como o que me faz lembrar de Lynch são cenas, a cena que mais me tocou SPOILER SPOILER SPOILER PLEASE DON'T READ IT IF YOU ARE A SPOILER-SENSITIVE PERSON foi aquela em que Laura Dern, ferida de morte, desaba na calçada da fama, no meio de duas mulheres, uma afro-americana e uma oriental, que avisam Laura placidamente que ela está morrendo e, a despeito disso, entabulam uma conversação envolvente sobre variados tópicos, não sem de vez em quando dedicar um pouco de cuidado à moribunda que vomita sangue e estrebucha no meio delas. A afro-americana inclusive fala palavras de conforto e acende a luz bruxuleante do isqueiro na frente da que está morrendo pouco antes de ela expirar. É a típica situação lynchniana, surreal e ao mesmo tempo desconcertante, por isso bonita. Essa cena se passa bem ao fim do filme, portanto, depois que os desistentes se foram. No jogo de paciência com o espectador, o mais fiel e mais resistente é recompensado com a cena mais surpreendente e refrescante do ano.
Não recomendo este filme para ninguém, nem tampouco quero defendê-lo, ou sugerir que quem abandonou o cinema não tinha motivos para isso. A graça do cinema de Lynch é justamente essa: cada um tire suas próprias conclusões. Se você foi ver este filme e odiou, isso não faz de você uma pessoa menos intelectual que a trintona gordinha e faceira e o filho magrinho e sisudo, que permaneceram até o fim dos créditos. E que créditos!
Aproveito o ensejo para dedicar aos leitores deste blog um 2008 tão cheio de surpresas e tão fora dos padrões lineares quanto Inland empire.

Thursday, December 20, 2007

No vale das sombras

Paul Haggis, ao roteirizar Million Dollar Baby (2004), ganhou cacife para escrever e realizar Crash (2005). O filme surpreendeu e venceu o Oscar 2006. Agora Haggis reúne em O vale das sombras (In the valley of Elah, 2007) ninguém menos que Tommy Lee Jone, Susan Sarandon e Charlize Theron. De um elenco assim, não se espera menos que atuações estudadas e contidas, e é isso que temos. A cena com o diálogo ao telefone entre Lee Jones e Sarandon, com revelações sobre o paradeiro do filho, pode ser um bom exemplo do nível de competência desses atores. Tommy Lee Jones é Hank Deerfield, pai do soldado Mike (Jonathan Tucker), recém chegado da Guerra do Iraque. O filho não se comunica com a família e desaparece. Hank se despede da mulher Joan (Sarandon) e guia durante um dia inteiro até chegar à base militar em que o filho deveria estar. Uma cena emblemática para definir a personagem de Hank se passa nessa viagem. Num prédio à beira da estrada, ele nota a bandeira americana hasteada de cabeça para baixo. Um minuto depois, está ensinando a pessoa que havia hasteado a bandeira ao contrário – um estrangeiro – e explicando que hastear uma bandeira invertida significa que há algo errado com o país e que a nação precisa de ajuda. Com a bandeira hasteada do modo certo, segue viagem. Ao chegar na base, ninguém sabe dizer nada sobre onde está seu filho. Ele pede ajuda à investigadora Emily Sanders (Charlize Theron), que a princípio nega porque o caso envolve pessoal do exército.
O roteiro é cheio de detalhes bons, como o contato de Hank com um expert em mídia, que vai restaurando e enviando por e-mail os arquivos contidos no celular do filho Mike. Assim, o pai pode acompanhar um pouco da assustadora rotina do filho no Iraque. Cena digna de menção – e que dá título ao filme – é a em que Hank, após jantar na casa da investigadora, vai contar uma história para o filho dela. A história contada é a de Davi e Golias, passada no vale de Elah. É uma cena terna e bonita.
Em suma, um consagrado diretor, um elenco fenomenal, uma premissa interessante e um corpo esquartejado e queimado à beira de uma rodovia deveriam resultar sempre num ótimo filme. Mas não é o caso de O vale das sombras.
Há dois problemas que desvalorizam a película. O primeiro tem a ver com a incerteza de “gênero”. A partir de uma altura, o filme se transforma num ‘whodunnit’ meio capenga, e o norte do filme se perde. O mistério se desenvolve de um modo meio forçado e se precipita numa conclusão mal forjada. Mas o pior não é isso.
A qualidade de O vale das sombras é posta em xeque no momento em que se percebe que é um filme realizado nos mínimos detalhes para provar uma tese. Desde o começo, os truques de um roteirista experiente e talentoso são usados para conduzir o pensamento do espectador para um ponto de vista, que é o do próprio autor. Não há contraponto, não há margem para interpretações. Esse é o tipo de cinema mais odiável e raso, o cinema de manipulação, o cinema de Michael Moore. Não fosse tão maniqueísta, O vale das sombras poderia ser um ótimo filme.

Monday, December 03, 2007

Diretores e compositores

Parcerias duradouras entre imagem e música eternizaram muitos filmes. Alma gêmea do diretor, o compositor capta toda a carga emotiva da imagem e a traduz em som incidental, em ritmo insistente, em divina melodia.

As psicoses, o instinto assassino e as neuroses do cérebro humano. A curiosidade, o suspense, a vontade de ficar sabendo. O medo, o arrepio, o susto pulando da tela. A aventura, a espionagem, toda enrascada em que alguém pode se meter. Os cenários, os trens, as estátuas, todas perseguições pelas encruzilhadas do mundo. O toque refinado, o humor negro e sutil. Todas facadas, todos tiros, todos crimes. Tudo está em Hitchcock e Hermann.

Os intermináveis segundos antes do duelo. O forasteiro que vem ajudar os oprimidos. O cenário desértico, a barba por fazer, a rapidez no gatilho. Um pistoleiro de aluguel com escrúpulos. Um spaghetti cujo molho é o sangue de malfeitores. Os faroestes clássicos de Leone e Morricone.

As perversões da alma desnudas. Um mergulho ao subconsciente, às entranhas das dúvidas e das aspirações mais íntimas do ego. Personagens patéticos e dementes contracenam com gente normal e comum. Situações nonsense ou simples cenas de amor. O sadomasoquismo, a rebeldia, a loucura. As imagens nervosas de Lynch embaladas ao som celestial de Badalamenti.

O rompimento, a crítica, o homem em face a uma situação extrema. Um visionário numa ilha. Um repórter numa revolução. Um menino testemunha um crime. Um estudante sobe na mesa para homenagear o professor. A simbiose de "Oh, captains, my captains" Peter Weir e Maurice Jarre.

A obsessão, a luxúria, a arquitetura. O canibalismo, a tatuagem, a plasticidade. Uma profundeza irreal, uma falsa superficialidade. Um Shakespeare, um artesão de parque. Um menino cantando com voz de anjo. A viagem onírica de Greenaway e Nyman.

O sofrimento de criaturas inacabadas. A agonia de pessoas alijadas. Lendas e heróis, contos e vilões, estórias de fantasmas e seres imaginários. Cabelos que nos tapam os olhos, uma tesoura que nos faz ver. A fantasia mágica de Burton e Elfman.

Uma escada espiral descendo para o subterrâneo do coração. Um lugar onde o sol não pega, onde o inverno sempre impera. Quatro personagens com sonhos de paz e felicidade. Quatro caminhos que se separam e levam a um só fim: a degradação, a dependência, o escapismo, o vício. Futuros promissores que se despedaçam. Vidas aniquiladas, sonhos amputados. A catarse de Aronofsky e Mansell.

O cinema não seria o mesmo sem esses casamentos perfeitos.

Friday, November 30, 2007

Viagem a Darjeeling

The Darjeeling Limited (Viagem a Darjeeling, 2007) é o novo filme de Wes Anderson. Ter o próprio trabalho supervalorizado pode afetar o cérebro com facilidade; no caso de Anderson isso não acontece. Continua fazendo filmes como sempre fez: um tanto insossos, um tanto engraçados, um tanto prosaicos, um tanto geniais, um tanto pretensiosos, um tanto humildes. Conseguir reunir essas características por si só é fato digno de menção. Um espectador terá classificado de insossa a escolha de Anderson pelos atores de sempre para fazer mais um rail-road-movie na história do cinema; outro rebaterá que de insosso o filme não tem nada, muito antes pelo contrário: é divertido e além disso, road movies são fontes inesgotáveis. Alguém por exemplo terá achado pretensão o fato de um diretor ter inventado um 'curta-metragem' dirigido por ele próprio para abrir seu próprio filme, numa espécie de onanismo cinematográfico; outros terão achado prova de humildade a realização de um filme sem objetivo algum. Alguns terão achado prosaicas as situações criadas para demonstrar virtuosismo na mesa de edição, enquanto outro terá considerado genialidade a simulação de um curta que é na verdade um prólogo e uma jogada narrativa. Todos os raciocínios são defensáveis, e eu mesmo oscilo entre assumir um ou outro.
Sem dúvida, Viagem a Darjeeling não é um filme que aborrece. Natalie Portman nua em pelo em Paris, uma sensual indiana dizendo 'Não goza dentro' a um americano no banheiro do trem (cena que bem poderia ter como trilha sonora 'Meet me in the bathroom' dos Strokes), um resgate na correnteza e um encontro de três irmãos amalucados: isso pode ser tudo menos aborrecido.

Um ano após o falecimento do pai, Francis (Owen Wilson) convoca os dois manos Peter (Adrien Brody) e Jack (Jason Schwartzman) para uma jornada em busca da mãe (Angelica Huston) que abandonou tudo e virou missionária nos confins do subcontinente indiano. Lá, conhecem personagens locais como Rita (Amara Karan), a funcionária do trem, e o pai de três meninos de uma remota vila (Irrfan Khan). O contato com pessoas e culturas novas enriquece o espírito dos três norte-americanos, cuja bagagem consiste em pomposas malas herdadas do pai (de fabricação Louis Vitton, conforme os créditos fazem questão de frisar). Numa cena de flashback, o cineasta Barbet Schroeder faz uma ponta como o dono de uma oficina mecânica.

Tuesday, November 13, 2007

Planeta Terror

O texano Robert Rodriguez anunciou, em outubro de 2007, o fim do casamento de dezesseis anos com a produtora de cinema Elizabeth Avellan, com quem teve a filha Rhiannon e os filhos Racer, Rebel, Rocket e Rogue. A razão? Rose McGowan, a atriz que interpreta Cherry, a moça-metralhadora de Planeta Terror (Planet Terror, 2007). O longa de 93 minutos é, na verdade, parte do projeto Grindhouse, que inclui, além da película de Rodriguez, Death proof, de Quentin Tarantino. O "programa duplo" imita as matinés da década de 70, em que os cinemas passavam vários filmes encordoados pelo preço de um. O público americano, porém, não entendeu muito bem a 'proposta', e muitos espectadores abandonaram a sessão ao término do primeiro filme. Isso fez com que a distribuição em outros países fosse feita separadamente.
A experiência de ver Planeta Terror inicia com a vinheta antes do trailer, com a classificação etária; a seguir, o aperitivo perfeito: o trailer de um filme que talvez muito provavelmente nunca será realizado, Machete, estrelando Danny Trejo, de Um drink no inferno. Então começa o 12º longa de Robert Rodriguez (desde que serviu de cobaia num teste de medicamentos contra colesterol para levantar dinheiro e filmar em 14 dias El mariachi - que em 1992 lhe deu prêmios nos festivais de Sundance e de Berlim -, o texano realizou, sucessivamente, Grande hotel, A balada do pistoleiro, Um drink no inferno, Prova final, Pequenos espiões, Pequenos espiões 2, Pequenos espiões 3, Era uma vez no México, Sin City e As aventuras de Sharkboy e Lavagirl). Nos créditos de abertura, nova brincadeira: em vez de 'Written and directed by...', aparece na tela 'Directed and written by...'. Essa inversão pode parecer desimportante, como tudo aliás nesse filme parece; porém diz muito sobre o clima de brincadeira que prevalece na película. Diga-se de passagem, para degustar uma experiência como Planeta Terror não apenas são requeridas do cidadão ou cidadã boa-vontade em 'entender o espírito da coisa' e boa dose de tolerância à morbidez e à falta de noção; é necessária, também, uma inabalável queda por cenas de gosto e de humor duvidosos. Esses são os pré-requisitos mínimos para usufruir das cenas grotescas e estapafúrdias de Planeta Terror.
A forasteira Tammy (Stacey Ferguson) chega na cidade; o carro dela estraga e a loiraça vai à rodovia escura pegar carona. A anestesista Dakota (Marley Shelton) e o marido, o médico psicopata Dr. Block (Josh Brolin), preparam-se para o que aparenta ser apenas mais uma noite de plantão no hospital. O casal sai, não sem antes a loirinha agir de modo suspeito ao telefone, e não sem antes duas babás gêmeas - não menos psicopatas - chegarem para cuidar de Tony (Rebel Rodriguez). Cherry (Rose McGowan) é repreendida pelo patrão porque chora ao dançar; ela manda o patrão àquele lugar e sai na noite fria. J.T. (o sumido Jeff Fahey) é o dono do Bar B Q, e um obcecado por encontrar a receita do churrasco perfeito. Seu irmão, o xerife Hague (o sumido Michael Biehn), é o responsável por manter a tranqüilidade da cidade; uma de suas preocupações é o encrenqueiro Wray (Freddy Rodriguez), ex-namorado de Cherry. A vida dessas personagens será afetada pelas patéticas ocorrências em uma base militar situada perto do local. Entre as peripatéticas participações especiais, Bruce Willis como o chefe dos infectados, Quentin Tarantino como o estuprador e Tom Savini (que fazia os efeitos especiais nos filmes de George Romero e em 1990 assinou a refilmagem de A noite dos mortos vivos) como Tolo, um dos ajudantes do xerife. Ame, odeie ou escreva uma resenha.

Wednesday, October 31, 2007

People - Histórias de Nova York

A estrela em ascensão Maggie Gyllenhaal em Mais estranho que a ficção interpretou a simpática dona de uma confeitaria fiscalizada pela receita federal; neste filme de Danny Leiner, Maggie continua no ramo das guloseimas: é a sisuda Emme, proprietária e "designer" da empresa The Great New Wonderful (o título original do filme), cujo nicho de mercado é projetar e executar a confecção de tortas estilizadas, de vários andares, para fregueses burgueses dispostos a investir uma grana considerável no bolo da festa. Emme comanda a equipe que visita clientes em potencial e mostra o incrível portfólio de bolos exóticos. Em vez de desenvolver as personagens dessa história, Danny Leiner opta por, aparentemente, diluir a "unidade temática" e acompanhar a rotina de outras pessoas, cujo único ponto em comum, aparentemente, é viverem na mesma cidade - Nova York. O filme se passa em setembro de 2002, e o clima na cidade é de reconstrução pelo aniversário dos atentados 11 de setembro. O metódico psicólogo Dr. Trabulous (Tony Shalhoub) tenta fazer vir à tona a raiva contida de um cliente aparentemente bem, mas no fundo perturbado por ter presenciado uma tragédia. Um casal tem problemas com o filho obeso, mimado e violento. Os seguranças Avi e Satish atuam como frilas na salvaguarda de insignificantes chefes de estado que visitam a cidade; entre um trabalho e outro, avaliam suas vidas e conquistas. A grande atriz Olympia Dukakis (Feitiço da lua) interpreta Judy Berman, senhora que não dialoga com o marido e reencontra um amigo de infância. Cinco crônicas de uma cidade que se recupera do choque e reconstrói sua auto-estima, cujas personagens vão se encontrar num momento prosaico. Cabe ao espectador costurar as - aparentemente - desconectadas histórias e descobrir sua "unidade temática".

Tuesday, October 16, 2007

Tropa de elite

Formado em administração de empresas, José Padilha, 40, tem, além de percepção estética, faro comercial. Sabe escolher os temas que vai abordar e, ao juntar R$10 milhões para fazer Tropa de elite, calculava obter bom retorno na bilheteria, com 2,5 milhões de espectadores. Não contava, entretanto, que cópias do filme vazassem devido à ação inescrupulosa dos técnicos de legendagem, o que provocou uma avalanche de pirataria sem precedentes. Estima-se que mais de 3 milhões de brasileiros tenham assistido ao filme antes da estréia nos cinemas. Mas a celeuma da pirataria e o 'boca-a-boca' das pessoas que viram as cópias clandestinas não parecem ter prejudicado o potencial de desempenho nos cinemas: no primeiro fim-de-semana o filme já alcançou 700 mil espectadores.
Padilha iniciou sua carreira no mundo cinematográfico na produção de documentários, como Os carvoeiros (1999, com direção do britânico Nigel Noble) e Estamira (2004). Estreiou na direção com Ônibus 174 (2002), contando a história de Sandro Nascimento, autor do seqüestro que paralisou o Brasil em junho de 2000. Tropa de elite (2007) é seu primeiro filme de ficção.
Baseado no livro Elite de tropa, em que o antropólogo Luiz Eduardo Soares, inspirado em narrativas dos policiais André Batista e Rodrigo Pimentel, cria uma rede de episódios que revelam aspectos do comando, do treinamento e da atuação do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais), Tropa de elite mantém a preocupação social de Padilha; agora, porém, o ponto de vista é o da polícia.
Não à toa que o atribulado Capitão Nascimento (Wagner Moura) tem esse nome. Nascimento - mesmo sobrenome do seqüestrador do ônibus 174 - é o fato que motiva o capitão a ouvir as súplicas da mulher, que está esperando um filho, e a pedir o afastamento do front do BOPE. Para isso, Nascimento precisa encontrar um substituto à altura de seu sangue frio e sua perícia operacional.
Aí que entram na história os "aspiras" André Matias (André Ramiro) e Neto (Caio Junqueira), dois amigos de infância que entraram na polícia repletos de ideais e boas intenções. Aos poucos, começam a ver como tudo funciona, mas não se rendem ao "sistema": permanecem honestos e dispostos a combater a corrupção. Os dois acabam selecionados para fazer o curso que permite a entrada no BOPE e, enquanto são avaliados pelo Capitão Nascimento, passam por experiências que causam mudanças de comportamento.
Talvez a mudança mais chocante ocorra com o aspirante André Matias, o bom moço estudante de Direito, que, para conviver no meio universitário de modo anônimo, faz vistas grossas quanto ao consumo de maconha pelos colegas. Boas cenas de violência e ação não faltam à Tropa de elite, mas uma das grandes cenas do filme se passa na sala da faculdade, em que André participa - inicialmente, calado - de um debate em que os policiais são tratados como corruptos. Outro complicador é a paixão de André por Maria (Fernanda Machado), que trabalha numa ONG encravada numa favela dominada por traficantes.
Na verdade, em Tropa de elite, as personagens têm importância secundária. O que vale é a "verdade por trás da ficção", ou seja, o quanto os episódios contados no filme retratam aspectos da realidade do meio policial. É a revelação dessa realidade espantosa que faz os espectadores terem a necessidade de falar e meditar sobre o filme.

Monday, September 24, 2007

Ligeiramente grávidos

O filme de estréia do roteirista e diretor Judd Apatow, O virgem de quarenta anos, rendeu 110 milhões de dólares e boas críticas, além de lançar ao estrelato Steve Carell. Nascido em 1967, Apatow obtém no segundo filme resultados não menos surpreendentes: 150 milhões de dólares, novamente com um elenco sem figurões. Os motivos do sucesso? Os mesmos que os do primeiro filme: uma premissa interessante, um roteiro simples, um elenco engajado e algumas cenas diferenciadas. E o que distingue um bom filme de um filme mediano, senão algumas cenas diferenciadas?
Knocked up (Ligeiramente grávidos, 2007) é a crônica de um romance casual que, por um detalhe logístico, transforma-se em assunto sério. Alison Scott (Katherine Heigl) trabalha na TV e, na semana em que recebe uma promoção, sai para dançar com a irmã Debbie. As duas bonitas loiras furam a fila de uma casa noturna, graças ao olhar clínico e ao crivo do porteiro. Lá dentro, dançam e recebem assédio de uns rapazes. Debbie tem que sair pois o marido ligou e a filha está com catapora. Alison fica, então, à mercê do recém-conhecido Ben Stone (Seth Rogen), um never-do-well cuja principal atividade é a criação de um site na Internet sobre nudez em filmes que nunca entra em funcionamento. Mas ele é atencioso, simpático e Alison está a fim de comemorar. Quando, depois de muitas cervejas, Ben recebe um convite para ir à casa de Alison, mal consegue acreditar em sua sorte. Alison só lembra do fato de novo dois meses depois, quando passa a sentir enjôos. O teste de gravidez dá positivo e ela manda um e-mail a Ben.
Entre as cenas diferenciadas, está a que Alison, grávida de sete meses, e a irmã Debbie tentam entrar no mesmo estabelecimento do começo do filme. O diálogo entre Debbie e o porteiro é dessas pérolas que tornam bom um filme que seria mediano. A propósito: como foi dito, Ligeiramente grávidos funciona, entre outros motivos, devido ao elenco sem estrelas, porém engajado. E há maior engajamento que o trabalho em família? Leslie Mann, a atriz que interpreta Debbie, é a mulher do diretor Judd Apatow. E as duas meninas da película são as filhas Iris e Maude Apatow. Raridade em cartaz: comédia norte-americana não apelativa e com sinais de inteligência.

Monday, September 17, 2007

Hairspray


Antes de falar sobre Hairspray (2007), umas palavras sobre o autor do 'source material': John Waters. Diretor fora do mainstream, na década de 70 especializou-se em filmes escatológicos estrelados pela travesti Divine, como o célebre Pink Flamingos (1972). Suas películas mais recentes são Cry Baby (1990), com Johnny Depp, Serial Mom (Mamãe é de morte, com Kathlen Turner, 1994) e A Dirty Shame (2004). O Hairspray original é de 1988, com Divine fazendo o papel de Edna Turnblad. Na nova versão, dirigida por Adam Shankman, Edna é interpretada por John Travolta.
Para Tracy Turnblad (Nicole Blonsky), o amanhecer é motivo de alegria em Baltimore. Sua vida é freqüentar o colégio e assistir ao "Corny Collins Show", em que vários dançarinos se apresentam. O sonho de Tracy é um dia participar do programa. O único problema é que... bem, o único problema é que Tracy é filha de Edna, e herdou da mãe, senão a altura, a sua, vamos dizer... fofura. Mas Tracy não é uma fofinha 'recalcada', muito antes pelo contrário: adora dançar e não tem vergonha de suas formas convexas. Quando uma dançarina do Collins Show precisa ser substituída devido à gravidez, abre uma vaga e Tracy tenta a sua sorte, junto com a amiga Penny Pingleton (Amanda Bynes). John Travolta e Christopher Walken estão hilários como Edna e Wilbur Turnblad, os pais de Tracy. O elenco de apoio é forte: Queen Latifah (a líder comunitária Motormouth Maybelle, que defende a integração racial), Michelle Pfeiffer (a produtora maquiavélica Velma von Tussle) e James Marsden (o engomado apresentador Corny Collins). Por sua vez, a estreante Nicole Blonsky não decepciona no papel de Tracy. Boa diversão, respeitando a tradição dos musicais norte-americanos.

A última cartada


O diretor Joe Carnahan tem no currículo Blood, Guts, Bullets and Octane (1999) e Narc (2002). Tido como (mais um?) seguidor de Guy Ritchie e Quentin Tarantino, seu novo filme é Smokin' Aces (A última cartada, 2007).
O enredo envolve um homem com coração a prêmio - o sem personalidade Buddy Aces Israel (Jeremy Piven) - e a peregrinação de policiais e matadores de aluguel até o hotel de luxo, situado em Lake Tahoe, na divisa da Califórnia com Nevada, onde o imbecilizado alvo passa os dias cheirando cocaína e transando com prostitutas. O roteiro imita filmes de outras décadas e apresenta um por um todos os candidatos (entre eles, os alucinados irmãos Tremor) a obter a recompensa de 1 milhão de dólares, que, segundo corre o boato, será paga pelo mafioso Primo Sperazza (Joseph Ruskin) a quem matar Aces - e extirpar seu coração. Paralelamente, o FBI monta uma parafernália para proteger Aces. Andy Garcia e Ray Liotta são policiais, enquanto Ben Affleck e Alicia Keys (na foto), caçadores de recompensas.
O melhor que o filme tem a oferecer, além da carnificina inevitável, é o diálogo cínico entre dois matadores no estacionamento. Não recomendado para mulheres grávidas e outras pessoas sensíveis.

Thursday, September 13, 2007

Paranóia

Em Janela Indiscreta (Rear window, 1954), de Alfred Hitchcock, o fotógrafo interpretado por James Stewart tem a perna quebrada e precisa ficar de molho em seu apartamento, sob os cuidados de ninguém menos que Grace Kelly. Sem alternativas melhores para passar o tempo, entrega-se ao voyeurismo e, pela janela dos fundos, passa a esquadrinhar o prédio vizinho e fica intrigado com o comportamento estranho de um de seus moradores.
Essa idéia do voyeur que presencia - ou pensa que presencia - um crime no imóvel próximo foi reciclada em Dublê de corpo, de Brian De Palma, e agora é aproveitada em Paranóia (Disturbia, 2007).
O jovem Kale (Shia LeBeouf), após uma pescaria tranqüila com o pai, guia a pickup no caminho de volta para casa. O que acontece nesse dia deixa-o traumatizado e, por conta desses distúrbios emocionais, um ano depois, agride o professor de espanhol e é condenado à prisão domiciliar. Um sensor é colocado no tornozelo do jovem de 17 anos, limitando sua movimentação num raio de 30 metros a partir do seu quarto. Esse é ponto de partida para que o perturbado Kale começasse a usar seu tempo de modo destrutivo, ignorando as súplicas de sua mãe Julie (Carrie-Anne Matrix Moss). Inevitável nesse processo que Kale ficasse conhecendo a rotina de todos os vizinhos. Diferente do fotógrafo de Janela indiscreta, cujo campo de visão limitava-se a uma janela apenas, Kale tem várias à disposição, inclusive a que dá para a piscina de Ashley (Sarah Roemer), recém-chegada no bairro. Ao mesmo tempo em que mergulha na obsessão pela nova vizinha, Kale, com a ajuda do amigo Ronnie (Aaron Yoo), passa a investigar com bastante desconfiança os passos do misterioso Mr. Turner (David Morse).
Na atual carência de bons filmes de suspense, Paranóia não chega a ser uma decepção completa. Assina D. J. Caruso (de A sombra de um homem, 2002 e Roubando Vidas, 2005).

Thursday, August 30, 2007

Dolores O'Riordan em Porto Alegre


Na noite de 26 de agosto, um domingo um tanto frio, o público alternativo de Porto Alegre estava reunido no Teatro do Bourbon Country, esperando subir ao palco a pequenina Dolores O'Riordan, ninguém menos que a ex-vocalista dos Cranberries, a banda pop irlandesa que lançou 5 álbuns e empilhou hits ao longo dos anos 90 até 2002, quando encerrou a carreira ao lançar uma coletânea. Casada com Don Burton (que foi empresário do Duran Duran), com quem tem três meninas, Taylor, Molly e a caçula Dakota Rain, Dolores, depois de dar por encerrada sua participação na banda, lançou em maio de 2007 seu primeiro disco solo, Are you listening? O show de Porto Alegre foi uma mistura bem dosada de hits do Cranberries (entre eles Zombie, Ode to my family, Dreams, Salvation e Linger) com as canções novas (como Ordinary day, Accept things, Black widow, October, Stay with me e When we were young).

O show teve duas partes bem distintas. Na primeira, com calça e jaqueta pretas, Dolores parecia a antítese de uma rock star, meio na dela; com sua voz poderosa, enfatizou canções introspectivas, como a emotiva Stay with me, dedicada a seu pai. Então a bela irlandesa saiu do palco, e a afiada banda continuou tocando por alguns minutos uma música bem experimental. Na próxima Dolores voltou de braços à mostra, gesticulando mais: o show ficou mais rock na veia; mas não há rock sem baladas, e bonitas baladas foram a especialidade dos Cranberries.
A boa notícia para os fãs é que as canções de Are you listening? não perdem para as antigas. Salvation is free!

Dedico a tradução a seguir para a aniversariante Andrea e ao lindo menino que gostou do show (e vai nascer em outubro).

Ordinary Day Dolores O'Riordan

This is just an ordinary day / Este é só um dia como outro qualquer
Wipe the insecurities away / Deixe as inseguranças pra lá
I can see that the darkness will erode / Posso ver: a escuridão vai desaparecer
Looking out the corner of my eye / Espiando com o canto do olhar
I can see that the sunshine will explode/ Posso ver: vai explodir a luz solar
Far across the desert in the sky / Longe através do deserto no céu

Beautiful girl / Linda (o) menina (o)
Won't you be my inspiration? / Não quer ser minha inspiração?
Beautiful girl / Linda (o) menina (o)
Don't you throw your love around / Não desperdice teu amor
What in the world, what in the world / O que neste mundo
Could ever come between us? / Pode ficar entre nós?
Beautiful girl, beautiful girl / Linda (o) menina (o)
I'll never let you down / Nunca vou te decepcionar
Won't let you down /Não vou te decepcionar

This is the beginning of your day / Teu dia apenas começa
Life is more intricate than it seems / A vida é intricada, embora não pareça
Always be yourself along the way / Sempre seja você pelos caminhos
Living through the spirit of your dreams / E viva a essência de teus sonhos.

Foto: Trent Fernandes.

Thursday, August 16, 2007

Sem reservas

A Sra. Michael Douglas interpreta Kate, a exigente e meticulosa chef de um restaurante movimentado. Quando sua irmã, que tem uma filha pequena, morre num acidente, Kate precisa assumir a tutela da menina. Acontece que a geniosa Zoe (vivida pela pequena estrela em ascensão Abigail Little Miss Sunshine Breslin) era muito ligada à mãe e não aceita a nova situação de ter que morar com a tia, insatisfação também demonstrada pela recusa em comer os pratos sofisticados preparados por ela. In the meantime, a ajudante da chef, que estava grávida, entra em licença maternidade e Nick (Aaron Eckart), um chef especializado em comida italiana, é contratado. Comédia inofensiva do diretor australiano Scott Hicks (Shine, 1996), versão pasteurizada da película alemã Simplesmente Martha, feita sob medida para Catherine Zeta-Jones.

Duro de matar 4 - Live free or die hard

Bruce Willis alcançou a fama primeiro na TV, no seriado A gata e o rato (Moonlighting), sobre a atrapalhada agência de detetives Blue Moon, em que contracenava com Cybill Shepherd. O seriado misto de aventura e comédia (que, por sinal, teve as primeiras temporadas lançadas em DVD no Brasil, na versão dublada, e sem opção de legendas) durou de 1985-89 e rendeu a Willis (que na época ainda tinha cabelo) um Globo de Ouro. O sucesso na série levou-o a estrelar Die Hard (1988), cujo protagonista, o teimoso policial John McClane, igualmente caiu nas graças do público - tanto que alcança sua terceira seqüência, e com fôlego.

Agente desertor da CIA resolve tumultuar a vida do povo norte-americano em pleno 4 de julho; para isso, utiliza-se do trabalho ilícito de uma rede de hackers para invadir sistemas e colocar em pane todos os serviços de infra-estrutura do país. Para salvar o mundo digital, um policial do mundo analógico: John McClane é escalado para localizar Matt Farrell (Justin Long), um dos hackers, que passa a ser perseguido pelos bandidos, que querem eliminar todas pessoas capazes de em tese reverter a polvorosa em andamento.
Um dos lances legais do roteiro é justamente esse: não há ameaça 'externa', desta vez, o mal vem das próprias entranhas do tio Sam. Há também boas tiradas quanto à questão da evolução científica. Enfim, o roteiro pouco importa: John McClane está de volta, em grande estilo. A propósito, o diretor não podia ser melhor: Len Wiseman, que tem no currículo nada menos que dois clássicos do pseudo-terror dark moderno: Anjos da Noite e Anjos da Noite - A Evolução, este último, comentado aqui em abril de 2006 (ver arquivo).

A vida secreta das palavras

A deficiente auditiva Hanna (Sarah Polley) é aconselhada pelo chefe da indústria a tirar férias. Nada a ver com a qualidade do seu trabalho: ela nunca falta e é super eficiente. Quanto à audição, o aparelho que usa a permite escutar. O verdadeiro problema é que Hanna nunca tirou férias e o sindicato pode reclamar.
Assim, a introvertida Hanna entra em férias um pouco a contragosto. Vai para a Irlanda do Norte, onde, num bar, escuta a conversa de um cara sentado à mesa ao lado. Ao que parece, estão procurando uma enfermeira para cuidar de um homem que sofreu queimaduras numa plataforma de petróleo instalado no Mar da Irlanda. Hanna, talvez por não conseguir ficar sem trabalhar, ou talvez por ser altruísta, ou ambas as alternativas, prontamente se oferece à missão. Essa personagem impulsiva e enigmática é o centro do filme da espanhola Isabel Coixet, uma produção de Pedro Almodóvar.


Na distante plataforma, Hanna chega de helicóptero, passa a cuidar de Josef (Tim Robbins) e a conhecer os poucos habitantes do local, que está com o mínimo de pessoal, depois do acidente que provocou uma morte: o cozinheiro, o faxineiro, o coordenador, um pesquisador e poucos funcionários. Mas o filme é mesmo sobre Hanna e Josef, o modo com que os dois vão se conhecendo, ele muito curioso sobre ela (devido aos ferimentos, está temporariamente privado da visão), ela muito reticente em dar qualquer espécie de informação sobre si. À medida que o tempo passa, a confiança entre os dois aumenta, culminando com revelações pungentes sobre o passado de ambos, que ajudam a entender o modo de ser e agir de cada um. Neste ápice bem nítido - uma seqüência na qual toda a verossimilhança da obra poderia ser colocada em risco - Polley e Robbins não decepcionam e, sob a mão segura de Coixet, entregam uma cena intensa, que contribui para compreender A vida secreta das palavras.

Tuesday, July 31, 2007

Colhendo morangos silvestres


Descobrir o cinema de Ingmar Bergman é educar os sentidos para uma experiência nova e edificante, é abrir os olhos para um cinema onde a recriação da vida se cristaliza, os personagens têm carne e osso, epiderme e coração, alma e substância, fraquezas e qualidades.
Colocar um filme de Bergman no prato do DVD é uma decisão corajosa. Nos próximos aproximadamente 120 minutos vou aprender como se faz cinema sério e sem apelações. Vou tirar um tempo para conhecer até onde a sétima arte pode chegar em termos de qualidade de roteiro, direção, interpretação e simplicidade.
Vou deixar de lado a pipoca e me concentrar em cada frase, cada movimento de câmera, cada nuance de luz; cada circunstância, cada dilema, cada momento dramático e especial.
Vou esquecer que o cinema americano enlatado existe. Vou mandar ao diabo as explosões, os tiroteios sem nexo, as caricaturas, as piadas forçadas, as perseguições. Vou desopilar meus neurônios, vou rejuvenescer meus axônios, vou abrir a cachola e deixar o cérebro arejar, pegar um sol, se livrar dos ácaros e do mofo.
Vou aprender a ser cinéfilo de verdade.
Assisti a Morangos Silvestres ontem.
Morangos, quem não colou em botânica deve lembrar, são frutos compostos, ou seja, cada polpa saborosa e perfumada tem inúmeros e minúsculos frutos incrustados em sua volta. Da mesma forma, cada personagem de Bergman é multifacetado, é tridimensional, não cabe em análises lineares e superficiais.
A empregada do professor Borg, por exemplo. É uma personagem tão real, é um papel tão verídico que nem pode ser chamado de coadjuvante. Pois sem sua fiel escudeira, o professor Borg não conseguiria chegar a lugar nenhum.
Muito menos, arrumar a mala para uma viagem à cidade onde lecionou, onde será homenageado com um título honorífico. O espectador fica ciente da auto-ironia do professor Borg (Victor Sjolstrom) quando este diz de si para si merecer, na verdade, o título de idiota honorífico.
"Morangos Silvestres" (1957) conta este dia da vida do Prof. Borg, não um dia comum: o dia em que ele viaja para receber o tal título. De cara, já muda os planos. Em vez de avião, decide ir de carro, para a surpresa da empregada.
E, como Bergman costuma fazer, surpreende o espectador ao introduzir personagens inesperados. Quem imaginaria que na casa do professor rabugento e sua empregada, estaria hospedada a nora Marianne (Ingrid Thulin, o suprassumo da perfeição sueca), que na última hora pede para ir junto?
Enquanto é tempo: não pense o leitor que "Morangos Silvestres" é um "filme-cabeça", um daqueles filmes chatos e arrastados, inócuos e intelectuais. "Morangos Silvestres" é antes de tudo isso: um road movie.
Se eu entendesse de carros poderia dizer que carro é o do Prof. Borg, mas ficamos assim: é um enorme carro preto, que, como os fatos irão demonstrar, é capaz de transportar até sete pessoas com facilidade.
Durante a viagem, Borg pára em um local conhecido e revisita o canteiro de morangos silvestres. O cheiro dos frutos revive memórias de sua juventude. E o filme vai contando um pouco da vida passada do professor, ao mesmo tempo em que são inseridos novos personagens, que parecem vir do passado, na forma de Sara, uma loirinha sapeca que pede carona ao professor.
Entre os novos passageiros surgem o noivo de Sara, e outro rapaz, também apaixonado por ela. O noivo quer ser pastor, toca violão e acredita em Deus. O acólito é um agnóstico; para ele, o homem moderno deve acreditar em si e na morte biológica. Com essa dualidade em forma de gente, Bergman vai acrescentando elementos que ajudam o professor Borg neste balanço de sua vida.
A viagem de Borg irá incluir um bizarro acidente; uma visita à sua mãe, mulher idosa, porém ativa; uma parada no posto de gasolina cujo dono é Max von Sidow; uma conversa franca com a nora; onde esta vai revelar detalhes do relacionamento conturbado com o filho de Borg, e inúmeros fragmentos de sonhos que perseguem o professor.
O cinema de Bergman é o típico cinema de autor, com personalidade e estilo marcantes. Um cinema que influenciou muitos dos melhores cineastas das gerações seguintes. Influência não só no cinema. Clarice Lispector, por exemplo, era fissurada em Ingmar Bergman.
Morangos como esses não se encontram nos supermercados e nas hortas. Não têm apelo fácil. Não vêm empacotados e plastificados, rotulados e carimbados. É preciso se aventurar, arriscar, caminhar no campo à sua procura. É preciso aprender o lugar e a época certos para encontrá-los. Sua aparência não será a de morangos adubados, pulverizados e selecionados. São frutos que cresceram livremente, aproveitando a fecundidade natural do solo, frutos de forma e tamanho desuniformes, porém puros.
(Texto escrito em setembro de 2002).

Monday, July 09, 2007

O hospedeiro

2002. Cientista americano trabalhando em Seul ordena colaborador local a despejar litros de produto químico de alta toxidez no ralo da pia do laboratório. 'Mas esse produto perigoso vai parar no Rio Han,' protesta o cientista sul-coreano. 'Obedeça', diz o ianque.
Com essa rápida cena, Bong Jong-Hoo (diretor de Puhran dah suh uigeh, 2000, microcosmos da sociedade sul-coreana, e Memories of Murder, 2005, baseado em caso verídico, sobre a investigação de uma série de estupros seguidos de assassinato) explica o que vai acontecer quatro anos depois, em 2006, ano em que se desenrola a maior parte da ação de O hospedeiro.
Antes de apresentar ao público a enorme teratologia gerada pela irresponsabilidade de um cérebro mesquinho, Bong mostra seus protagonistas humanos: a família do senhor Park Heui-bong (Byun Hee-bong), dono de um trailer que serve lulas e outros alimentos ao grande povo que usa a beira do Rio Han para lazer.
A família do pacato e justo Park inclui o filho, o meio devagar Gang-du (Song Kang-ho), que lhe ajuda no trailer e cuja maior realização foi lhe dar a neta Hyeon-seo (Ko A-seong), de treze anos de idade, por sua vez, grande admiradora da tia Nam-ju (Bae Doona), orgulho da família e premiada atleta do arco-e-flecha. Pouco mais tarde vai aparecer o terceiro filho de Park, Nam-il (Park Hae-il). Por incrível que pareça, não é na incrível criatura que habita o Rio Han que Bong baseia seu filme de 119 minutos: é nessa bem construída e caracterizada estrutura familiar.
Também para introduzir seus heróis o talentoso roteirista é extremamente econômico; o espectador não precisa esperar muito para começar a ficar com a respiração suspensa, os olhos arregalados e o queixo caído. A ação vertiginosa de O hospedeiro, com pitadas de ironia social e de crítica a governos totalitários, é uma mistura inusitada de nonsense, humor negro, ficção científica, melodrama, terror e terrir, para mencionar alguns dos ingredientes.
O fato de o filme imprimir um ritmo intenso de surpresas (leia-se maneiras surpreendentes de aproveitar velhos clichês) ajuda a explicar o sucesso mundial de crítica e público; e justamente porque o roteiro é 'uma surpresa após a outra' vou me abster de contar detalhes. O que não me impede de tentar explicar melhor o porquê desse monstruoso sucesso: O hospedeiro não é a fantástica história de um aterrorizante e gigantesco anfíbio; é a simples história de uma família que luta para resgatar um bem valioso.

Thursday, July 05, 2007

She's having a baby

O roteirista, produtor e diretor John Hughes conquistou o público norte-americano na década de 80, com seu ciclo 'high school', que incluiu filmes como The breakfast club (Clube dos cinco, 1985, direção, produção e roteiro) e Pretty in pink (A garota de rosa-shocking, 1986, produção e roteiro, com direção de Howard Deutch). Ao longo da carreira, Hughes foi gradativamente abandonando a direção para se concentrar nos roteiros e na produção. Foi assim que alcançou seu maior sucesso comercial: Home alone (Esqueceram de mim, 1990), com Chris Columbus na direção. O filme gerou duas seqüências, e Hughes aproveitou o filão e roteirizou outros sucessos 'família': Beethoven (1992) e Dennis the menace (Dennis, o Pimentinha, 1993). Nas palavras do site Yahoo Movies, John Hughes 'em sua melhor forma, mistura com destreza a comédia e o drama, penetrando a tranqüilidade superficial suburbana para investigar a teimosa qualidade da vida americana moderna'.


Em 1988, Hughes escreveu, produziu e dirigiu "She's having a baby". O filme abre com Jake (Kevin Bacon) conversando com seu melhor amigo Davis (Alec Baldwin) dentro de um carro conversível, à frente de uma igreja. Jake Briggs está em dúvida. Davis coloca lenha na fogueira e tenta convencer Jake a desistir do casamento. Mas Jake é apaixonado por Kristy (Elizabeth McGovern) desde os 16 anos. Apesar do frio na barriga, entra na igreja para consumar o inexorável, o inevitável.

Essa comédia aborda os primeiros anos do casal Briggs, anos de readaptação e confronto com novas realidades. Jake precisa abandonar temporariamente o sonho de se tornar escritor: consegue um emprego de redator numa agência de publicidade. Quatro anos depois, começam as pressões dos pais por netos.

Comédia leve, sem apelações, com Gene Loves Jezebel, Bryan Ferry, Love and Rockets e Everything but the girl na trilha sonora. O jovem marido e futuro pai está sempre dando asas à imaginação e tentando responder a questões difíceis, e no final conclui que "o que estava procurando não era algo para ser encontrado, e sim para ser construído". Filme ideal para se assistir com a mão sobre uma graciosa barriga de 24 semanas, sentindo os chutinhos de um guri bem agitado.

Wednesday, June 13, 2007

Ventos da liberdade

O título original do filme de Ken Loach (The wind that shakes the barley; em tradução literal, O vento que balança a cevada) é o mesmo de uma canção do século XIX. Na película de Loach, os primeiros versos dessa canção são entoados de modo plangente por uma velha senhora, pranteando um parente morto pelos militares ingleses, durante a Guerra da Independência e da Partição (1919-1921).

A título de curiosidade, publico aqui a letra integral da canção:

I sat within the valley green, I sat me with my true love
My sad heart strove the two between, the old love and the new love
The old for her, the new that made me think on Ireland dearly
While soft the wind blew down the glen and shook the golden barley


'Twas hard the woeful words to frame to break the ties that bound us
But harder still to bear the shame of foreign chains around us
And so I said, "The mountain glen I'll seek at morning early
And join the bold united men
," while soft winds shake the barley

While sad I kissed away her tears, my fond arms round her flinging
A yeoman's shot burst on our ears from out the wildwood ringing
A bullet pierced my true love's side in life's young spring so early
And on my breast in blood she died while soft winds shook the barley


I bore her to some mountain stream, and many's the summer blossom
I placed with branches soft and green about her gore-stained bosom
I wept and kissed her clay-cold corpse then rushed o'er vale and valley
My vengeance on the foe to wreak while soft wind shook the barley


But blood for blood without remorse I've taken at Oulart Hollow
And laid my true love's clay cold corpse where I full soon may follow
As round her grave I wander drear, noon, night and morning early
With breaking heart when e'er I hear the wind that shakes the barley.


Escrita por Robert Dwyer Joyce (1836-1883), professor e poeta nascido em Limerick, fala de um jovem irlandês que, depois de ter a namorada morta, vai participar da rebelião irlandesa de 1798 (na qual os irlandeses declararam sua fé num futuro pacífico). Naquela ocasião, a rebelião foi controlada pelos ingleses. Segundo o site Wikipedia, as referências à cevada na canção decorrem do fato de que os rebeldes carregavam grãos de cevada e aveia nos bolsos, como provisões durante as marchas.

Essa não é a história contada por Ken Loach em seu filme homônimo, que lhe valeu a Palma de Ouro em Cannes 2006. Apenas tomou emprestado o título da canção, símbolo de um povo marcado pela violência. A canção fala em "foreign chains" e em "blood for blood"; simboliza tanto o desejo de se libertar do jugo inglês como o desejo de vingança, a vontade e a necessidade de lavar sangue com mais sangue.
Esses sentimentos impregnam a película de Ken Loach, no contexto da luta irlandesa para se tornar uma nação independente, liderada pelo IRA (Irish Republican Army), a partir de 1919. O filme acompanha a trajetória de Damien O'Donovan (Cillian Murphy), que, após presenciar o assassinato de um jovem irlandês de 17 anos pela milícia inglesa, desiste de prosseguir nos estudos para se unir ao Exército Republicano Irlandês. Seu irmão Teddy O'Donovan (Padraic Delaney) é um dos líderes locais do IRA, que intensifica as ações de guerrilha contra os ingleses, na base de olho por olho, dente por dente, o que obriga o governo inglês a procurar um acordo. Quando, porém, os demais revolucionários tomam conhecimento das bases do acordo assinado por Michael Collins (o comandante do IRA) com os ingleses, a maioria não concorda e decide continuar a guerrilha. É aí que o filme chega na parte mais triste: o que antes era um banho de sangue entre ingleses e irlandeses, agora se torna uma carnificina interna, entre os irlandeses que passam a controlar e fiscalizar o cumprimento do tratado, e aqueles rebeldes inconformados, que passaram a chamar Michael Collins de traidor. Entre estes, Damien, que passa a enfrentar o próprio irmão Teddy, oficial da nova polícia local.
Questões complexas e delicadas, abordadas por Ken Loach com coragem. Ventos da liberdade mostra bem as trágicas conseqüências do radicalismo de ambas as partes.

Friday, June 01, 2007

Homem Aranha 3

Agora que todos pseudocríticos já fizeram suas análises pseudoprofundas e pseudofilosóficas, todos moviefreaks infestaram as listas de cinema com suas freakmensagens freakestapafúrdias, todos patrulheiros-de-coincidências-no-roteiro de plantão já fizeram seus veementes protestos, agora, só agora, que não há mais perigo de escrever algum spoiler pois todo mundo já viu, pode um cinéfilo freethinker manifestar-se.
“Há coincidências demasiadas no roteiro.” “Que filme estou vendo? – perguntou, incrédulo, o namorado à namorada.” “Grande falha do diretor colocar um figurante parecido com o cara que faz o Duende Verde (Willem Dafoe)”. “O filme é um insulto à minha inteligência.” Etc.
Costumo ser leal aos diretores preferidos e, quando eles são criticados, aí mesmo que me dá vontade de defendê-los ferrenhamente. Não é o caso. Sam Raimi está na lista dos meus top ten, por várias razões que caberiam aqui, mas, além de já ter escrito sobre isso no post O alucinante olhar de Sam Raimi (http://olharcinefilo.weblogger.terra.com.br/200407_olharcinefilo_arquivo.htm), quero tentar fazer o exercício dos que se supõem superiores a seus gostos pessoais e capazes de serem ‘imparciais’, daqueles que dizem conseguir ‘sublimar’ esse respeito para com o diretor e deter-se apenas no produto em si: Homem Aranha 3.
Começando pela primeira alegação: segundo consta, quem levantou essa lebre foi um roteirista de Hollywood que fez uma crítica aberta ao roteiro de Homem Aranha 3, enumerando as supostas coincidências. E a partir do momento que esse suposto texto circulou na net, transformou-se numa verdade insofismável. E é verdade mesmo. O roteiro é uma série assustadora de incríveis coincidências encadeadas.
Quanto à constatação daquele espectador que não sabia que filme estava vendo: sentiu-se roubado porque o filme tem um momento em que muda um pouco o foco, o ritmo e o assunto, deixando de ser Homem Aranha 3 para ser “O que acontece com um homem quando a auto-suficiência lhe sobe à cabeça”. Pertinente a reclamação.
A terceira queixa: na cena do bar numa mesa atrás da de Peter Parker, há um cara muito parecido com Norman Osborn / Duende Verde. A câmera passeia rapidamente no rosto de um sósia de Willem Dafoe, uns trinta anos mais novo. Igualmente incontestável.

Sobre o filme ser um insulto à inteligência seja de quem for, bem, aí já entramos na área pessoal.

De modo que, de certa forma, as quatro críticas procedem.



Entretanto, para fazer o contraponto, apresento algumas possíveis defesas às críticas:

Defesa 1 - coincidências elevadas à enésima potência: intencionais, com o objetivo de impregnar o filme com a característica de banda desenhada e não querer ‘intelectualizar’ um personagem que sempre foi popular;

Defesa 2 – Shakespeare em seus dramas sempre inclui trechos de alívio cômico, uma cena em que o tópico deixa de ser o motivo principal da peça para retratar uma faceta desconhecida do herói (vide a cenas dos coveiros em Hamlet ou a cena do porteiro em Macbeth); o trecho do filme em que Peter Parker está ‘se achando’ é nessa linha; sem falar que toda essa situação provoca um debate psicológico que enriquece o personagem e o filme;

Defesa 3 – o lance do sósia é uma sacada típica do Sam Raimi, ele fez por gosto, uma brincadeira com a platéia, a exemplo do que ele faz ao colocar o Bruce Campbell, o Ash de Uma noite alucinante, em uma ponta em cada um dos filmes da trilogia (1. apresentador das lutas; 2. porteiro do teatro; e 3. mâitre).

Defesa 4 - filmes de Sam Raimi provocam esse tipo de reação, desde o começo da carreira dele. Quando convidei uma galera de três colegas da graduação de Agronomia para ver o filme Uma noite alucinante no saudoso Cinema Cacique, um deles se matou rindo, o outro ficou neutro e o terceiro odiou. Achou Evil Dead II um insulto à sua inteligência. Acho que isso acontece sempre que o espectador não se deixa levar ou não entra no espírito do filme.

Mas a pergunta que eu gosto de responder quando vou assistir a um blockbuster de um ex-diretor independente: o diretor está mascarado? Há sangue dele no filme ou pasterizou-se por completo? Vendeu a alma ao sistema? A boa notícia é que Sam Raimi, se não continua o mesmo, não perdeu a centelha criativa e a capacidade de fazer cenas de cinema puro.

Tuesday, May 22, 2007

Cão sem dono

Vencedor de três prêmios no Festival do Audiovisual de Pernambuco – Melhor Longa Metragem, Prêmio da Crítica e Melhor Atriz –, Cão sem dono é a adaptação fílmica do primeiro romance do escritor Daniel Galera, intitulado Até o dia em que o cão morreu, lançado em 2003 pela editora Livros do Mal e relançado em 2007 pela Companhia das Letras. O autor, nascido em São Paulo, cresceu no RS e estreou com a coletânea de contos Dentes guardados. Em 2006, publicou Mãos de cavalo, sua segunda novela.

Até o dia em que o cão morreu, conforme Alex Castro, poderia ser enquadrado no que ele chama de “Escola urbana” ( http://www.sobresites.com/alexcastro/artigos/urbana1.htm): um movimento da literatura brasileira contemporânea que se caracteriza por protagonistas apáticos, mulheres objetos e ausência de enredo.

O livro de cem páginas conta a história porto-alegrense de um recém-graduado em Letras, especialista em russo e aspirante a tradutor literário, que conhece a modelo Marcela numa formatura e passam a noite juntos no apartamento quase sem mobília onde mora o rapaz. A partir dessa primeira noite, os dois passam a se encontrar com freqüência, sempre no despojado ap, conforme a vontade da moça. Os dois formam um casal improvável (ela muito bonita para ele), mas esta é outra característica da ‘Escola urbana’: protagonistas feios, sujos e malvados que traçam belas mulheres. No relacionamento aparentemente baseado em sexo não se pronuncia a palavra amor. (Mas não verbalizar não quer dizer não sentir). Desempregado e com dificuldades para pagar suas contas, o jovem vai almoçar na casa dos pais todo domingo. É deles o suporte financeiro para sua tentativa de vôo solo. Quando o pai lhe dá a real que não pode mais ajudá-lo, é Marcela, cuja carreira vai bem, que ajuda com o dinheiro do aluguel. Outros personagens do livro são: o porteiro que pinta quadros surrealistas e faz sorvete caseiro; o motoboy Lárcio (que atropela Marcela e, como pedido de desculpas, oferece um jantar em sua casa); Ana, a mulher de Lárcio, e, last but not least, Churras, o cachorro vira-lata.




O filme, roteirizado pelos diretores Beto Brant e Renato Ciasca, junto com Marçal Aquino, acrescenta pontos que não constam no livro e omite partes interessantes, como as recordações do protagonista sobre o avô. Entre os acréscimos, uma fala do pai de Ciro (o protagonista, que no livro não tem nome) com o filho à beira do Guaíba sobre problemas enfrentados no casamento devido ao uso de drogas.

É inevitável para quem leu o livro fazer comparações com o filme; por exemplo, a descrição física de Lárcio no livro não fecha com o Lárcio da tela – o que não impediu a atuação convincente do ator Marcos Contreras. Em compensação, o cão e o porteiro (Luis Carlos Coelho) estão perfeitos no quesito compatibilidade com o original e ''roubam" as cenas em que aparecem. Outra diferença: a causa mortis de Churras, detalhe importante no livro, não é mencionada no filme. O título alternativo “Até o dia em que o cão morreu” foi mudado para o comercial Cão sem dono. O roteiro permite-se citações literárias com tempero local, como a entrada de Ciro na livraria para comprar obras de Sérgio Faraco.
Quanto ao filme em si, sua melhor qualidade é a despretensão, que chega a níveis quase intoleráveis. O filme é tosco, dá a sensação de que não houve preocupação em repetir cenas (o que pode não ser verdade), e algo me diz que foi exatamente essa a intenção dos diretores Renato Ciasca e Beto Brant. Quando Marcela (a estreante Tainá Müller, a namorada de Daniel Galera) está com a perna enfaixada, tive a impressão até de que um erro de continuidade foi incluído propositalmente, para desconcertar ou deixar o público com a pulga atrás da orelha. Falando em pulgas, bem que o cão podia ter aparecido mais - ele some durante a parte final. Mas, na verdade, o verdadeiro cão sem dono do filme é Ciro (Júlio Andrade), imagem e personagem de uma Porto Alegre cinza e underground (com direito à cena na Garagem Hermética).

Friday, May 18, 2007

Contando, ninguém acredita!

Original

Brasil / Portugal

1. Requiem for a dream

Réquiem para um sonho / A vida não é um sonho


2. The fountain

A fonte da vida / O último capítulo


3. Charlotte's Web

A menina e o porquinho / A teia de Carlota


4. Flags of our fathers

A conquista da honra / As bandeiras de nossos pais


5. Relative strangers

Parentes perfeitos / Socorro, conheci os meus pais!


6. School for scoundrels

Escola para idiotas / Escola para totós


7. Little Miss Sunshine

Pequena Miss Sunshine / Uma família à beira de um ataque de nervos


8. Smokin' aces

A última cartada / Um trunfo na manga


9. The departed

Os infiltrados / Entre inimigos


10. The painted veil

O despertar de uma paixão / O véu pintado


11. One hour photo

Retratos de uma obsessão / Câmara indiscreta


12. Amores perros

Amores brutos / Amor cão


13. Dante's peak

Vulcano / O cume de Dante


14. Dragonfly

O mistério da libélula / O poder dos sentidos


15. My big fat Greek wedding

Casamento grego / Viram-se gregos para casar


16. Panic room

Quarto do pânico / Sala de pânico


17. For your eyes only

Somente para seus olhos / Missão ultra secreta


18. Analyze this

Máfia no divã / Uma questão de nervos


19. The best of the Muppets

O melhor dos Muppets / O melhor dos Marretas


20. Minority report

A nova lei / Relatório minoritário


21. Road to perdition

Estrada para a Perdição / Caminho para a Perdição


22. Moonsoon wedding

Casamento à indiana / Casamento debaixo de chuva


23. Charlie's Angels

As Panteras / Os Anjos de Charlie


24. Vertigo

Um corpo que cai / A mulher que viveu duas vezes


25. Stranger than fiction

Mais estranho que a ficção / Contando ninguém acredita

;)






Monday, April 30, 2007

Miss Potter


A escritora e ilustradora Beatrix Potter (1866-1943) encantou gerações com sua série de livros que imortalizaram personagens como Peter Rabbit (The tale of Peter Rabbit, publicado em 1902, vendeu 40 milhões de cópias no mundo todo) e Jemima Puddle-Duck.

Sua vida e arte são abordadas em Miss Potter. Renée Zellweger é a delicada Beatrix e Ewan McGregor é Norman, o inexperiente, porém perceptivo editor das obras de Beatrix. Os seguidos contatos entre a artista e o homem de negócios provocam sentimentos inesperados no coração da solteirona de 36 anos, mas os pais aristocratas de Beatrix não aprovam a amizade.

O diretor australiano Chris Noonan - cuja realização mais famosa é "Babe, o porquinho atrapalhado", de 1995 - conta a biografia da artista londrina de modo enternecedor.

Wednesday, April 25, 2007

A colheita do mal

O diretor Stephen Hopkins tem no currículo A Hora do Pesadelo 5 (1989), Predador 2 (1990), A Sombra e a Escuridão (1996) e Perdidos no Espaço (1998). De 1999 a 2001, namorou a atriz Naomi Watts. (Sei, isso não tem relevância alguma.) Em 2004, dirigiu a co-produção da BBC e HBO The life and death of Peter Sellers, com Geoffrey Rush. O realizador nascido na Jamaica e educado em Londres agora ataca com The reaping (A colheita do mal, 2007), cujo maior trunfo é a presença de Hillary Swank. A atriz duplamente oscarizada é Katherine Winters, missioneira que, após um trauma familiar, torna-se uma pesquisadora cética. Através de explicações científicas, desmascara eventos "sobrenaturais" ou "milagrosos". Tipo de pessoa que deve ter como livro de cabeceira O mundo assombrado pelos demônios, a obstinada defesa da ciência magistralmente escrita por Carl Sagan.

Depois de solucionar um caso inicial (o cadáver de um padre intacto por 40 anos no Chile), Katherine é chamada a uma pequena cidade nos Everglades. O rio ficou vermelho e as pessoas acusam Loren McConnell (AnnaSophia Robb), uma menina de 12 anos, de ser a responsável. Com a ajuda de Ben (Idris Elba) e o assessoramento local de Doug (David Morrissey), Katherine procura uma explicação científica para a cor escarlate da água do rio. Retira amostras e manda para o laboratório. In the meantime, novos episódios estranhos acontecem, numa sucessão que imita as dez pragas bíblicas. Katherine tenta se aproximar da menina Loren, o que lhe evoca a lembrança da própria filha e do marido, assassinados no Sudão quando Katherine trabalhava como missionária.

Os problemas do roteiro são o mau uso das idéias e o modo como as 'explicações' são inseridas. A colheita do mal não faz jus ao gênero suspense/fantástico, tradicionalmente defendido por diretores de talento, como Alfred Hitchcock, Peter Jackson e Sam Raimi.

Sunday, April 08, 2007

300

O diretor Zack Snyder, de Madrugada dos Mortos
(http://olharcinefilo.weblogger.com.br/200404_olharcinefilo_arquivo.htm), baseia sua segunda e esperada película no homônimo álbum de HQ de Frank Miller sobre a Batalha das Termópilas, episódio da guerra entre gregos e persas, no século V a.C.

Nessa batalha, o bravo Leônidas recruta 300 dos melhores soldados espartanos, todos com filhos a quem legar o nome, com o objetivo de impedir o avanço das tropas persas por território grego. O plano de Leônidas (Gerard Butler), com a ajuda de 4000 combatentes de outras cidades-estado, é formar uma barreira humana inexpugnável no desfiladeiro das Termópilas - que, na época, possuía uma passagem de 12 metros de largura -, repelir as investidas, infligir perdas no numeroso exército persa (conforme Heródoto, um milhão de soldados; historiadores modernos calculam em 250 mil), e assim abater o ânimo dos comandados de Xerxes (Rodrigo Santoro). Uma das bonitas cenas do filme é o momento em que Leônidas parte com seus 300 soldados e se despede do filho e da rainha Gorgo (Lena Headey).

Há líderes em que a coragem, a obstinação, a estratégia, a ética e o amor à liberdade se reúnem de forma rara; há filmes onde o apuro, a honestidade, a energia, o idealismo e a paixão se unem de modo empolgante. Líderes como Leônidas, o rei de Esparta, e filmes como 300, de Zack Snyder.

Transamerica

Duncan Tucker estréia como diretor contando a história de Bree, diminutivo para Sabrina, cozinheira/garçonete numa modesta lancheria de Los Angeles. Em casa, Bree completa a renda como agente de televendas. Tudo seria normal na vida dessa discreta senhora, não fosse seu pênis. Bree é na verdade Stan, diminutivo para Stanley, um transexual na fila de espera para a operação de redesignação sexual. Para isso, precisa do aval da terapeuta Margaret (Elizabeth Peña). Quando Bree conta à psicóloga sobre a ligação inesperada de Toby (Kevin Zegers, de Madrugada dos Mortos), jovem de 17 anos recolhido a um reformatório que alega ser filho de Stanley, a cirurgia é adiada, a fim de que Bree/Stan possa resolver essa unfinished question.

Bree pega um vôo para Nova York, paga a fiança de Toby, apresenta-se como emissária de uma igreja e oferece ao jovem a possibilidade de acompanhá-la até Los Angeles, e lá começar uma vida nova.
Sem melhor opção, Toby aceita e os dois empreendem uma viagem de carro através da América, passando por muitos lugares, tendo contato com muitas pessoas, como o padrasto de Toby; o andarilho hippie a quem oferecem carona; Calvin (Graham Greene), o simpático descendente de índio por quem Bree se interessa; e a família de Bree, em especial Elizabeth (Fionulla Flanagan, de Os outros), que não aceita a opção do filho, mas se apaixona pelo neto Toby. A relação Toby - Bree evolui ao longo da viagem, à medida que as máscaras caem e as verdades se revelam. O trabalho da atriz Felicity Huffman (a Lynette do seriado Desperate housewives) como a protagonista valeu uma indicação ao Oscar e um Globo de Ouro. A produção do filme ficou a cargo de William H. Macy, marido de Felicity.

O crocodilo

Em Il Caimano (2006), o diretor Nanni Moretti volta a misturar ficção com realidade, e a mesclar temas como a preocupação com as relações familiares, a situação política de seu país e a vida profissional de um diretor de cinema. Aprile (1998) relatava a experiência de um diretor de cinema às voltas com as suas produções fracassadas, o nascimento do primeiro filho e as eleições na Itália, que acabaram levando Silvio Berlusconi ao poder. No seu mais recente filme, o realizador italiano (que em 2002 obteve a Palma de Ouro de Melhor Filme, com O quarto do filho) conta a saga do diretor de filmes B Bruno Bonomo (Silvio Orlando) - cujo casamento com Paola (Margherita Buy) está em fase terminal - no esforço de manter-se no meio cinematográfico, fazendo um épico ambicioso sobre Cristóvão Colombo. O plano soçobra, e a alternativa é um roteiro chamado "Il Caimano", que lhe havia sido entregue durante uma sessão de cinema, por uma moça desconhecida com um bebê de colo. Bruno faz uma leitura 'em diagonal' do roteiro e resolve convencer os produtores a financiar o filme - sem perceber que a história contada por Teresa (Jasmine Trinca) é, na verdade, baseada nos fatos políticos italianos e uma crítica ao primeiro-ministro Silvio Berlusconi.
Em O crocodilo, a exemplo do que fez em Abril, Moretti estabelece um jogo onde a ideologia política é um dos elementos, sem, entretanto, perder a autocrítica; até o próprio Bruno, a certa altura, comenta que é 'muito fácil fazer um filme ideológico'. No âmbito familiar, se o filme de 1998 enfatizava a expectativa de um pai de primeira viagem, agora o foco é a separação de um casal com dois filhos pequenos (um de 9 e um de 7). A solitude de Bruno é tanta que ele passa a dormir no estúdio, numa cama improvisada em meio aos rolos de filmes como "O Mocassim Assassino","Machistas Contra Freud" e "Cataratas". Uma cena síntese do estilo Moretti é a que Paola e Bruno, após assinar o divórcio, emparelham seus carros no trânsito e trocam olhares, ao som de Blower's daughter, de Damien Rice. Sim: os bons cineastas não têm medo de serem rotulados de piegas.

Monday, March 26, 2007

Little Miss Sunshine e El Laberinto del Fauno

Uma rápida olhada na programação e percebo a atraente possibilidade de duas sessões encordoadas nas salas de cinema da Casa de Cultura Mário Quintana (que, com a competente e austera Mônica Leal à frente da Secretaria da Cultura, certamente não irão fechar): Pequena Miss Sunshine às 18h20 e O Labirinto do Fauno às 20h. Sair de uma e entrar na outra. Dito e feito: dois filmes de culto, o primeiro, norte-americano, Oscar de Melhor Roteiro Original e Melhor Ator Adjuvante (Alan Arkin); o segundo, mexicano, Oscar de Fotografia, Direção de Arte e Maquiagem; ambos igualmente belos, cada qual a seu estilo, porém, diametralmente opostos nas sensações que provocam no público.

O filme do casal Valerie Faris e Jonathan Dayton (que trabalham juntos desde os tempos em que se conheceram na UCLA; entre outros trabalhos, produziram clips do REM e Smashing Pumpkins) em poucos minutos apresenta seis interessantes personagens de uma mesma família: a pequena e espontânea Olive (Abigail Breslin, a filha de Mel Gibson em Sinais), de sete anos, que fica entusiasmada com a oportunidade de participar de um concurso de beleza; seu irmão Dwayne (Paul Dano), leitor de Nietzsche, que se comunica através de um bloco e um lápis, por conta de um voto de silêncio; o pai Richard (Greg Kinnear), criador de uma técnica de chegar ao sucesso chamada 'Os nove passos'; o avô (Alan Arkin, no papel que lhe valeu o Oscar), pai de Richard, que mora junto na casa do filho após ser expulso da casa geriátrica por consumo de drogas; a esposa Sheryl (Toni Colette), elemento agregador-estabilizador da conturbada família, que tem ainda Frank, irmão de Sheryl, especialista em Marcel Proust, gay e suicida. Essa fauna, enquanto vai de Albuquerque a Redondo Beach, na Califórnia, trafegando em uma Kombi sem embreagem, realizar o sonho de Olive em participar do concurso "Little Miss Sunshine", é obrigada a funcionar como uma verdadeira família, onde as pessoas se aceitam, se encorajam e procuram se compreender.





Por sua vez, a película de Guillermo Del Toro traz uma fauna mais literal: sapos, louva-a-deus, escaravelhos, fadas, faunos, criaturas presentes na imaginação de Ofélia (Ivana Baquero). A menina, devoradora de contos-de-fadas, acompanha a mãe Carmen (Ariadna Gil), que está grávida, numa viagem de automóvel até uma base militar, cujo líder é o desalmado capitão Vidal (Sergi Lopez). Na concepção do comandante da base, um filho tem que nascer onde está o pai. Na nova morada, a introvertida Ofélia faz amizade com Mercedes (Maribel Verdu), uma das cozinheiras, e passa a vivenciar experiências preternaturais, envolvendo um fauno (Doug Jones) que mora num labirinto. Não demora, Ofélia percebe que Mercedes é informante dos rebeldes procurados pelos soldados de Vidal; enquanto a mãe se aproxima do parto e a violência a seu redor aumenta, Ofélia mergulha cada vez mais em sua dimensão paralela: precisa realizar as missões exigidas pelo fauno e provar ser a Princesa tão esperada.
O contexto histórico é a Espanha dos anos 40, na ditadura de Francisco Franco. O realizador Guillermo del Toro (de A Espinha do Diabo, Blade II e Hellboy) faz uma pequena obra-prima do cinema fantástico que é, ao mesmo tempo, um libelo contra os regimes fascistas.

Ao cabo de Little Miss Sunshine, as luzes se acendem e revelam semblantes radiantes. No fim de El Laberinto del Fauno, olhares sombrios. Um leva às gargalhadas, o outro à apreensão. Um encanta pela leveza, o outro pela densidade. Um surpreende pela simplicidade, o outro pela elaboração. Dois cults de primeira ordem.

Sunday, March 25, 2007

Cartas de Iwo Jima

Clint Eastwood, que aprendeu a dirigir observando diretores como Don Siegel e Sergio Leone, conta sob o ponto de vista do país oriental a desesperada batalha de Iwo Jima, travada em fevereiro e março de 1945, na sulfurosa ilhota do Japão. Empreitada suicida para os japoneses que, jogados à própria sorte, sem possibilidade de reforço aéreo e naval, organizaram-se do melhor modo para resistir o máximo possível ao bem estruturado e maciço ataque norte-americano. Com base num elenco forte - que inclui Ken Watanabe (o estrategista General Kuribayashi, que coordenou a férrea defesa, possível devido à construção de uma rede de túneis e cavernas), Ryo Kase (o hesitante soldado Shimizu), Tsuyoshi Ihara (o bravo Tenente Coronel Baron Nishi, que comandou o regimento de carros de combate, colocados camuflados em posições estáticas) e Kazunari Ninomyia (o irreverente Saigo, o soldado decidido a sobreviver ao horror da guerra e voltar para a mulher e a filha recém-nascida) -, Eastwood realiza um filme sensível e humanizante - por mais paradoxal que isso possa parecer. Falado em japonês.

Friday, March 23, 2007

Motoqueiro fantasma

Peter Fonda, um dos motoqueiros de Easy Rider (Sem Destino, 1969), nesta adaptação dos quadrinhos Marvel dirigida por Mark Steven Johnson (que tem no currículo O Demolidor, 2002) é o diabo em pessoa. Johnny Blaze descobre que a saúde de seu pai, com quem trabalha e com quem aprendeu a pilotar motos para exibições, está seriamente afetada. Um misterioso homem aparece e lhe propõe um negócio: a sua alma em troca da saúde paterna. Meio sem querer, Johnny assina o contrato com uma gota de sangue. Está selado o seu destino: ficar à disposição de Mefistófeles para o dia em que ele precisar de seus préstimos. O pai melhora mas morre num acidente. Johnny torna-se um cara solitário e soturno, vivendo somente para o trabalho e afastando-se da namorada Roxanne. Anos depois, os dois se reencontram, ele (Nicolas Cage), o mais ousado motoqueiro de saltos, ela (Eva Mendes), a jornalista que o entrevista antes de mais uma perigosa apresentação. Então volta a intervir o maquiavélico Mefistófeles, cobrando a dívida e dando a Johnny uma missão; para cumpri-la, Johnny recebe poderes fantásticos. À noite, na presença do mal, transforma-se no Ghost Rider: no lugar da face, uma caveira em fogo; no lugar dos pneus, rodas incandescentes que deixam rastros por onde passa. Como arma, uma corrente que leva enrolada a tiracolo. Para livrar-se do vínculo com Mefisto e tentar resgatar o amor por Roxie, Johnny irá enfrentar uma gangue de vilões fantasmagóricos liderados por Blackheart (Wes Bentley) e contar com ajuda do coveiro interpretado por Sam Elliot. Pura diversão para acompanhar a pipoca.


Thursday, March 22, 2007

Letra e música

O loser assumido Alex Fletcher (Hugh Grant), ex-integrante da banda Pop, sucesso nos jurássicos anos 80, ganha a vida fazendo shows com playback, agendados pelo empresário - não menos loser - em clubes para reduzido público nostálgico - trintonas, quarentonas e afins, sequiosas de ver de perto o antigo ídolo, apesar de ele estar, atualmente, um tanto fora de forma.
A carreira se encaminha a um final melancólico, quando, do nada, Cora Corman (Haley Bennett), a cantora 'da hora', requisita Alex para lhe compor uma canção. Para oxigenar a combalida carreira, Alex aceita o desafio e procura uma pessoa para escrever a letra - o seu forte é a melodia. Depois de uma frustrada tentativa com um letrista profissional, Alex aposta as fichas em Sophie Fisher (Drew Barrymore), a atrapalhada, hipocondríaca e esquisita moça que substitui a cuidadora de plantas, que, despretensiosa, dá um palpite - um verso que agrada o veterano ex-pop star.
Desenvolve-se então uma inusitada parceria, que possibilitará um conhecimento mútuo e o surgimento de personagens como Sloan Cates (Scott Campbell), asqueroso professor com quem Sophie teve um caso no passado.
A tiração com os musical e bregamente incomparáveis anos 80 é total, vide a hilária abertura do filme. Apesar do tom irônico-satírico, o filme acaba sendo uma homenagem aos Eighties, tão badalados festas afora, tão presentes nos palcos de Porto Alegre neste mês de março (Bryan Adams, em show impecável no Teatro do Sesi, e Pet Shop Boys, que levou os fãs ao delírio no Gigantinho).
O roteirista e realizador Marc Lawrence, de Amor à segunda vista (2002), nos proporciona em Letra e música (2007) estimulantes momentos de humor e romance.

Wednesday, March 21, 2007

Pro dia nascer feliz

Documentário de João Jardim sobre a educação brasileira. O cineasta, depois de lançar o premiado Janela da Alma (2002, co-dirigido por Walter Carvalho, sobre a importância da visão e como pessoas com diferentes graus de deficiência visual percebem o mundo), respondeu assim a uma pergunta sobre projetos futuros (publicada no site Cinemando, assinada pelo repórter Thiago Ribeiro - http://www.cinemando.com.br/200211/entrevistas/joaojardim_01.htm): "Não tenho nada ainda. Gostaria de ter uma idéia boa de novo. Não importa para quê. Tem que ter uma idéia que valha a pena." A boa idéia de Jardim foi dirigir o seu olhar sensível para nossos estudantes do ensino médio, suas angústias e aspirações. Produto de mais de 200 horas de filmagem e muitos quilômetros rodados, Pro dia nascer feliz conta com a trilha sonora de Dado Villa-Lobos e capta flagrantes da vida escolar e pessoal dos estudantes. Percorrendo vários estados, como Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro, o documentarista seleciona "personagens" representativas do talento, da capacidade, da esperança - mas também da falta de perspectivas e de valores - de nossa juventude.
Uma dessas personagens de talento é a pernambucana Valéria (a moça da foto), autora de poemas que os professores não acreditam serem dela. Outra é moça de olhos claros, cdf, de uma escola tradicional de São Paulo, que se emociona ao falar do ano de muito estudo e pouco namoro. De retrato em retrato, escola em escola, Jardim forma um mosaico de retalhos que bem espelha a realidade da educação nacional. Sem dúvida, a idéia valeu a pena.

Tuesday, March 20, 2007

A Rainha e Maria Antonieta


Stephen Frears e Sofia Coppola. A monarquia britânica do século XX e a monarquia francesa do século XVIII. Helen Mirren e Kirsten Dunst. O comedimento de Elisabeth e a extravagância de Maria Antonieta. Em comum nos dois filmes, o retrato da frivolidade real: caçadas e mais caçadas para preencher o tempo de reis, cônjuges, príncipes e congêneres. Caçadas de Louis XVI e sua comitiva, assessorados por uma matilha de cães; caçadas do figurativo marido da Rainha Elisabeth, com os netos, filhos de Diane. Um Oscar de Melhor Atriz e um de Melhor Figurino. Frears retrata os bastidores da morte de Diane, que coincidiu com a posse do primeiro ministro Tony Blair (Michael Sheen), e a forma com que Blair convenceu a Rainha a ouvir o povo e alterar a postura distante e aparentemente insensível.
Sofia Coppola, inspirada no livro da historiadora Antonia Fraser,
conta a jornada da jovem Maria Antonieta, enviada aos 14 anos da Áustria para a França se casar com Louis, neto do rei (que traça uma cortesã) (ninguém menos que Asia Argento). Louis não consegue 'consumar' o casamento; neste meio tempo o rei falece, levando ao poder o jovem casal.
A visão da diretora Sofia Coppola (Virgens Suicidas, Encontros e Desencontros) é condescendente em relação aos desvios (?) morais e sexuais de Maria Antonieta. O melhor do filme é a trilha sonora, que resgata canções de New Order, Joy Division, Siouxsie & The Banshees, Cure, e dá uma chance aos Strokes.


Tuesday, February 27, 2007

Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan - 2006


Borat Sagdyiev, repórter do Cazaquistão (país asiático com um região européia: a área entre o rio Ural e a fronteira russa; um dos países que se tornaram independentes com a dissolução da URSS, em dezembro de 1991) é enviado aos EUA para trazer imagens e informações sobre o american way of life. Em terras ianques, o entrechoque cultural é inevitável; por conta das diferenças, o desengonçado repórter transcontinental envolve-se em uma série de situações estapafúrdias, enquanto tenta integrar-se ao novo meio, participando de programas de TV, aulas de auto-escola, aulas de etiqueta, jantares sociais, rodeios e cultos religiosos. Comodamente, o suposto documentário embrenha na carona de um ‘road movie’, uma jornada de Nova Iorque a Califórnia para encontrar Pamela Lee Anderson, atriz que interpreta uma salva-vidas no seriado Baywatch, por quem o intrépido jornalista cazaquistanês se apaixona.

O que me incomoda em Borat é o mesmo que me incomoda nos filmes de Michael Moore: a (dis)simulação. Tudo que acontece na tela faz parte de um roteiro em que os produtores do filme sabem exatamente onde querem chegar e as ‘vítimas’ – no caso, os cidadãos norte-americanos que topam participar da brincadeira sem saber a exata intenção do “documentário” – contracenam de forma inocente, muitas vezes para terem sua própria conduta, ou a de seu povo, ridicularizada. Usar a boa fé das pessoas contra elas é um humor no mínimo grotesco, sórdido e cruel.
O que salva Borat são o sotaque, os trejeitos e a figura engraçada do comediante britânico Sacha Baron Cohen (criador do controverso personagem Ali G), que interpreta o protagonista; por mais politicamente correto e supostamente sem preconceito anti-americano que o espectador pretenda ser, por mais que este seja sisudo e incapaz de 'pegar o espírito da coisa', é quase impossível segurar o riso.

Sunday, February 11, 2007

Mais estranho que a ficção


Harold Crick (Will Ferrell) é um metódico e solitário auditor da Receita Federal que conta as escovadas nos dentes e os passos até pegar o ônibus. Passa os dias a investigar contribuintes pegos na malha fina. Seu único amigo é o colega de trabalho Dave (Tony Hale), a quem confidencia estar ouvindo uma voz feminina que narra em vocabulário cheio de metáforas e figuras de linguagem a sua previsível rotina, cujo próximo trabalho é auditar as contas de uma confeitaria. Harold consulta o Dr. Cayly (Tom Hulce), que lhe aconselha férias, e depois a psiquiatra Dra. Mittag-Leffler (numa pontinha da oscarizada Linda Hunt de O Ano em que Vivemos em Perigo) que, ao tomar conhecimento do problema narrativo de Harold, o recomenda a procurar alguém que entenda de literatura. É assim que Harold chega ao professor de teoria literária Jules Hilbert (Dustin Hoffman). In the meantime, Harold apaixona-se por Ana Pascal (Maggie Gyllenhaal), a rebelde dona da confeitaria. Paralelamente, a escritora Karen Eiffell (Emma Thompson), com a ajuda da assistente Penny Escher (Queen Latifah), luta para superar um bloqueio criativo.
Essas são as curiosas premissas de Stranger than Fiction (2006), o filme do realizador Marc Forster (cujo projeto para 2007 é O Caçador de Pipas). A filmografia do suíço formado em cinema na NYU inclui A Passagem (2005), Em Busca da Terra do Nunca (2004) e A Última Ceia (2001). Se em Mais estranho que a ficcção os temas soturnos e a obsessão com o suicídio e a morte permanecem, dão espaço para uma certa leveza e comicidade, elementos de um roteiro recheado de detalhes literários. O modo com que o Professor Hilbert intercede no intrigante caso de Harold vai deliciar quem aprecia uma boa narrativa e - mais ainda - quem tem a referência de um (a) professor (a) de teoria literária. Mais estranho que a ficção lembra - pelo lirismo, estofo literário e estilo 'filme-cabeça' - Adaptação (2002), dirigido por Spike Jonze e co-roteirizado por Charlie Kaufman.

Monday, February 05, 2007

À procura da felicidade (The pursuit of happyness)


Para tentar abiscoitar o Oscar de Melhor Ator, Will Smith produziu e encarnou a personagem principal dessa 'biopic' passada na década de 80. Para a direção, selecionou o realizador de "L'ultimo bacio", o italiano Gabriele Muccino (que por sinal, está em alta em Hollywood: o seu filme de 2001 já ganhou versão ianque), que por sua vez convidou o músico Andrea Guerra para fazer a trilha. The pursuit of happyness conta a história verídica de Chris Gardner, homem abandonado pela mulher Linda (Thandie Newton), por conta da incapacidade de vender os milagrosos scanners de densidade óssea e pagar as contas da casa. Antes de ir para Nova York, Linda espezinha Chris e caçoa de sua tentativa de conseguir estágio em importante empresa de corretagem de ações; Christopher (Jaden Smith, filho de Will Smith), o filho do casal, fica com o pai em San Francisco.

O happYness do título refere-se a uma pichação na parede próxima à creche onde Chris deixa o filho enquanto anda pela cidade tentando vender a geringonça nos hospitais, tudo sem esquecer do sonho de melhorar de vida. Tanto insiste (usa até a habilidade em brincar de cubo mágico) que consegue a chance de uma entrevista. Então é preso por multas de trânsito e é obrigado a comparecer à entrevista todo sujo de tinta.

O termo "pursuit of happiness" foi cunhado por Samuel Johnson, na novela Rasselas. Publicada em 1759 para pagar o funeral da mãe, Johnson conta a história de Rasselas, o príncipe da Abissínia, que parte de sua terra natal - o Happy Valley - na companhia do mentor Imlac, da irmã Nekayah e o servo da irmã, Pekuah; os quatro atravessam o Egito à procura de um modo de vida mais feliz. Lá pelas tantas, Pekuah e Nekayah são obrigados a se separar, e Nekayah, sentindo a falta dele, pondera: "Yet what is to be expected from our pursuit of happiness, when we find the state of life to be such that happiness itself is the cause of misery? Why should we endeavour to attain that of which the possession cannot be secured?"

Para Chris, a felicidade passa a ser um lugar para dormir, um quarto no albergue municipal, para que ele e o filho não precisem dormir de novo no banheiro do metrô.

Em 1776, um intertexto com a novela de Samuel Johnson surgiria em plena Declaração da Independência Norte-Americana, de autoria de Thomas Jefferson: "We hold these truths to be sacred & undeniable; that all men are created equal & independent, that from that equal creation they derive rights inherent & inalienable, among which are the preservation of life, & liberty, & the pursuit of happiness; that to secure these ends, governments are instituted among men, deriving their just powers from the consent of the governed; that whenever any form of government shall become destructive of these ends, it is the right of the people to alter or to abolish it, & to institute new government, laying its foundation on such principles & organising its powers in such form, as to them shall seem most likely to effect their safety & happiness."

Para Will Smith, a felicidade este ano é levar o Oscar para casa.

Wednesday, January 31, 2007

Apocalypto

Vivendo uma aparente tranqüilidade na jangal mesoamericana, indo à caça na companhia do pai e de outros guerreiros, brincando com o filho, fazendo amor com a mulher grávida, Jaguar Paw (o ator de etnia comanche Rudy Youngblood, em seu papel de estréia) vai sentir uma das piores sensações humanas: ter o lar invadido por pessoas cujo modo de vida é a depredação, o prazer em destruir o trabalho alheio; pessoas cuja principal atividade é a usurpação, o incêndio. Vai lembrar o conselho recebido do pai em uma caçada: "não deixe o medo te paralisar, não foi para viver com medo que eu te criei". Apocalypto (2006) acompanha esse jovem caçador a um mundo desconhecido, numa jornada de estoicismo, têmpera e resistência. Uma jornada contra o medo.
Podem dizer o que quiserem do diretor Mel Gibson (ator de dois de meus filmes preferidos, da fase australiana de Peter Weir: Gallipoli e O ano em que vivemos em perigo), mas não podem acusá-lo de esquecer os detalhes de produção. Apesar do elenco ser multinacional, com atores de diferentes línguas nativas, o filme é todo em Yucatec Maya, língua hoje falada pelos descendentes maias da Península de Yucatan, no México. O elenco teve cinco semanas de aula com falantes nativos do Yucatec e recebeu gravações em MP3 com a pronúncia exata de suas falas, e durante as filmagens contou com a presença de instrutores para garantir a inflexão correta.
Antes de tecer intertexto com o livro "Armas, germes e aço", de Jared Diamond, que investiga a relação entre povos não europeus e europeus, Apocalypto revela os pontos de ruptura da civilização maia - evoluída em muitos aspectos, primitiva em outros - e os contrastes entre a vida de uma tribo de coletores-caçadores e a atribulação da urbe maia.
Sim, há momentos de violência e de pavor. Em certa altura, o espectador chega a pensar "que situação...". Ou seja: as perspectivas, quando ruins, podem ficar ainda piores. Para Mel Gibson, porém, Apocalypto é um filme sobre a esperança em um novo começo. Jaguar Paw e sua excruciante aventura podem muito bem simbolizar a frase "A esperança é a última que morre". Posso estar enganado ou sendo preconceituoso, mas me parece que Apocalypto é um filme mais talhado a agradar ao público masculino que o feminino. Independente disso, certamente não é recomendável para seres de estômago delicado, que não suportam ver um mero coração arrancado ainda batendo do peito da vítima no altar de sacrifício.

Monday, December 25, 2006

Sylvia


Minha irmã veio para o interior e trouxe dois filmes do Daniel Craig -- ator fetiche dela atual. Nas palavras da mana, Craig é "másculo". Falando em palavras: topei a sessão apesar do subtítulo "Paixão além das palavras". Suponho que o subtítulo foi concebido para chamar a atenção ao subtema literário; sim, a Sylvia do título é ninguém menos que Sylvia Plath, a poeta e novelista bostoniana. Subtema pois o foco do filme de Christinne Jeffs não é a literatura, e sim o relacionamento tempestuoso de Sylvia (Gwyneth Paltrow) com o poeta inglês Ted Hughes (Craig). Os dois se conhecem em Cambridge, onde Sylvia vai estudar ao ganhar uma bolsa. Tempestuoso pois vivem o tipo mais fulminante de paixão -- o que envolve admiração intelectual. Pelo o que outro escreve. Pelas... palavras. (Words/don't come easy/to me/how can I find a way/to make you see/I love you/Words don't come easy - F.R.David). Entre um bloqueio literário e outro, o casamento gerou dois filhos e poemas cultuados. Numa cena do filme, Ted explica a um amigo que ama Sylvia mesmo sendo infiel a ela (e é possível amar e ser infiel?). O comportamento de Ted conduz Sylvia à insegurança e ao ciúme, ou o ciúme e a insegurança de Sylvia levam ao comportamento de Ted? Não importa: Sylvia é obcecada pela morte -- antes de conhecer Hughes havia tentado se matar duas vezes.

Para enriquecer o post, um poema de Sylvia Plath que trabalhamos durante a I Oficina de Tradução Literária.


I Am Vertical - Sylvia Plath

But I would rather be horizontal.
I am not a tree with my root in the soil
Sucking up minerals and motherly love
So that each March I may gleam into leaf,
Nor am I the beauty of a garden bed
Attracting my share of Ahs and spectacularly painted,
Unknowing I must soon unpetal.
Compared with me, a tree is immortal
And a flower-head not tall, but more startling,
And I want the one's longevity and the other's daring.

Tonight, in the infinitesimallight of the stars,
The trees and the flowers have been strewing their cool odors.
I walk among them, but none of them are noticing.
Sometimes I think that when I am sleeping
I must most perfectly resemble them--
Thoughts gone dim.
It is more natural to me, lying down.
Then the sky and I are in open conversation,
And I shall be useful when I lie down finally:
Then the trees may touch me for once, and the flowers have time for me.

Sou Vertical
Mas preferiria ser horizontal.
Não sou uma árvore com as raízes na terra
Extraindo nutrientes e amor maternal
Pra minha folhagem rebrotar, de repente, cada nova primavera,
Nem sou a beleza de um jardim florido
Atraindo minha cota de “Ohs” e multicolorido,
Sem dar por isso, em breve, derrubarei minhas pétalas.
Comparada comigo, uma árvore é perpétua
E uma corola, mesmo pequena, surpreendente;
Quero de uma, a longevidade; da outra, o atrevimento.

Hoje à noite, nas infinitesimaluzes estelares,
As árvores e as flores espargem frescos odores.
Caminho entre elas, mas nenhuma está notando.
Às vezes penso: quando estou sonhando
Mais perfeitamente a elas me assemelho -
O pensamento fica trêmulo.
É mais natural para mim, deitar.
Então o céu e eu não paramos de conversar.
E posso ser útil quando deitar a última vez:
Enfim receber o carinho das árvores e a atenção das flores.

Tradução: Henrique Guerra.

Sunday, December 24, 2006

A felicidade não se compra


É Natal, tempo de reflexão e corações desarmados. Aproveitei a data para rever um dos mais belos filmes natalinos: A felicidade não se compra (It's a wonderful life, 1946).
Frank Capra nos conta a história de George Bailey (James Stewart). Em plena noite de Natal, o pai de quatro filhos e marido da adorável esposa Mary (Donna Reed), está bêbado, com o lábio sangrando, no alto de uma ponte, olhando o caudaloso rio lá embaixo. George é um homem no limite de suas forças. Um homem sem esperanças. A sua empresa – uma casa de empréstimos que financia a construção de boas residências para pessoas de baixa renda na pequena cidade de Bedford Falls – está prestes a falir. Em plena noite de Natal, George, em meio à forte nevasca, pensa em se suicidar.
Há salvação para ele? Para tentar reverter a situação, o anjo de segunda classe Clarence é enviado. De segunda classe, pois, apesar de quase três séculos de idade, ainda não ganhou o que distingue um anjo de um mero mortal. Se for bem sucedido em seu intento, lhe prometem, finalmente ganhará o sonhado par de asas. Os momentos cruciais da vida de George são mostrados a Clarence, para que ele possa ter subsídios e conseguir cumprir a difícil missão de salvar George. Clarence, com o consentimento superior, permite a George ver como o mundo seria se ele não tivesse nascido.
A carga emotiva do filme de Frank Capra permanece insuperável ainda hoje. Para quem nunca viu, é o tipo do filme para toda a família. Para quem já viu, vale sempre a pena revisitar esse clássico da década de 40 – ainda mais na época do Natal.

Sunday, December 17, 2006

Cassino Royale


Cassino Royale, o filme de 1967, com Ursula Andress no papel de Vesper Lynd, e David Niven no de James Bond, não fez parte da série oficial do 007 e, embora tenha reunido muitos talentos (incluindo o diretor John Huston e os atores Peter Sellers e Jean Paul Belmondo), obteve fraca recepção de público e de crítica. Entrou para a história mais como uma paródia ou sátira do que como um filme “sério”de 007.
Já o novo “cassino real”, além de pertencer à franquia 'oficial', aproveitou o melhor do roteiro original e acrescentou elementos de interesse. A combinação de roteiro engenhoso, direção eficiente de Martin Campbell e carisma de Daniel Craig credencia o novo Cassino Royale como um bom filme de 007.
Do original, o roteiro (assinado entre outros por Paul Haggis, de Crash) manteve, além do título, os nomes de algumas personagens (Le Chiffre, Vesper Lynd) e a “idéia principal” – a realização de um milionário jogo de pôquer em um luxuriante hotel.
O filme de Martin Campbell (especialista em filmes de ação como Limite Vertical e A Marca do Zorro) marca a estréia do ator Daniel Craig (com participações em Estrada para a Perdição e Munique) como 007. Campbell realizou também Goldeneye, o primeiro de Pierce Brosnan na franquia.
O ‘casting’ de Craig foi muito questionado pelos fãs radicais da série, por conta da altura e da cor do cabelo. Teoricamente muito baixo e loiro para ser o novo James Bond, sem o jeito de bom moço de um Sean Connery, a elegância de um Roger Moore, ou o charme de um Pierce Brosnan, Craig, nascido em março de 1968, compensou a estatura mediana com um excelente preparo físico; a cor do cabelo com a vantagem que, sendo loiro, ganhou como bond-girls belas morenas - como é o caso de Eva Green (de Cruzada) e Caterina Murino; a falta de elegância e de charme, com testosterona e melancólicos olhos azuis. Normalmente discreto no cumprimento das missões, o agente britânico assume com Daniel Craig uma postura mais violenta. A estratégia dá espaço ao contato físico e à truculência. Esse é o filme em que 007 mais bate e mais apanha. Paradoxalmente, é o filme em que a fragilidade de Bond está mais à flor da pele. Bond está mais humano e menos inteligente – é capaz até de se apaixonar.

Thursday, December 14, 2006

A fonte da vida


A fonte da vida (The fountain) é o terceiro filme de Darren Aronofsky. O primeiro, Pi (1998), lhe valeu o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Sundance. Trata-se da história de um matemático e suas piras, seus vizinhos excêntricos e suas descobertas científicas, gravadas em preto e branco estilizado, com direito a enxaquecas atormentadoras e até mesmo a um cérebro perdido numa escadaria. Com uma estréia desse tipo, e com o aval concedido por um dos festivais mais badalados do cinema dito 'alternativo', Aronofsky precisava confirmar o talento no segundo filme. Réquiem para um Sonho (2000), a excruciante derrocada de quatro personagens causada pelo consumo de drogas, foi, para uns, a confirmação de seu gênio; para outros, mais um produto de uma mente doentia e pretensiosa.
O longo tempo entre o segundo e o terceiro trabalho deveu-se aos altos e baixos do projeto de The fountain. Cancelado, passou por uma recauchutada no roteiro, com vistas a reduzir o custo, e saiu enfim do papel.

O grande mérito de A fonte da vida (2006) é sua imprevisibilidade. O espectador nunca sabe para onde será levado; essa sensação de insegurança e perplexidade chega a ser exasperante, tanto que é difícil fazer uma 'sinopse' do 'enredo'. Vamos dizer que o filme narra de forma não linear três histórias cujo ponto em comum são a busca incessante pela vida, ou pela não morte. Outra intersecção entre as três diferentes eras e locais - além da música hipnotizante de Clint Mansell - são as personagens vividas por Hugh Jackman (Tomas, Tommy e Tom Creo) e Rachel Weisz (Isabel e Izzy Creo). A história que se passa no tempo atual é a do casal Tom e Izzy Creo, ele um pesquisador que luta para descobrir a cura de tumores cerebrais e ela uma portadora de câncer no cérebro. Izzy escreve um livro, mas falta um capítulo de conclusão. É no texto de Izzy que se passa a segunda história, a de um conquistador que tenta achar a Árvore da Vida. Na terceira história ou dimensão, um homem dentro de uma esfera brilhante medita enquanto toma conta de uma árvore. A atuação de Hugh Jackman, metamorfoseando-se física e psicologicamente em três personagens, é bárbara, talvez o trabalho em que mais tenha sido exigido.
Faço parte de uma comunidade no orkut chamada "Eu entendo David Lynch". E acho que vou abrir uma com o título "Eu entendo Darren Aronofsky". Na verdade, não procuro entender nenhum deles. Quero dizer, não faço força para entendê-los. Talvez porque ache que para entender Lynch é preciso ter o coração selvagem. Como para entender Réquiem é preciso ter tido pelo menos um sonho frustrado - e reconhecer a irreversibilidade dessa frustração. Como para entender A fonte da vida é preciso ter sofrido uma grande perda; e para entender a angústia de Tom Creo pela falta da aliança no dedo, é preciso ter passado por experiência similar. É essa a grande contradição do cinema de Aronofsky: é um cinema pretensamente "cabeça" que para ser 'entendido' exige "coração".
Dizia Rainer Maria Rilke que toda arte genuína surge de uma necessidade. A impressão que se tem é que o cineasta nascido no Brooklyn tinha que realizar A fonte da vida; precisava terminar essa questão para poder prosseguir em sua carreira.

Wednesday, December 13, 2006

Um bom ano


E eis que o espírito de Frank Capra desceu em ninguém menos que Ridley Scott. Quem diria, o cineasta que começou com Os Duelistas em 1977, realizou o par de clássicos de ficção científica Alien (1979) e Blade Runner (1982), a aventura feminina Thelma e Louise (1991) e a masculina O Gladiador (2000), o filme de guerra hiper-realista Falcão Negro em Perigo (2001), agora dedicou um tempo para o lirismo e o descompromisso. Se é verdade que a qualidade de Um bom ano passa longe de clássicos como Felicidade não se compra e Aconteceu naquela noite, também é inegável que traz elementos de reflexão e de leveza e entrega um leque de bons sentimentos que nos remetem aos filmes de Capra das décadas de 30 e 40.
O londrino Max Skinner (Russel Crowe) é um inescrupuloso negociante de ações; de 'namorada' em 'namorada', vai gastando 0,01% do que ganha nas operações milionárias. Um belo dia recebe a notícia da morte de Henry (Albert Finney), seu tio produtor de vinho na França. O prático homem de negócios é o único herdeiro e vai até a França decidido a vender a propriedade, que costumava visitar quando criança. Só não contava conhecer a intrigante Fanny Chenal (Marion Cottilard), uma moça do lugar. Tipo de filme que não tenho medo de recomendar; bom elenco, bom diretor, roteiro despretensioso, cheio de clichês, previsível – mas que não chega a ferir a inteligência do espectador.

Monday, December 04, 2006

Cem escovadas antes de dormir



Melissa (María Valverde) vai completar 16 anos. É uma moça bonita de rosto. Olhar expressivo, boca carnuda. O corpo? Virgem e meio fora do padrão de beleza atual e louco para se entregar ao belo mancebo Daniele (Primo Reggiano), por quem Melissa é (ou pensa que é) apaixonada. A adolescente siciliana sempre anota tudo em um diário e anda em companhia da amiga Manu (Letizia Ciampa), mais fofa que ela própria.
Melissa mora com a mãe, vendedora de vestidos de noiva numa loja, e a avó, fumante inveterada, fã de Pet Shop Boys e confidente da neta. É nos diálogos com a avó que Melissa aprende a contar “Cem escovadas antes de dormir”. Preconiza a avó Elvira (Geraldine Chaplin) que a cada 'golpe de escova' nos cabelos, defronte ao espelho, as dúvidas e as culpas vão se dissipando.
Questão a ser discutida entre os psicólogos de plantão: até que ponto a ausência paterna (o pai trabalha longe e só fala com ela pelo telefone) contribui para o comportamento de Melissa. Outra 'explicação' seria o repentino afastamento da avó, colocada numa casa geriátrica.
E que comportamento é esse? Vamos dizer que Melissa demonstra ser o protótipo da menina perdida – o tipo de menina que os homens mais procuram.
Com sua fotografia escura, que enfatiza a sensualidade e o clima de descoberta e experimentação, “Cem escovadas antes de dormir” não é, na verdade, um ensaio sobre a devassidão, nem tampouco uma análise do preconceito de gênero (homem pode ser 'promíscuo', a mulher não?). É sobre um coraçãozinho desiludido que procura a fuga (ou vingança?) no que pode ser considerado por alguns um comportamento sexual reprovável.
Não espere, entretanto, cenas chocantes: o diretor Luca Guadagnino escolheu contar a história de Melissa Panarello (a autora do livro-diário “Cento Colpi Di Spazzola Prima Di Andare a Dormire”) de modo (relativamente) contido e implícito. Ponto para ele.
Sobre María Valverde: nascida em Madri em 1987, venceu o prêmio Goya em 2003 pelo filme La flaqueza del Bolchevique. Com 19 anos e uma filmografia de nove longa-metragens, não é uma atriz “promissora”, como pode achar algum desavisado. É uma esfuziante (e sensual) realidade.

Você é tão bonito!


Je vous trouve très beau (You are so handsome)

Aymé (Michel Blanc) passa os dias em seu moderno trator preparando o solo, plantando, adubando e aplicando defensivos agrícolas em suas terras. Ao terminar a labuta diária, tem como hobby a cunicultura – está cevando o seu coelho preferido para o concurso do coelho mais pesado da paróquia e todo o dia o coloca na balança, para ver o quanto o orelhudo roedor engordou. A única pessoa que ajuda Aymé a tocar a fazendola é a esposa, que organiza a casa e atende as pessoas que vêm comprar os produtos da propriedade. Se a esposa dá um desconto, por mínimo que seja, a um dos fregueses, Aymé reclama. Tudo parece estar definido na vida do casal sem filhos: os dois até o fim dos dias em sua rotina saudável, que não deixa tempo nem para pensar. Um dia, porém, Aymé se vê na condição de viúvo. O que fazer? Nem utilizar a máquina de lavar ele sabe – o gato da casa que o diga. A reposição da companheira é urgente. O pragmático produtor rural busca a ajuda de uma agência de casamentos, cujas candidatas são recrutadas diretamente da Romênia.
Aymé gosta de Elena (Medeea Marinescu) e tudo fica acertado para sua vinda. Aos vizinhos, conta uma história sobre uma moça que vem à fazenda fazer um ‘estágio’.
O filme de estréia de Isabelle Mergault conquista pela simplicidade, pelas situações comoventes entre Aymé e Elena, e, é claro, pelas bonitas cenas do meio rural francês (que nos remetem aos contos de Guy de Maupassant).

Sunday, November 12, 2006

Volver


Em poucos minutos, Almodóvar conduz a platéia, de modo quase imperceptível, das lágrimas ao riso. É, também, um dos raros realizadores capazes de abordar um tema sério de modo até certo ponto leve. Volver passa-se na Espanha, entre Madri e um vilarejo na região de Mancha. O intertexto com Dom Quixote - o cavaleiro que enfrenta moinhos de vento - é criado pelo diretor e roteirista espanhol, ao mostrar na tela as usinas de energia eólica que hoje se espalham na região. Aproveitando a deixa: Turgenev dizia que o mundo se divide entre Dom Quixotes e Hamlets, entre o cômico e o trágico, embora nenhum exista em estado puro. E assim são as personagens de Almodóvar em Volver. Tragicômicas. Quixotescas. Humanas.
Raimunda (Penélope Cruz, sorrindo de mão no queixo) (como se alguém não a conhecesse) mora com a filha Paula (Yohana Cobo, de regata colorida sentada na guarda) e o marido Paco (Antonio de La Torre Lopez). Paula está na puberdade e um olhar de Paco denuncia o fato desencadeador da história. Quer dizer, um dos fatos. Afinal, enredos de Almodóvar não são lineares, são sempre labirínticos, espirais, excessivos. Almodóvar chegou no ponto em se dá ao luxo de não precisar mais ser verossímil. Uma série de coincidências faz a história andar, mas o público aceita sem questionar muito, pois está já envolvido pelas pessoas que participam da aventura.
Raimunda é o protótipo da mulher almodovaresca: brava, pragmática, sensual, verdadeira, emotiva, capaz de resolver problemas inesperados, tocar um negócio sozinha e cantar com alma. Faz de tudo para defender a família, que se completa com a míope tia Paula, a irmã Soledad (Lola Duenas, na foto, bem à direita), que trabalha como cabeleireira e acolhe em sua casa uma estranha mulher; e o fantasma da mãe Irene (Carmem Maura, de pé, atrás), que, dizem, está aparecendo no vilarejo. Revelações da amiga Agustina (Blanca Portillo, de saia xadrez, ao lado de Penélope) sobre o incêndio que matou os pais de Soledad e Raimunda vão acrescentar novos elementos de interesse à trama, que tem, também, momentos de desconcentração, quando Raimunda resolve ativar um restaurante fechado para alimentar uma equipe de filmagem de 30 pessoas.
Para concluir, vai aqui uma frase de Agustina, não a personagem de Almodóvar, e sim a escritora portuguesa Agustina Luís-Bessa, que explica um pouco a psicologia das lutadoras mulheres de Volver: "Ser uma mulher é uma forma de inteligência para merecer a própria virtuosidade, a do pressentimento em todos os seus aspectos, tranquilizantes e ameaçadores."

Os Infiltrados (The Departed)


O carisma de Leonardo Di Caprio contrabalança a canastrice de Matt Damon no novo filme de Martin Scorsese: “The Departed”, título que os distribuidores brasileiros, num assomo de originalidade, conseguiram transformar em “Os Infiltrados”. Billy Costigan (DiCaprio) e Colin Sullivan (Damon) são ambiciosos policiais recém-graduados. O primeiro irá aceitar uma proposta de agir como informante da polícia, trabalhando para o asqueroso líder do crime organizado Costello (Jack Nicholson). O segundo é uma criação desse mesmo gângster – fez a academia da polícia já com o plano de no futuro passar informações ao mafioso.
A subtrama 'emocional' envolve a sedutora psiquiatra sedutora Madolyn (Vera Farmiga), que namora Colin e ao mesmo tempo tem Billy como paciente, compondo um previsível triângulo amoroso para apimentar a película.
"The Departed" traz algumas das marcas do cinema de Scorsese - ceticismo, niilismo, violência. A edição é dinâmica, alternando cenas de cada um dos 'infiltrados' e suas estratégias de trabalho. O ritmo do roteiro segue a tendência atual de muita surpresa e pouca alma. Ao término do filme, a sensação é de vazio. Se esse era o objetivo de Scorsese, foi plenamente alcançado.

Sunday, October 15, 2006

Wood & Stock: sexo, orégano e rock'n roll


Após o falecimento de seu pai, Stock vai passar uns dias na casa do velho amigo Wood. Rê Bordosa, insatisfeita com a rotina de se embebedar, dar e acordar em local desconhecido, está entre o suicídio e o começo de uma terapia. Lady Jane, a mulher de Wood, chuta o balde e vai buscar conforto espiritual numa comunidade religiosa alternativa. Para pagar as contas, Wood & Stock resolvem ressuscitar uma antiga banda de rock'n roll e participar de um concurso. Overall, o filho de Wood e Lady Jane, tranca-se no quarto - o único aposento habitável da casa, palco dos ensaios do Chiqueiro Elétrico - e pensa em fugir para manter a sanidade. O traço divertido do desenhista e diretor Otto Guerra, do longa Rock & Hudson, injeta vida aos personagens de Angeli. O roteiro hilário é de Rodrigo John. Na dublagem, nomes conhecidos: Zé Vitor Castiel é Wood e Rita Lee é Rê Bordosa e Lady Jane. A trilha sonora destaca Lugar do Caralho e outras músicas de Júpiter Maçã. Um filme autêntico, que entrega em boas doses o que promete no título.

Dália Negra


Brian De Palma, o diretor de ‘Fêmea Fatal’, filma o roteiro baseado no livro The Black Dahlia (1987), de James Ellroy (nascido em 1948), inspirado no assassinato de Elizabeth Short, acontecido em Los Angeles, em 1947. Os jornais da época contam que a moça de 22 anos, depois de passar uma semana desaparecida, foi encontrada morta num terreno baldio, com o corpo cortado ao meio na altura da cintura e o rosto mutilado. Depois de muitas investigações, a polícia de Los Angeles listou vários suspeitos, mas não deu solução ao crime. Ellroy (que teve a mãe assassinada em circunstâncias similares) utilizou o assassinato da ‘Dália Negra’– para uns, o nome pelo qual a moça morta era conhecida no submundo, para outros, uma invenção dos jornalistas da época – como premissa para criar tramas e personagens densas.
Buckie (Josh Hartnett) e Lee (Aaron Eckhart), ex-pugilistas que embrenharam na carreira policial, passam a investigar o assassinato de Elizabeth. Antigos rivais no boxe, agora os dois formam uma parceria no combate ao crime. Nas horas vagas, Buckie freqüenta a casa dos Lee, e é secretamente apaixonado por Kay (Scarlett Johansson), a mulher do colega. Durante a investigação, torna-se obcecado pela obscura personalidade da Dália Negra e envolve-se sexualmente com uma sósia da vítima (Hilary Swank).
Quem acompanha a carreira de Brian De Palma sabe que seus filmes oscilam entre sucessos ou fracassos ‘comerciais’ e – respectivamente ou não – sucessos ou fracassos ‘artísticos’. Dália Negra foi espinafrado pela crítica e após 4 semanas em cartaz rendeu apenas metade do custo de produção (50 milhões de dólares). Além de desagradar críticos e produtores, De Palma aborreceu também os fãs de Ellroy, pelas liberdades tomadas em relação ao livro. E quanto aos cinéfilos?
Em primeiro lugar, é de se pensar se existe, a priori, a categoria ‘cinéfilo’. Afinal, cinéfilos são excêntricos, iconoclastas, exigentes, críticos, contraditórios, apaixonados – e não se submetem a generalizações. Podem esperar ansiosos novos filmes dos diretores preferidos, mas se lhes aprouver não perdem a chance de desdenhá-los. Sob esse prisma, o próprio nome deste blog está viciado na origem. Deveria ser ‘olhar de um cinéfilo’. Não existe olhar cinéfilo. Cada cinéfilo tem seu olhar. Posto isso, Dália Negra, na filmografia DePalmiana, está mais para ‘Síndrome de Caim’ do que para ‘Os Intocáveis’. Mas sempre é uma experiência palpitante ir ao cinema para assistir o novo filme de um diretor preferido.

Tuesday, October 10, 2006

Serpentes a bordo


Diretor de segunda unidade de Matrix Reloaded, Harry Potter e a Pedra Filosofal e Mestre dos Mares, David Richard Ellis começou na indústria cinematográfica há 30 anos como dublê. Em 2003, aventurou-se a assinar Premonição 2. Acostumado a fazer seu trabalho competente sem receber muito crédito, Ellis parece ter tomado gosto por receber o ‘mérito autoral’. Em 2004 voltou à carga com Celular. Para ‘sedimentar’ a carreira de diretor especializado em filmes de suspense e ação, Ellis lançou em 2006 sua pequena obra-prima: Snakes on a plane.
Sean Jones (Nathan Phillips), motoqueiro/surfista do Havaí, testemunha um crime perpetrado por um facínora líder de uma organização criminosa, e o agente Neville Flynn (Samuel L. Jackson), do FBI, passa a protegê-lo. Sean é convencido a depor contra o bandido e um esquema de segurança é montado para o seu traslado de Honolulu a Los Angeles. O que o FBI não esperava, nem a bela aeromoça Claire Miller (Juliana Margullies), nem nenhum dos excêntricos passageiros, que incluem um cantor famoso e seus dois guarda-costas apalermados, um homem com fobia de avião, uma mulher e o filho pequeno, uma patricinha e seu pincher, um homem que não tolera crianças nem cães etc., é que no bagageiro do avião fossem embarcadas centenas de cobras perigosas, das mais variadas espécies e origens. Najas, jararacas, corais, cascavéis, víboras e até uma jibóia (ou seria uma sucuri?), todas borrifadas com um intenso feromônio para deixar os répteis agressivos. Sem dúvida, uma idéia estapafúrdia, quase louca (não é à toa que um dos 6 roteiristas chama-se David Loucka), mas que rendeu um filme com coerência e verossimilhança internas.
Para quem não estudou teoria literária: a verossimilhança interna é um mecanismo criado dentro de uma obra de ficção para que o leitor/espectador acredite naquele universo ficcional. Um exemplo é o clássico “A revolução dos bichos”, de George Orwell, em que porcos, cavalos, cabras e burros pensam, falam e se desvirtuam como seres humanos. No caso de ‘Snakes on a plane’, o contrato feito com o espectador é o seguinte: vamos combinar que por uma hora e meia a palavra verossimilhança não existe mais no dicionário, ou fora dele. Assim você vai poder apreciar sua pipoca e levar alguns sustos e dar umas boas gargalhadas. É evidente que quem teve a coragem e o ânimo de ir ao Cine Vitória no sábado à noite para ver Serpentes a bordo concordou com os termos do contrato. E a surpresa: nesse contrato não havia cláusulas com letrinhas pequenas para enganar o consumidor.
Sobre as ‘estrelas’ do filme: apenas 1/3 delas são reais, conta Jules Sylvester, o dono da Reptile Rentals, empresa iniciada em 1977 para abastecer de cobras o mercado audiovisual. As demais cobras são animatrônicas ou geradas por computador. Sylvester forneceu 450 cobras para o filme, entre “corn snakes, rattlesnakes, king snakes, milk snakes, a couple of mangrove snakes”, e uma cobra albina. Em nenhum momento do filme o número de cobras no set ultrapassou 60, pois elas precisavam ser substituídas para descansar após 15 ou 20 minutos de filmagem. Segundo o empresário coruja, o maior problema foi fazer suas cobras parecerem assustadoras, e a prioridade ao longo das filmagens foi ‘manter a segurança das cobras.’

Wednesday, September 27, 2006

As torres gêmeas



Oliver Stone tem uma relação de amor e ódio com sua família – a nação americana. Cineasta obcecado por assuntos ianques, aborda-os sempre com uma visão crítica. O oscarizado Platoon (1986) mostra a desilusão de um jovem voluntário para combater no Vietnã. Wall Street (1987) retrata o universo de ganância do centro financeiro do país. Nascido em 4 de julho (1989) é sobre um veterano que volta tetraplégico da (novamente) guerra do Vietnã. JFK (1991) investiga os bastidores do assassinato do presidente e apresenta teorias de conspiração. Natural Born Killers (1994) traz um casal assassino que atravessa o país atraindo a atenção da mídia. Nixon (1995) focaliza a biografia do controverso presidente norte-americano. Em resumo, na filmografia de Stone - que começou roteirizando filmes como Midnight Express (1978, Oscar de Melhor Roteiro), de Alan Parker, e Scarface (1983), de Brian De Palma - a acidez é uma constante.
Já em World Trade Center, Stone aplaca a auto-crítica ianque e deixa o sentimento de nacionalidade dominar cada fotograma da película. É o filme de uma família atacada de modo covarde. Não é preciso ter passado por isso – ter sido vítima de ataques traiçoeiros, maquiavélicos e torpes – para imaginar o que sentiu naquele dia e o que essa data passou a significar para o povo americano. Se alguém tinha alguma dúvida, o 11 de setembro de 2001 escancarou que vivemos numa era de incompreensão e de falta de diálogo, uma era de radicalismos e de atos desesperados.
Em 11/09/2001, um pelotão de guardas portuários é chamado ao World Trade Center. Ao chegar no local e topar com a situação caótica, o sargento John McLoughlin(Nicholas Cage) pede voluntários para ajudar a evacuar as torres. Um dos soldados que se apresenta é Will Jimeno (Michael Pena). Alguns tensos minutos para pegar equipamentos, incluindo tubos de oxigênio e capacetes. Quando a equipe está no térreo do prédio que liga as duas torres, uma das torres começa a desabar. O sargento só tem tempo de dizer a seus comandados para correrem até o poço do elevador, onde John e Jimeno conseguem sobreviver aos sucessivos desabamentos.
A partir daí, Stone alterna o drama vivido pelas duas famílias e a luta pela sobrevivência dos dois policiais soterrados. Sem água, a 6 metros da superfície, imobilizados por lajes de concreto, com hemorragia interna e fraturas múltiplas, John e Jimeno conversam para não adormecer e entrar em choque. Um conforta o outro e compartilham lembranças de seus familiares. Jimeno tem Bianca, filha de 4 anos, e Allyson (Maggie Gyllenhaal), esposa grávida de 5 meses. Ela quer que a segunda filha se chame Olívia, ele, Alyssa. John tem a esposa Donna (Maria Bello) e 4 filhos. Surge uma personagem importante - espécie de alter-ego de Oliver Stone -, um ex-mariner que corta o cabelo, traja-se com a farda de combate e vai a Nova York procurar sobreviventes nos escombros.
Vai analisar, o filme é previsível e não chega aos pés da veracidade encontrada em Vôo 93. Se o mérito cinematográfico de um filme fosse medido pelas surpresas do espectador, o do filme de Stone seria nulo ou quase nulo. Se, porém, o cinema for encarado também como veículo para traduzir o sentimento de uma época, bem, nesse caso, World Trade Center dá sua contribuição valiosa.

O diabo veste Prada


A jornalista Andrea (Anne Hathaway, de Brokeback Mountain) emprega-se numa revista de moda como segunda assistente da legendária Miranda Priestley (Meryl Streep, em seu momento Glenn Close). O cargo é conquistado tête-à-tête com a futura chefa, a pessoa mais influente da moda em Nova York, detentora de uma coleção de bolsas Prada, numa entrevista em que Andrea demonstra não ter nada do perfil requerido: não entende – e parece não querer entender – nada de moda. Desleixada no vestir-se, Andy se vê, de uma hora para outra, num meio onde a pessoa vale a marca que usa. Sossegada, Andy é submetida à pressão de estar sempre disponível e apta a solucionar toda sorte de problemas. Sem ambição, Andy é colocada num ambiente de disputa, inveja e falta de ética. Venderá Andy sua alma ao(à) diabo(a)?
Se o parágrafo aí em cima mencionasse a ‘trama secundária’, qual seja, a atroz dúvida de Andy entre o namorado perfeito, fiel e simples (Adrian Grenier, sósia do colorado Fernandão, campeão da Libertadores 2006) e um novíssimo pretendente, sofisticado e poderoso, uma leitura superficial – da resenha e do filme – talvez pudesse julgá-lo uma razoável ‘sinopse’ do segundo filme de David Frankel (o primeiro foi Miamy Rhapsody, de 1995).
Ledo engano! A verdade é que ‘O diabo veste Prada’ vai além (ok, não muito além) dos estereótipos ao dar espaço a pequenos detalhes que humanizam a personagem complexa de Miranda, e explicitam a admiração mútua entre chefe temida e assistente obstinada. Claro, não espere nenhum tratado filosófico sobre a importância dos princípios éticos, nem o roteiro é hipócrita o suficiente para fazer de Andrea (nome lindo, não?) uma pessoa que não procura ser aceita, que não gosta de novidades e que não cede às tentações.

Thursday, September 14, 2006

Vôo 93


O filme de Paul Greengrass (A Supremacia Bourne, Domingo Sangrento) narra a versão oficial da trajetória do vôo 93 da United Airlines, no dia 11 de setembro de 2001, pela qual os passageiros tentaram retomar o comando do avião seqüestrado por quatro terroristas da rede Al-Qaeda. Outra teoria - confirmada por testemunhas oculares - é a de que o avião foi abatido por um F-16.
O roteiro tem estilo de documentário, sem espaço para floreios e 'desenvolver personagens'. A história contada é a do vôo 93, não do piloto, do controlador de vôo, ou desse ou aquele passageiro. Outro mérito do roteiro é a maneira com que focaliza a hesitação, o medo e a religiosidade dos 'hijackers'. Os seqüestradores do jato da United são retratados não como pessoas frias e calculistas, e sim como pessoas desesperadas, no limite de suas forças psicológicas e físicas, marionetes de seus líderes maquiávelicos.
A opção por um elenco desconhecido reforça a veracidade e o clima de realismo que impregnam a película. Sob esse prisma, o filme é bem sucedido: consegue 'colocar' o espectador na pele das pessoas inocentes que embarcaram naquele fatídico vôo e desde já se qualifica como um libelo contra o terrorismo.

Monday, September 04, 2006

O que você faria?




Num dia de protestos antiglobalização em Madri, sete profissionais disputam uma vaga de executivo na empresa Dekia (uma cruza de Dell com Nokia?). Enquanto nas ruas o tumulto acontece, no departamento de recursos humanos da Dekia predomina a calma. Lá embaixo, o mundo se desintegra, aqui, sorrisos e vozes pausadas. Os cinco homens e duas mulheres chegam e são convidados por uma secretária a preencher formulários. Em pouco tempo estão participando de um jogo onde o cumprimento de cada etapa acarreta a eliminação de um dos concorrentes – qualquer semelhança com o Big Brother não é mera coincidência – e conduz a um único vencedor.
Baseado na peça intercontinental (sucesso em Madri e na Cidade do México) "O Método Grönholm", de Jordi Galcerán, o novo filme de Marcelo Piñeyro (Plata Quemada) aborda o sistema utilizado pela Dekia selecionar seu pessoal: posicionar o grupo em situações que requerem análises técnicas, morais, econômicas – e éticas. Ao se defrontarem com um problema, os aspirantes ao cargo precisam demonstrar, por meio de conversas articuladas e raciocínios embasados, capacidade de trabalhar em grupo e de tomar as decisões acertadas. Os candidatos precisam se adaptar com rapidez às circunstâncias, e os espectadores ficar atentos às sutilezas e ironias do roteiro.
Claustrofóbico, tenso, o filme de Piñeyro faz um intertexto com O Anjo Exterminador, de Luís Buñuel. Com a diferença: no clássico filme espanhol, os convidados de uma festa querem sair desesperadamente da casa e lá são retidos por uma força fantástica; enquanto no filme do argentino Pineyro, os concorrentes fazem de tudo para não sair, mas vão, um a um, sendo expulsos por uma força real – o capitalismo selvagem. ‘O que você faria?’ (2005) é um exercício de antropofagia, um retrato dos tempos modernos internacionalizados. Por uma vaguinha na Dekia, vale tudo. Cada um por si, Deus por todos. Afinal, money talks, bullshit walks.

Tuesday, August 15, 2006

Me, You and Everyone We Know



))<>((

É difícil ficar indiferente a filmes que têm como maiores trunfos a originalidade, a honestidade e a coragem do roteiro. Filmes que mostram o ser humano em todas suas idiossincrasias, dúvidas, incongruências; em todos seus fracassos, medos, anseios. Filmes que ousam, surpreendem, provocam. Filmes como "Eu, Você e Todos Nós".
Algumas pessoas abandonaram a sessão. Revoltadas? Enojadas? Decepcionadas? Os que ficaram, porém, a cada cena, a cada diálogo, a cada fala inusitada das personagens, a cada revelação, a cada descoberta – riam e se emocionavam.
Richard (John Hawkes) enfrenta uma separação. Obrigado a estabelecer um novo padrão de relacionamento com os filhos – Peter (Miles Thompson), 14, e Robby (Brandon Ratcliff, um dos destaques do elenco), 7 – e a buscar a readaptação, procura o re-equilíbrio no ambiente de trabalho. Pois se tem algo que Richard sabe fazer bem é vender sapatos. Christine (Miranda July) ganha a vida como taxista para a terceira idade. Nas horas vagas, desenvolve uma arte especial, multimídia, e sonha com o dia em que poderá expô-la. Os destinos de Richard e Christine começam a se entrelaçar quando ela leva um senhor de idade para comprar um par de tênis na loja onde ele trabalha.
As personagens paralelas, que incluem uma menina que faz enxoval, uma dupla de amigas adolescentes e um admirador pervertido, a esquisita administradora do museu de arte moderna, contribuem para formar uma roda viva de interações.
A produção Me, You and Everyone We Know, que marca o surgimento da cineasta e atriz californiana Miranda July, não tem nada de mais. É um filme de baixo orçamento e alta despretensão. No ano de seu lançamento (2005), ganhou o prêmio de Melhor Filme de Estréia, em Cannes, e o Prêmio Especial do Júri pela Originalidade da Visão, em Sundance; mas, a rigor, não inova em nada, não é feito para chocar, embora algumas cenas possam ser consideradas ofensivas ou sem propósito. E qual o propósito de um filme totalmente fora do mainstream, senão despertar reações opostas? Não me animaria a indicá-lo para ninguém – mas pagaria para ver de novo.

Wednesday, August 02, 2006

O Romance da Inglaterra

Tess, de Roman Polanski, um
dos muitos filmes citados
no livro ainda não publicado

O Romance da Inglaterra

No primeiro semestre de 2006, alunos de Letras da Unisinos tiveram oportunidade de ler uma obra ainda não publicada. O autor, o professor e tradutor Élvio Funck, disponibilizou aos alunos uma cópia do seu “Romance de Inglaterra”. A obra está em fase de revisão (ver entrevista abaixo) e, a julgar pelo interesse que tem provocado no meio acadêmico, tem tudo para ser um sucesso quando sair em livro.
Projeto construído ao longo de duas décadas, apresenta, de modo conciso e dinâmico, os mais importantes episódios da História da Inglaterra. Conciso, pois em menos de 300 páginas dá um apanhado consistente da trajetória do povo inglês, desde a invasão romana em 55 a.C. até o vigente reinado de Elisabeth II. Dinâmico, pois enriquecido com notas em que o autor dialoga com o leitor, salientando curiosidades, dirimindo dúvidas, citando filmes e livros, tecendo uma rede intertextual entre a história e a literatura da Grã-Bretanha.
Estruturado com uma explanação preliminar sobre a Inglaterra antes
de 1066, O Romance da Inglaterra concentra o foco na ‘caleidoscópica história daquele país insular’ a partir desse ano. Dedica um capítulo a cada um dos 40 soberanos ingleses desde Guilherme, o Conquistador, até a atual Elizabeth II. Os capítulos contêm vários sub-tópicos e reservam espaço para destacar as maiores contribuições intelectuais e literárias de cada período.
No final do Romance da Inglaterra, uma série de ‘bônus’: uma árvore genealógica da casa real inglesa, uma lista dos poetas laureados ingleses, sugestões bibliográficas e, last but not least, uma seção intitulada “Reis e Rainhas da Inglaterra e o Cinema”. Enfim, uma obra essencial não só para o estudante da língua inglesa, como para todo apaixonado por história, literatura e... cinema!


Entrevista com o autor de O Romance da Inglaterra (concedida por e-mail)

Olhar Cinéfilo: Quando surgiu a idéia de escrever O Romance da Inglaterra?
Élvio Funck: Da necessidade que eu via de que os alunos de Literatura Inglesa tivessem um background mínimo da História política, social e literária da Inglaterra. É um mínimo. A Bibliografia deve ajudar os mais curiosos.

O.C: Quanto tempo, entre pesquisa e redação, este projeto envolveu? Quantas foram as obras lidas/consultadas?
E.F: O projeto vem desde a metade da década de 80, quando eu lecionava HISTORICAL BACKGROUND OF ENGLISH LITERATURE no Pós-Graduação de Literatura Anglo-Americana, na UFRGS. As obras consultadas estão listadas no final, mas muita coisa foi ficando na cabeça com leituras que eu nem saberia localizar.

O.C: Como foi o processo de redação?
E.F: Foi evoluindo lentamente, a partir dos xérox que eu dava a cada semana no curso de Lit Ing aqui na UNI (eram dois semestres sólidos antes das reformas). Quando eu comecei a redigir a versão definitiva, há uns três anos, eu já tinha muitas notas.

O.C: Quais os critérios utilizados na escolha do material a ser incluído?
E.F: Entre as obras, as mais indicadas na cadeira de História da Inglaterra que fiz no Pós e nas cadeiras de Literatura Inglesa, que foram as que mais freqüentei. Procurei também ater-me a aspectos mais interessantes e curiosos e não a grandes elocubrações filosóficas ou literárias. O livro é um “primer”= cartilha.

O.C: Por que a decisão de fazer um capítulo para cada um dos 40 monarcas ingleses?
E.F. Achei que seria um bom “trilho” a seguir, dada a cronologia bem definida e dada a intenção de dar destaque maior à história mais do que à literatura.

O.C. Nessa pré-publicação, a lista da literatura inglesa termina em 1992. Essa lista será atualizada na versão a ser publicada em livro? Pode adiantar alguns autores britânicos contemporâneos mais importantes?
E.F. Pinter, Murdoch (falecida em 1999), Le Carré, Greene (já falecido), Naipul, Theroux, Lodge, Drabble, Spark, Stoppard, Amis (pai e filho), Jean Plaidy (Victoria Holt) ainda são destaque e notícia literária. Estou um pouco desligado dos “moderníssimos”. É difícil dizer os que vencerão a barreira do tempo... Quando o ROMANCE for publicado em livro (talvez no ano que vem), vou tentar entrar em contato com professores de Lit. Inglesa que conheci e que ainda estão na ativa. De qualquer forma, quanto mais lemos os modernos, tanto mais gostamos dos autores dos séculos anteriores...

O.C. Está prevista para quando a publicação? Qual editora?
E.F. Quem está disposto a publicar é o Prof. Jorge Appel, da Editora Movimento. Como ele já está com minha tradução (interlinear) do MACBETH e do KING LEAR, o Romance vai ficando um pouco para trás, mas não muito. Já está aprovado para publicação, mas exige mais revisões.

O.C. Quais são seus três autores ingleses preferidos? Quais são suas três obras literárias inglesas preferidas?
E.F. Deixando fora Shakespeare, JANE EYRE, THE RAZOR´S EDGE e THE BELL, só para te satisfazer, porque esta é uma pergunta quase impossível de responder. Autores: (fora Shakespeare): Boswell, Paul Theroux (adoro travelogues), Iris Murdoch, Thomas Hardy, Jean Plaidy (a grande dama do romance histórico). Preferidos neste momento...

O.C. Quais são suas três personagens literárias inglesas preferidas?
E.F. O herói (anti-herói) de LUCKY JIM (Amis), a própria Jane Eyre, e Larry de THE RAZOR´S EDGE. São os que me vêm à cabeça agora. Gosto também da Tess, de Hardy.

O.C. Que livro(s) o senhor está lendo hoje? E quais os novos projetos?
E.F. Estou lendo agora HOW FAR CAN YOU GO? de David Lodge. Novos projetos: continuar a fazer tradução interlinear (os editores pediram) e talvez um pequeno dicionário de Verb Government... Quem sabe um romance epistolar. “Mais projetaria, se não fora para tantos projetos, tão pouca a vida”.

Sunday, July 30, 2006

Le Promeneur du Champ de Mars


Baseado no livro ‘Le Dernier Mitterrand’, de Georges-Marc Benamou, Le Promeneur du champ de Mars (O Último Mitterrand, 2005), do diretor Robert Guédiguian, retrata uma das personalidades mais importantes na história recente da França: o presidente François Mitterrand. Nascido em 1916 e falecido em 1996, vítima de câncer, Mitterrand governou a França por 14 anos, de 1981 a 1995. O título é uma referência às caminhadas de Mitterrand no 'Campo de Marte', área verde de Paris próxima à Torre Eiffel.
O jornalista Antoine Moreau (Jalil Lespert) grava uma série de conversas com o presidente, a fim de reconstituir a sua biografia. O filme alterna os diálogos entre os dois e reserva um espaço para desenvolver a personagem do jornalista e seus problemas conjugais e amorosos.
Mas o cerne do filme é mesmo a amizade que se cria entre o jornalista e o presidente. No filme, Mitterrand (Michel Bouquet) encontra-se no final de seu mandato, quando já enfrentava a doença que o levaria à morte. É retratado como um homem tolerante, ponderado, calmo, culto e, na maior parte do tempo, espirituoso. Cena memorável é aquela em que, depois de almoçarem ostras, os dois saem para caminhar na areia sob o céu cinza, e Mitterrand se põe a devanear com Antoine sobre mulheres.
Outro momento forte da película mostra Antoine trabalhando em seu apartamento, que está à venda. Recebe a visita da corretora e um casal interessado; o homem, possuidor de um importante cargo bancário, interpela Antoine sobre Mitterrand, não sem evidenciar certa ironia sobre a posição política do presidente. A reação de Antoine dá uma idéia do quanto ele admira o presidente e de como o vínculo formado entre os dois ultrapassa o relacionamento profissional e pode ser resumido numa palavra: respeito.
Mas esse não é um respeito cego. Se, por um lado, Antoine cria uma espécie de reverência pelo seu biografado, por outro, é exemplo de jornalista consciente, ao investigar os pontos obscuros da vida de Mitterrand, sobre os quais ele não demonstra vontade de esclarecer.
Está no Wikipedia: Michel Rocard, primeiro ministro francês entre 1988 e 1991, declarou que Mitterrand não era um homem íntegro. O filme de Robert Guédiguian dá uma idéia da personalidade do estadista François Mitterrand – sem a intenção de estabelecer julgamentos. Por isso, o espectador chega ao fim da empreitada com uma certeza: assistiu a um filme íntegro.

Wednesday, June 28, 2006

Uma vida nova


‘Road movie’ que acompanha o trajeto de Bihn, do interior do Vietnã, em busca do pai, que mora nos Estados Unidos. Ele nasceu da união entre um soldado ianque e uma moça vietnamita, durante a guerra entre os dois países. Esses mestiços são discriminados no Vietnã, e chamados de ‘menos que pó’.
Road movie é modo de dizer. São inúmeros os caminhos e os meios de transporte que Bihn utiliza em sua jornada. Monta no dorso de búfalos para singrar canais lamacentos; percorre os lagos em canoas para pescar traíras; pedala a velha bike até a cidade grande para achar a mãe e o pequeno meio-irmão; navega, primeiro no convés de um barco, e, depois, no porão de um navio, para atravessar mares e oceanos; nas rodovias americanas, viaja com outros imigrantes em caminhões e pega caronas em carrocerias de camionetes, tudo para alcançar o maior objetivo: conhecer o pai e iniciar uma vida nova.
A exemplo de Bihn, Uma Vida Nova também alcança os objetivos, mas de forma irregular. Maiores ressalvas são quanto ao roteiro, que oscila momentos de lirismo puro com situações forçadas. A roteirista não pensa duas vezes em fazer a história andar a qualquer custo. Pululam peripécias, reviravoltas, escorregões, fugas. A indecisa câmera do diretor norueguês Hans Petter Moland conta com o apoio de uma fotografia bem cuidada, uma trilha sonora competente e por último, mas não menos importante, a presença da exótica Bai Ling – no papel de uma prostituta por quem Bihn se apaixona.

Saturday, June 17, 2006

Receita para um filme soporífero


Ingredientes:
Um best-seller não muito fiel à História
Um produtor esperto
Um celular
Um produtor executivo
Um roteiro não muito fiel ao Best-seller
Um diretor burocrático
Uma atriz irreconhecível
Um ator sorumbático
Alguns rolos de película a mais
Uma pitada de falta de química

Modo de fazer: Pegue um produtor esperto, com grande visão, e disponibilidade de capital idem, coloque-o em contato com um best-seller, não muito fiel aos fatos históricos, do tipo que se lê 'de um fôlego'. Deixe os dois em banho-maria, à beira de uma piscina, ou de alguma praia paradisíaca, por um fim-de-semana. Acrescente um celular. Aguarde uma semana para os contatos. Quando a massa estiver engrossando, polvilhe o produtor executivo, que irá contratar uma equipe de roteiristas adaptadores. Muito cuidado agora! A escolha do diretor é essencial para se obter uma ótima sonolência fílmica. Se conseguir o Ron Howard, ótimo! Coloque-o lentamente na fervura. Espere o diretor borbulhar e introduza, primeiro, a atriz irreconhecível e, em seguida, o ator sorumbático - sem esquecer da pitada de falta de química entre eles. Espere a mistura coalhar e enfeite com rolos de película a gosto.

Sirva de preferência à noite.

Sunday, May 28, 2006

X-Men - The Last Stand



Um cientista descobre que seu filho é mutante e, depois de anos de pesquisa, desenvolve uma ‘cura’ para as mutações – uma substância que, num piscar de olhos, transforma o mutante em humano comum. Scott vai ao lago onde Jean parecia ter morrido (ver X-Men 2) e descobre que sua namorada está viva. Jean descobre que Xavier estivera todo esse tempo castrando seus poderes e a impedindo de utilizar toda sua energia. Xavier descobre que Jean é mais forte que ele, Storm e Wolverine juntos. A nova aluna que atravessa paredes descobre que para impedir o plano de Magneto precisa salvar o menino que deu origem ao antídoto. O menino-antídoto descobre que Magneto e seus novos mutantes revolucionários chegaram na ilha de Alcatraz para lhe matar e salvar a causa mutante. Magneto e seus novos mutantes revolucionários descobrem que Wolverine e Storm lideram a contra-revolução. Storm descobre que Wolverine ama Jean. Wolverine descobre que Rogue quer tomar a injeção anti-mutante para não ficar a vida toda sem tocar o namorado. Rogue descobre que o namorado foi andar de patins no lago congelado com a nova aluna que atravessa paredes. As paredes do cinema descobrem que as mulheres foram ao cinema para ver Wolverine e os homens, para ver Mistique. Mistique descobre que, sem suas exóticas escamas azuis, não serve mais para Magneto, e tampouco para o espectador. E o espectador descobre que pagou para ver personagens da Marvel mas acabou vendo uma versão piorada de Carrie, a Estranha.

Friday, May 12, 2006

Hamlet




O Hamlet encarnado por Ethan Hawke, apesar de viver em Nova Iorque e manejar, nas horas vagas, uma filmadora digital, quando abre a boca, fala as mesmas palavras escritas por William Shakespeare em 1601. Esta foi uma bola dentro do diretor / roteirista Michael Almereyda. Não podendo competir com palavras perfeitas, as manteve, mudando o ambiente, o cenário, a época. A idéia não é nova – vide Romeu e Julieta de Baz Luhrman. Em Hamlet (2000), as cenas foram muito bem estudadas, a fim de fazer encaixar as falas no contexto do final do século XX. A decisão de manter, palavra por palavra, o texto original, paga o tributo merecido a Shakespeare.
Já que o assunto aqui são as palavras, Harold Bloom, em Shakespeare, The Invention of the Human, comenta que ‘a conclusão mais shakespeareana de Nietzsche é puro Hamlet: podemos encontrar palavras apenas para aquilo que está morto em nossos corações, de forma que há necessariamente uma espécie de desprezo em todo ato de fala. O resto é silêncio; fala/ discurso é agitação, traição, inquietude, auto-tormento e tormento dos outros.’As palavras que brotam destes personagens não são quaisquer palavras, são palavras perenes da literatura universal.
Mas quanto à linguagem cinematográfica?? Aí que reside o triunfo maior do filme. Almereyda realiza um trabalho eficiente na adaptação de uma peça escrita em 1601 para o limiar do século XXI. O país vira a corporação Dinamarca. O castelo vira o prédio Elsinor. Algumas cenas, é claro, são cortadas. Bem dizer todo o primeiro ato. Algumas modificações são feitas. Marcelo vira Marcela, namorada de Horácio. Talvez para evitar qualquer conotação homossexual entre Hamlet e Horácio, os amigos inseparáveis. No Hamlet de Shakespeare, é Marcelo que fala “ – Há algo podre no reino da Dinamarca.” No de Michael Almereyda, este comentário é deletado. Mas as demais principais falas estão todas lá, inclusive o solilóquio To be or not be, that is the question (Existir ou não existir, aí está o problema, na tradução de Elvio Funck), que é murmurado, com um desânimo pungente, por um Hamlet perdido em meio às estantes da Blockbuster, mais especificamente, a seção de ação. Hamlet, tão detratado pela sua inação, avança e a câmera vai recuando, mostrando as placas ACTION afixadas às estantes.
Sobre a intrigante personalidade de Hamlet, vale pinçar alguns comentários de Bloom, livro citado acima:

"Hamlet não faz nada prematuramente; algo nele está determinado em não ser super determinado".

"A quintessência de Hamlet é nunca estar completamente comprometido a qualquer instância ou atitude, qualquer missão, ou mesmo a qualquer coisa".

"Hamlet é muito inteligente para aceitar qualquer papel, e a inteligência em si é descentralizada quando aliada ao desinteresse exacerbado do príncipe".

Bloom também reclama de um Hamlet que viu na Broadway, interpretado por Ralph Fiennes. Já Ethan Hawke desincumbe-se bem da tarefa... em sua interpretação, o aspecto sombrio de Hamlet é muito bem trabalhado. Destaques também para Julia Stiles – uma Ofélia perturbadora – e Bill Murray - no papel do controvertido Polônio. A cena final quase põe o filme a perder. Mas a principal falha de Michael Almereyda foi cortar o aspecto pândego e irônico de Hamlet. Mesmo não sendo um filme perfeito, quem assistir ao Hamlet do diretor Michael Almereyda e abominar, das duas uma, ou ambas: não gosta de literatura ou/e não gosta de cinema.
Outras versões de Hamlet no cinema:
1996: De Kenneth Brannagh, a mais extensa e fiel, com quase 4 horas de duração.
1990: De Franco Zeffirelli, com Mel Gibson.
1948: De Laurence Olivier, a versão ‘definitiva’, Oscar de Melhor Filme e Ator.

Monday, May 08, 2006

Missão Impossível III



A câmera hitchcockiana de Brian De Palma inaugurou, em 1996, a série Missão Impossível no cinema; com requinte e classe, o diretor de Dublê de Corpo e Os Intocáveis realizou um bom filme de suspense e espionagem, entremeado de algumas cenas de aventura. Em 2000, coube a John Woo, que, pelos seus maneirismos, coreografias e marcas registradas, é um cineasta do tipo ame ou odeie, dirigir a continuação, com menos estofo e mais cenas eletrizantes. Esse processo de pasteurização culminou, em 2006, com o vertiginoso Missão Impossível 3, do diretor J.J. Abrams (criador da série Lost), que contém nada além de ação.
Uma das críticas possíveis ao formato fílmico é a de que a existência de um protagonista descaracterizou o charme da série televisiva, que era o de uma mecânica de equipe, onde todos exerciam funções específicas e de igual importância. Já a ‘franquia’ MI tem Luther Strickel (Ving Rhames), presente nos três filmes, e ele, o onipresente e cada vez mais pasteurizado Ethan Hunt (Tom Cruise). Do primeiro ao terceiro filme da série, a massa muscular de Ethan foi inflando e a cinzenta definhando. As missões foram exigindo mais peripécias mirabolantes e menos esforços pensantes. No entanto (ou portanto?), a bilheteria norte-americana do primeiro alcançou 180 milhões e a do segundo, 215 milhões de dólares.
Tom Cruise de novo atua sem dublês; alguém poderia se perguntar se é por honestidade com a platéia ou por narcisismo, para provar a si que ainda é capaz. Ou será que Tom Cruise já chegou ao patamar que não precisa mais provar nada a ninguém? O fato é que Tom Cruise corre, pula, salta, escala, escorrega, se dependura, despenca, em suma, faz tudo que fazia há 20 anos melhor, mais rápido e mais eficiente. Para homens comuns, 44 anos equivalem a rugas de preocupação, calvície em estádio avançado e tufos de cabelos grisalhos; para Tom Cruise, a maturidade, experiência e charme irresistível. Enquanto noutros a idade provoca efeitos indesejáveis, para Tom Cruise é sinônimo de mais adequação, felicidade e produtividade. Como se isso não bastasse, Tom Cruise está na idade em que atinge várias gerações de corações femininos.
Por conta disso, do maquiavélico vilão Owen Davian, interpretado pelo oscarizado Phillip Seymour Hofmann, de Zhen, a bela agente de traços orientais (Maggie Q), e do roteiro alucinante, que não privilegia o raciocínio, pode-se esperar que o terceiro supere a bilheteria dos dois primeiros.

Sunday, April 30, 2006

Crime Ferpeito



Rafael é chefe do setor de roupas femininas mas quer o cargo de gerente do andar. Para obter a promoção, que sedimentaria sua posição de garanhão acostumado a traçar todas as belas vendedoras do setor de roupas femininas, precisa vender mais que o concorrente à vaga, Don Antônio, chefe do setor masculino. Lourdes, por sua vez, é uma das poucas mulheres que trabalham com Rafael e nunca foram assediadas por ele: é feia como um raio. Mas acalenta o desejo secreto de um dia ter Rafael na cama.
Don Antônio vence a competição interna e usa o poder de seu cargo para rebaixar Rafael; num dia os dois entram em contenda corporal nos provadores, e a luta resulta no óbito do asqueroso chefe. Mas uma pessoa que estava na cabina ao lado, da qual Rafael só consegue ver os sapatos, é testemunha de tudo e começa a chantagear Rafael.
Essas são as idéias iniciais de Crime Ferpeito, meticuloso estudo sobre os efeitos da feiúra humana realizado pelo diretor espanhol Alex de la Iglesia (O dia da besta). Especializado em uma mistura de horror e humor negro, Iglesia demonstra timing para comédia e faz bom trabalho na tarefa de criar e manter o interesse da audiência a maior parte do tempo. Repleto de citações explícitas e implícitas de filmes de suspense, entre eles Encurralado, de Steven Spielberg, o terrir espanhol apenas peca na metragem um pouco estendida (1h43min).
Quase tão divertida e movimentada quanto a película foi a sessão, que incluiu a retirada de uma vovó horrorizada com seu netinho ao presenciar a cena em que uma das vendedoras cavalga Rafael numa das camas da loja, a quase queda no escurinho do cinema de um incauto espectador nos degraus perigosos do Aero Guion e as gargalhadas histriônicas e exageradas de um senhor que às vezes provocavam mais risos que as próprias cenas.

Saturday, April 29, 2006

Terapia do Amor


A produtora Rafi (Uma) se vê, no esplendor físico e intelectual de seus 37 anos, divorciada e sem fihos. A sua psicóloga (Meryl Streep) tenta ajudá-la a substituir a frustração de um relacionamento onde primava a mentira pela oportunidade de vida nova. Não demora, ela volta a sair com os amigos. E qual o programa ideal para desopilar, purgar os males, alcançar a catarse, ver gente nova? O cinema, é claro. É reprise de um filme de Antonioni e na fila Rafi conhece o aspirante a pintor Dave (Bryan Greenberg), que, mesmo acompanhado, se encanta com Rafi. Poucos dias depois procura o nome dela no guia telefônico.
Tudo seria perfeito não fosse um detalhe: Dave tem apenas 23 anos. Rafi e Dave começam um embate entre o raciocínio e a pele, a lógica e o desejo, a segurança e o risco, o futuro e o presente, mediado sempre pelas visitas semanais de Rafi à terapeuta. Dave mergulha pra valer no namoro, afinal, Rafi tem cabelos loiros, olhos azuis, feições marcantes, papos articulados, finanças estáveis e, last but not least, curvas perfeitas – e carentes. Rafi, por sua vez, é mais cautelosa e não se entrega inteira.
O filme de Ben Younger, cientista político que já trabalhou como assessor, garçom, motorista e estreou na direção com O Primeiro Milhão (Boiler Room, 2000), é o tipo de ‘comédia romântica’ não descartável, que costura, com humor inteligente, situações que envolvem aceitação e personagens secundários que fazem a diferença, como o impecável porteiro do prédio de Rafi e a bisavó de Dave – que demonstra de modo inusitado sua indignação e perplexidade.

Tuesday, April 25, 2006

Um Herói do Nosso Tempo


Radu Mihaileanu não é um cineasta muito prolífico. Sua filmografia engloba Trahir (1993), Train de Vie (Trem da Vida, 1998) e Va, vis et deviens (Go, See and Become / Um Herói de Nosso Tempo, 2005). Xodó do público no Festival de Berlim, vencedor do César de Melhor Roteiro Original, a nova película do diretor romeno está em cartaz no Guion, em sessões concorridas. Seus projetos são demorados mas sempre contundentes. Trem da Vida chamou atenção pela originalidade e ousadia da história. E ao acender das luzes de Um Herói de Nosso Tempo, queda o público imóvel, como que envolvido por uma forte carga emotiva, e como quem demora um pouco para se recompor e/ou disfarçar as lágrimas.
O apelo ao sentimento é uma constante nos 140 minutos do longa-metragem, que parte de um fato histórico, a Operação Moisés, que removeu em 1984 milhares de falashas (judeus etíopes) de seu país de origem para uma nova vida em Israel. Ao contar as peripécias de Schlomo, menino, adolescente e jovem adulto, a produção franco-israelense debate temas como fome, amor filial e ao torrão natal, discriminação racial e religiosa, adoção, relações familiares, descoberta da sexualidade e idealismo.
A diversidade étnica mostrada no filme aparece no elenco. Yaël Abecassis (israelense) e Roschdy Zem (francês filho de marroquinos) interpretam mãe e pai adotivos de Schlomo. Três atores talentosos vivem o personagem principal: o primeiro é Moshe Agazai, de 11 anos, nascido em Rehovot, um dos subúrbios pobres de Tel Aviv; Mosche Abebe (16), nascido em Adis Abeba, capital da Etiópia e Sirak M. Sabahat (25), de Walita, norte da Etiópia. A mais jovem participante do elenco é a comportada e meditativa Rivkalée Abravachy. Nascida há 5 anos num kibutz a 40 Km ao norte de Tel Aviv, interpreta Mandala, a vaca holandesa. Outra promissora atriz é a namorada de Schlomo (Roni Hadar).
Problemas na cadência do filme – a história é contada sem pressa até uma altura e então passa a acelerar demais – não chegam a comprometer a força da obra. Um diálogo possível ao final do filme é trocar idéias do tipo “Em que parte você chorou?”

Monday, April 10, 2006

Stephen Frears Apresenta



Ashes to ashes, dust to dust. Assim começa o novo filme de Stephen Frears (Minha Adorável Lavanderia, Ligações Perigosas): Sra. Henderson Apresenta. No enterro do Sr. Henderson, uma circunspecta viúva está prestes a tomar as rédeas de sua fortuna. Contenção britânica: a viúva não derrama uma lágrima durante o funeral. Para desabafar, tão logo a esquife é baixada e o povo dispersa, pede ao motorista para pegar um desvio e descer ao cais. Toma um bote, rema até o meio do rio e, ao se ver sozinha, chora. Aparece outro barco e ela silencia de novo.
Não há viuvez, porém, que não faça bem: a serelepe Sra. Laura Henderson, ninguém menos que Judi Dench, compra um teatro velho e manda reformá-lo. Falta, entretanto, alguém com know-how e pulso para transformar a renovada casa num empreendimento de sucesso. Ela procura uma pessoa capaz de coordenar tudo. A cena em que contrata o gerente Vivian Van Damm (Bob Hoskins) é um bom exemplo do que uma grande atriz e um grande ator podem fazer quando o script ajuda.
Sra. Henderson gosta do perfil do gerente. Ele é teimoso, sabe o que quer e tem idéias ousadas. Logo de cara resolve adotar um sistema de espetáculos contínuos, em vez de apenas dois espetáculos diários. A idéia é um sucesso e o teatro prospera.
O palco está pronto para Stephen Frears nos apresentar a sua singela história de esperança em meio a uma Londres prestes a ruir – não tarda a estourar a Segunda Guerra Mundial. O Windmill Theater, depois de um começo meteórico, enfrenta dificuldades pelas imitações da concorrência. É preciso inovar. Sra. Henderson usa de sua perspicácia e influência para conseguir autorização para expor a nudez das atrizes. Consegue a permissão, desde que as 'partes pudendas' sejam devidamente depiladas e as atrizes desnudas permaneçam imóveis no palco.
Mamilos, seios e ventres; dorsos, espáduas e nádegas; colos, costelas e coxas: o público ávido volta a lotar a casa. De estático, porém, o enredo não tem nada. Desenrolam-se elementos como o ciúme que Sra. Henderson demonstra ao saber que o gerente do teatro é casado; a atriz que despe o corpo mas não o entrega a ninguém; o filho de Sra. Henderson, morto na Primeira Guerra, que jaz num cemitério francês; os bombardeios sobre uma Londres estupefata e impotente. Tudo Stephen Frears apresenta com propriedade e faz de Sra. Henderson Apresenta um bom acréscimo à sua respeitada filmografia.

Anjos da Noite - A Evolução


Durante a sessão, uma pessoa dirigia a outra perguntas do tipo “Por que ele é um híbrido?”, “O que aconteceu mesmo no primeiro filme?”, e assim por diante. Na verdade, vamos combinar, pouco importa se você viu ou não o primeiro filme.
A continuação dá um breve insight dos fatos, mas tudo isso é irrelevante. Tanto a primeira como a segunda película sustenta-se não pelos meandros da trama, mas sim pela silhueta, os cabelos, a roupa, a tez e os olhos de Selene, a gótica heroína, encarnada por Kate Beckinsale.
A atriz nascida em 1973 na Inglaterra superou a anorexia da adolescência e estreou no filme ‘Muito Barulho por Nada’ (1993), de Kenneth Brannagh. Sua filmografia inclui The Prince of Jutland (1994), Cold Comfort Farm (1995), Brokedown Palace (A Viagem, 1999), The Golden Bowl (A Taça de Ouro, 2000), Pearl Harbor (2001), Escrito nas Estrelas (Serendipity, 2001), Anjos da Noite (Underworld, 2003) e Van Helsing (2004). Fará par romântico com Adam Sandler na comédia Click (2006).
Sobre o conteúdo (?) de Anjos da Noite – A Evolução, a dizer, apenas, que remete às origens da divisão genética entre lycons (lobisomens) e vampiros, em que dois irmãos, na Idade Média, bifurcaram as linhagens. De quebra o roteiro traz vários intertextos espalhados, em especial citações do cult movie “Quando Chega a Escuridão”, de Kathryn Bigelow, em que uma troupe de vampiros atravessa as planícies norte-americanas num trailer.
A bonita fotografia argêntea e algumas cenas valem o filme: Kate pilota um caminhão enquanto Michael, o namorado híbrido, tenta repelir o ataque do vampiro primigênio; a dupla de heróis invade um antro guardado por lycons a fim de conseguir informações importantes e o embate final na caverna inundada contra os dois irmãos seculares. Catarse dark.

O Plano Perfeito

Fazer reféns num banco não é novidade no cinema. Já rendeu pelo menos um pequeno clássico do diretor Sidney Lumet – ‘Um dia de cão’, em que um Al Pacino alucinado e seu bando invadem o banco com o nobre objetivo de arrecadar grana para a operação de troca de sexo de seu amante (Chris Sarandon).
No filme Inside Man (2006), de Spike Lee, novamente um banco é alvo do ataque de uma quadrilha, desta vez mais organizada. O quanto essa quadrilha é organizada, aliás, é recomendável não se comentar. Melhor que o espectador perceba ao longo do filme. Os motivos para o roubo? Também o espectador pode tirar suas conclusões, ou acreditar no que diz Dalton Russel, o líder da quadrilha (Clive Owen). Afirma ter feito tudo apenas para provar que... era capaz de fazer.
Sucesso de bilheteria, o filme representa um passo de Spike Lee para longe de seus temas familiares, étnicos e sociais. Pululam os clichês: nesse tipo de filme, para lidar com a situação toda, sempre é chamado um detetive negociador. Lá vem o indefectível Keith Frazier, personagem de Denzel Washington e seu pseudo bom-mocismo. Exigências são feitas pelos seqüestradores-ladrões. Policiais tentam ganhar tempo e enrolar. Represálias dos seqüestradores, que são (ou se acham) sempre mais inteligentes, espertos e violentos que a polícia. E para (tentar) aumentar o suspense, que tal uma inverossímil história de bastidores envolvendo o dono do banco e seu obscuro passado?
No fim das contas, a pergunta que o fora-da-lei se faz no começo sobre o motivo do roubo, pode ser dirigida a Spike Lee, o autor de Faça a Coisa Certa, sobre o motivo de ter realizado este filme. Por que?

Monday, March 20, 2006

Um lugar para recomeçar



An unfinished life (2005) é um filme bem ao estilo do sueco Lasse Hallström. Adepto das histórias intimistas e dos dramas familiares, debateu a infância de um órfão em Minha Vida de Cachorro (Mit liv som hund, 1985), filme que o lançou internacionalmente. No início dos anos 90, radicou-se nos Estados Unidos sem perder o olhar sensível. Retratou como é ter um irmão deficiente em Gilbert Grape, o Aprendiz de Sonhador (93), contou a saga de uma família apaixonada por hipismo em O Poder do Amor (95), debateu o aborto em Regras da Vida (99), explorou as sensações do paladar com Chocolate (2000) e dissecou a mediocridade humana em Chegadas e Partidas (2001). Este teve péssima recepção da crítica, tanto que deixou o diretor por 4 anos afastado. Em 2005, porém, retornou com dois filmes: Um lugar para recomeçar, estréia da semana, e Casanova (inédito).
Pela introdução, o incauto visitante pode perceber que o anfitrião deste blog tem especial admiração pelo trabalho do diretor. Pois é, sou assim. Não consigo esconder minhas preferências. Acredito no cinema autoral, por isso, quando gosto muito de um filme, anoto o nome do diretor. Não tem mistério. É tão simples isso. Mas 99% das pessoas que vão ao cinema não estão nem aí para o diretor. Vão ao cinema para ver este ou aquele ator, aquela ou essa atriz. Além de guardar o nome do diretor, sou um cinéfilo fiel. Pode a crítica descer o malho no cara, que eu defendo. Isto explica o nome deste blog. O olhar aqui é de cinéfilo. Condescendente, apaziguador, tolerante.
Um lugar para recomeçar conta a história de uma jovem e bela viúva (Jennifer Lopez), mãe de uma menina de onze anos, que é obrigada a fugir da cidade para não ser mais espancada pelo namorado. Foge para um rancho numa pequena cidade do estado de Wyoming, onde mora o avô de sua filha (Robert Redford), na companhia do amigo e sobrevivente a ataque de urso (Morgan Freeman). A princípio as duas recém-chegadas são mal recebidas, mas recebem um quarto no porão. Aos poucos, ao reconhecer na neta as características do filho morto, o rabugento rancheiro começa a gostar da menina e ensinar coisas a ela.
Outros personagens são o urso, capturado e levado ao zoológico da cidade, o xerife bonachão e o namorado psicopata - que, como seria de esperar, vai atrás da Jennifer Lopez.
Mais um filme com as marcas de Lasse Hallström: sensibilidade, ternura e reflexão.

Sunday, March 19, 2006

A Pantera Cor-de-Rosa

Nomeado inspetor pelo chefe da polícia (Kevin Kline), Clouseau (Steve Martin) investiga o mistério que envolve a morte de um treinador de futebol ocorrida no estádio lotado e o roubo do raro diamante que lhe pertencia - Pink Panther. Pateta como ele só, o Inspetor Clouseau, com um ajudante fiel (Jean Reno) com quem vive brigando e uma secretária apaixonada com quem vive flertando, enfrenta muitos perigos e muitas peripécias na tentativa de solucionar o crime. Melhor não comparar esta nova roupagem com a seqüência de filmes dirigidos por Blake Edwards e estrelados por Peter Sellers.

Ponto final


Enquanto trata da carne, da traição e da conveniência, o filme de Woody Allen não deixa a desejar. Em grande parte, pela tórrida entropia alcançada pela dupla Scarlett Johansson e Jonathan Rhys-Meyers. A cena em que fazem amor no trigal sob a chuva entra, desde já, para a galeria das cenas clássicas de entrega e pecado. Porém, e sempre há um porém, o desenlace deste romance perigoso muda o rumo - e o gênero do filme. O drama romântico transforma-se num policial - e o filme descamba para o lugar comum. Vira um pastiche, uma versão moderninha de 'Atração Fatal', com desfecho pra lá de exagerado. Pra piorar, de policial, o filme tenta dar uma guinada para a comédia. Como se, para justificar tanta apelação, o diretor precisasse demonstrar que continua espirituoso, complementando tudo com um 'toque genial'. A sensação é que o novo filme de Woody Allen é uma piada de mau gosto. E ponto final.

Saturday, March 04, 2006

Johnny e June


O título original do filme de James Mangold é "Walk the Line", canção de Johnny Cash. Andar na linha é algo que o carismático cantor não fez em sua trajetória. Depois de um meteórico início de carreira, enveredou pelo perigoso caminho de misturar álcool e anfetaminas, tornando-se um viciado quase incorrigível. O que o salvou foi, de um lado, o amor à música e, de outro, a paixão por uma mulher. June (interpretada por Reese Witherspoon, favorita ao Oscar de Melhor Atriz) faz amizade com Johnny (Joaquin Phoenix) quando ambos são casados com outras pessoas. Cria-se um laço forte devido aos interesses comuns e aos constantes encontros nas turnês. Baseado na autobiografia do influente cantor, o filme aborda outros aspectos da vida do cantor, como a relação com o pai e a formação de uma geração de novos músicos talentosos - entre eles Jerry Lee Lewis e Elvis Presley.

Crash



Concorre a Oscar de Melhor Roteiro Original o filme de Paul Haggis sobre a intolerância, a discriminação e a violência étnicas em Los Angeles, nos Estados Unidos da América. Bem amarrado e concebido, com certos toques de humor não politicamente correto, liga várias personagens, cujos destinos se entrelaçam numa rede intricada de relações humanas, influenciadas pela etnia de cada pessoa. Caucasianos: o promotor e sua paranóica esposa (Brendan Fraser e Sandra Bullock) e uma dupla de policiais, um experiente e racista (Matt Dillon), outro novato e bem intencionado (Ryan Philippe) ; afro-americanos: uma diretora de plano de saúde (Loretta Devine), um diretor de TV e sua mulher (Terrence Howard e Thandie Newton), um investigador da polícia (Don Cheadle) e dois jovens transgressores da lei (Larenz Tate e Ludacris) ; latinos: uma policial (Jennifer Esposito) e um técnico de fechaduras (Michael Pena), sua mulher e filhinha; persas: uma família proprietária de uma mercearia constantemente vítima de assaltos; um casal de coreanos e um grupo de cambojanos.
A aterradora realidade retratada em Crash lembra-nos que vivemos num mundo desassossegado, onde prima a desconfiança, o desrespeito; onde nada é permanente, tudo é tênue e delicado; onde uma ação impensada acarreta reações imprevisíveis. Um mundo cuja harmonia está prestes a se quebrar em pedaços.

Saturday, February 25, 2006

Capote

A atriz Catherine Keener e o ator Philip Seymour Hofmann concorrem ao Oscar pelo filme Capote, dirigido por Bennett Miller.
Interpretando Nell Harper Lee - a autora do best seller "To Kill a Mockingbird", e amiga íntima do jornalista Truman Capote - Catherine Keener entrega uma atuação sóbria, digna da indicação para Best Actress in a Supporting Role. Philip Seymour Hoffman, por sua vez, de maneira minuciosa, fixa o sotaque, adota o timbre de voz, encarna os trejeitos e jeitos de Truman Capote. Não é à toa que é dos mais cotados a abiscoitar o Oscar de Melhor Ator.
Capote conta a história dos bastidores de "A Sangue Frio", o livro que inaugurou uma nova espécie de jornalismo - o jornalismo literário - e fez de seu autor o mais lido e vendido do início dos anos 60, nos EUA. Ao ler uma notícia de capa de um jornal de Nova Iorque sobre o assassinato de 4 pessoas da mesma família no estado de Kansas, Capote, então já famoso pela autoria de Breakfast at Tiffany's (Bonequinha de Luxo), resolve empreender um trabalho investigativo paralelo ao da polícia, envolvendo entrevistas com amigos das vítimas, pessoas da comunidade, policiais e - mais tarde - com os acusados do crime.
Para desenvolver o trabalho, Truman tem a companhia e a ajuda da amiga Nell Harper Lee (Catherine Keener). Os dois suspeitos do crime são condenados à morte por enforcamento e Capote intercede para que eles tenham direito à apelação. O projeto do livro - bem como o processo judicial - dura quatro anos e resulta na amizade entre Truman Capote e Perry Smith, um dos acusados.
O filme de Bennett Miller, além de destacar qualidades (bom humor, presença de espírito, inteligência, sangue frio) e defeitos (falsidade, egoísmo e hipocrisia) de uma das personalidades mais controvertidas e influentes do século XX, detalha os dilemas morais e éticos que envolvem a redação de um best-seller como "In Cold Blood."

Sunday, February 19, 2006

Mulheres que correm

Ei-las. No parque, na praia. O rabo de cavalo balança de um lado a outro, no ritmo das passadas. Concentração estampada no rosto decidido. A respiração comanda o movimento harmonioso, o jogar equilibrado dos braços, o arremessar das pernas torneadas. Mulheres que correm.

No Parcão, na Redenção... Nas manhãs, nas tardes, na boca da noite... Indiferentes aos olhares e aos flertes, elegantes, tesas, alvoroçadas, sem destino, pensando em nada além da próxima curva, da próxima subida – da próxima volta. O coração palpita. Os poros abrem. O suor escorre... mulheres que correm.

Atravessando as ruas, aventurando-se no meio dos carros, lá vêm elas! Enfim chegam à calma e ao verde dos parques, por seus caminhos se embrenham, misturam sua energia, sua vida, sua essência, acrescentam um toque a mais de viço, saúde e delicadeza ao ambiente.

Correm, esvoaçantes ou pesadonas, esquisitas ou discretas, delgadas ou fofas, desajeitadas ou estilosas... Como gazelas, seriemas e potras... Ou como búfalas, hipopótamas e pingüins. Pra emagrecer, pra manter a forma, pra conquistar um novo namorado, pra manter o atual, pra espantar a preguiça, pra cultivar a disciplina, pra suprir a necessidade imperiosa de correr, correr, correr... Impacientes, impulsivas, irrequietas – mulheres que correm.

Mas não só de corridas literais vivem as mulheres. Atletas ou não, elas sempre estão correndo contra o tempo, por variados motivos. Para chegar ao trabalho, levar as crianças na escola, fazer o super, manter a casa, o penteado, encontrar as amigas, atirar-se aos braços de alguém... Para chegar na hora da aula, fazer o tema, ler uma pilha de livros, escrever o trabalho de conclusão e satisfazer o namorado... Para preparar a lição, ir à reunião, corrigir as provas, revisar a matéria, respirar trabalho, para esquecer o coração...

Elas correm nos eixos – ou descarrilam. Correm na órbita – ou se desviam. Correm na rodovia – ou pegam atalhos. Correm para cumprir os compromissos – ou fugir deles. Correm para evitar o perigo – ou senti-lo nas veias. Correm para se preservar – ou se entregar. Correm para o marido – ou amante. Para o lar – ou motel. Para a redenção – ou perdição! Responsáveis, estóicas, seguras. Delicadas, inconseqüentes, perdidas... Mulheres que correm.

Wild at Heart


Tempestuoso, imorredouro, violento. Flamejante, imprevisível, engraçado. Surpreendente, quente, comovente. Inquieto, agitado, genuíno. Puro, doce, insubstituível. Fértil, exacerbado, pulsante. Visceral, incontrolável, selvagem.

Assim é o amor entre Lula e Sailor. Assim é o gênio do diretor David Lynch e o talento do músico Angelo Badalamenti. Assim é cada fotograma do vencedor da Palma de Ouro em Cannes de 1990: Coração Selvagem.

Há filmes que têm este dom: por mais que as revisitas se acumulem, a diversão, o riso, a ternura e a emoção se renovam. Já se sabe o que vai acontecer. Já se sabe o que cada personagem vai fazer, o que cada um vai falar. Dir-se-ia que, entre os adjetivos acima, ‘imprevisível’ e ‘surpreendente’ não se encaixam. Ledo engano. Cults como Wild at Heart, a cada nova sessão, para matar as saudades, para celebrar a magia do cinema, ou, motivo mais palpável - mostrar para alguém que ainda não viu - nos remetem à primigênia e original sessão. Emoções já sentidas ganham um quê de frescor, uma lufada de brisa, um novo colorido. Não, não há novo detalhe a ser percebido. Não é este o motivo de rever um cult. Um cult movie é revisto pelo orgulho de mostrar, pela emoção de reviver...
Pela necessidade de aplacar o coração selvagem.

A mão delicada de Lula, unhas pintadas de vermelho, abrindo-se na hora do êxtase. Os fósforos riscados, os cigarros acesos. As palavras que Laura Dern e Nicolas Cage trocam na cama, depois de fazer amor. A jaqueta de couro de cobra, que representa, para Sailor, sua crença na individualidade e na liberdade pessoal. Os dois saindo pra dançar na noite, quando Sailor pára a banda para repreender um incauto que dá em cima de Lula e, de quebra, pede o microfone para cantar “Treat me like a fool, treat me cruel, but love me”, para sua amada. Os dois parando à beira da estrada para dançar rock, e beijarem-se ao pôr-do-sol; as roupas na estrada, o acidente na madrugada, a moça desesperada - ao som de Wicked Game de Chris Isaak. O asqueroso Bobby Peru tentando perverter Lula, dizendo em seu ouvido “Say, fuck me...” Alguns motivos para cultuar Coração Selvagem.

Ah, sim. Faltou um motivo – ou melhor, um adjetivo - a tantos citados. Coração Selvagem é simplesmente... romântico.

Saturday, February 18, 2006

Brokeback Mountain

Ang Lee não escolhe gênero nem praia: da comédia (Banquete de Casamento, 1993; Comer, Beber, Viver, 1994) ao drama de época (Razão e Sensibilidade, 1995), da conturbação familiar (Tempestade de Gelo, 1997) à guerra civil americana (Cavalgada com o Diabo, 1999), da arte marcial (O Tigre e o Dragão, 2000) à banda desenhada (Hulk,2003), o cineasta nascido em Taiwan, em 1954, imprime sua marca.
Qual seja: uma contenção de estilo prussiana. As tomadas são rigorosamente discretas, porém imbuídas de apurado senso estético. O que cria um ambiente propício ao talento dos atores aflorar. É o caso de Brokeback Mountain (2005).

Heath Ledger e Jake Gyllenhaal são Ennis Del Mar e Jack Twist. Em 1963, os dois são contratados para cuidar de um rebanho de ovelhas numa temporada nos verdejantes vales da Brokeback Mountain, no estado de Wyoming. Baseado no conto homônimo de Annie Proulx, o roteiro compreende duas décadas na vida dos protagonistas. E, já que os distribuidores pedem 'segredo', fico por aqui na 'sinopse'.

Desde já, Ledger e Gyllenhaal se inscrevem na galeria de atores que viveram paixões homossexuais: Daniel Day-Lewis e Saeed Jaffrey (Minha Adorável Lavanderia, 1985), Alfred Molina e Gary Oldman (O amor não tem sexo, 1987) e James Wilby e Hugh Grant (Maurice, 1987). Ambientados em outros lugares e momentos, os filmes de Stephen Frears e James Ivory
têm em comum com o de Lee o fato de abordarem o tema sem hipocrisia.

Michelle Williams interpreta a mulher de Ennis, e o nome da sua personagem revela aquilo que Brokeback Mountain tem de sobra: Alma.

Tuesday, February 14, 2006

Paradise Now


Como se sente um homem-bomba? Que motivos e justificativas o movem? Que rituais vive nas horas que antecedem a auto-explosão? Que jovens são estes? Fanáticos manipulados, a serviço de organizações radicais, ou cidadãos politizados, capazes de um ato de desespero e desesperança? Têm família? Amigos? Namorada? Acreditam no paraíso?

É intenção desta co-produção holandesa e palestina de 2005, com locações em Israel, faixa de Gaza e Palestina – vencedora do Globo de Ouro e concorrente ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro –, debruçar-se sobre esses delicados assuntos. Hany Abu-Assad, o realizador, estreou em 2003 com ‘Rana’s Wedding’.

Dois mecânicos da costa oeste da cidade de Nablus são voluntários para participar de uma operação de um grupo terrorista palestino. Cada um carrega no próprio corpo os explosivos, a serem detonados no meio de israelenses. Cada um leva seus próprios e especiais motivos. Cada um tem, também, suas dúvidas. Que se intensificam num deles quando uma atraente moça retorna à cidade poucos dias antes da operação.

Sunday, February 12, 2006

Munique

É difícil escolher o que é melhor em Munique: o roteiro, a fotografia, a montagem, os atores, a música – ou a direção. Deixe-me reformular a frase: ir ao cinema para ver um filme de Steven Spielberg é a certeza de retorno do investimento.

O roteiro, baseado no livro “Vengeance” (1984), de George Jonas, que conta a história do grupo anti-terrorista formado em reação ao ataque que vitimou a seleção olímpica de Israel, em Munique 1972, não é maniqueísta – relata os fatos e dá humanidade àqueles que vão morrer, de ambos os lados. O autor do livro original, “Vengeance”, teve, como principal fonte, o líder do grupo anti-terror, vivido no filme por Eric Bana.
A fotografia sombria do cinegrafista Janusz Kaminski enfatiza cores neutras, dias nublados, luzes difusas, ambientes escuros e ações noturnas, conferindo um efeito estético importante à obra, em que o realismo se sobrepõe à esperança. O sol pouco brilha em Munique.
A edição alterna cenas de uma das ações terroristas mais chocantes da história – a invasão, em 1972, da vila olímpica pelo grupo terrorista palestino Setembro Negro, tomando como reféns os atletas da delegação de Israel, e seu funesto desdobramento – com a operação secreta subseqüente, organizada para eliminar os mentores e colaboradores dos terroristas. A mescla tem dupla função: dinamiza, dá agilidade à história; e, ao mostrar pontos de vista diferentes de maneira sucessiva, procura entender a polarização das verdades de cada povo.
No elenco não há rostos populares. Eric Bana (Tróia, Hulk) é a escolha certa para Avner, o agente líder da equipe que rastreia e mata as pessoas de uma lista que lhe é entregue. De compenetrada, contida, sua personagem passa a desassossegada e atormentada. Geoffrey Rush é Ephraim, a quem Avner presta contas. Destaque também para a novata Ayelet July Zurer, que interpreta Daphna, a fiel esposa de Avner.
Os não poucos momentos de tensão são sublinhados pela trilha angustiante do compositor John Williams.
Last but not least, o diretor que ‘influenciou gerações’ de espectadores e cineastas, Steven Spielberg, não aparece muito. Nascido em 1947, o tempo imprimiu ao estilo de Spielberg uma sobriedade e um recato louváveis. A variedade dos temas e a suprema habilidade de farejar uma história interessante e que vale a pena ser contada são suas marcas registradas. Decidir o ângulo e a posição da câmera? Isso já não o preocupa. Há um bom tempo ele não precisa mais chamar a atenção para si. Inventa cada vez menos, segue o roteiro à risca – e faz filmes primorosos.

Saturday, February 11, 2006

Orgulho e Preconceito


A novela Pride and Prejudice, de Jane Austen, teve sua primeira edição em 1813 e, em 1940, a primeira adaptação ao cinema - com Laurence Olivier e Greer Garson. A obra de Jane Austen costuma render filmes de estilo. Por sua abordagem e ambientação clássicas, e o apuro da linguagem, em 1995, Razão e Sensibilidade valeu o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado a Emma Thompson.

Entretanto, Orgulho e Preconceito (2005), filme de estréia do diretor Joe Wright, não ambiciona ser um filme de época 'irretocável'. O foco é no que o argumento de Jane Austen tem de atual: a vontade de cinco irmãs de acharem seus respectivos príncipes encantados. A obsessão de uma mãe em casar, de preferência com bons partidos, as cinco maravilhosas, airosas e prendadas filhas - único capital da família Bennet. Por fim, o jogo de sedução entre um homem recatado (Darcy) e uma moça linda (Lizzie).

Elizabeth Bennet, a Lizzie, é a segunda das cinco filhas. É interpretada pela estrela em ascensão Keira Knightley. A atriz de 23 anos atuou, entre outros filmes, em Episódio I (1999), Piratas do Caribe (2003), Simplesmente Amor (2003), e Domino (2005). Lizzie num baile se interessa por Darcy, amigo do rico Sr. Bingley, que, por sua vez, se interessa pela mais velha das senhoritas Bennet. O aristocrata Darcy, entretanto, aparenta indiferença aos encantos de Lizzie.

O preconceito de Darcy (Matthew Macfayden) vai por água abaixo quando descobre-se perdida e desvairadamente apaixonado pela desconcertante Lizzie. Tudo complica quando, numa conversa com um amigo em comum, Lizzie descobre mais sobre a complexa personalidade de Darcy.

Sem pretensões, leve e pleno de humor, com um casting excelente, que inclui Donald Sutherland, Brenda Blythen e Judi Dench, este filme tem outro mérito: o de nos lembrar que há sentimentos mais importantes que orgulho e preconceito.

Sunday, January 22, 2006

As loucuras de Dick e Jane


A premissa até não é ruim: analisar, pelo lado cômico, a situação vivenciada por funcionários de grande conglomerado empresarial que, embora apresente balanços lucrativos, está à beira da falência. Dick (Jim Carrey) é promovido a VP de comunicação de sua empresa. No primeiro dia na nova função, porém, é bombardeado em rede nacional de TV por uma série de perguntas para as quais ele não tem resposta. Neste meio tempo, a esposa, por sugestão dele, pede demissão do trabalho. A empresa de Dick vai à bancarrota e o casal vê-se desempregado, com um filho e uma empregada para sustentarem. O tempo vai passando e nenhum dos dois consegue novo emprego. O filme padece do principal problema atual das 'comédias' americanas: as situações são forçadas, o humor é exagerado, e as risadas são mínimas.

Thursday, January 12, 2006

Querida Wendy


Com locações na Dinamarca e Suécia, produzido na Alemanha, Querida Wendy tem estréia nacional nesta sexta-feira. Conta o relacionamento entre Dick (Jamie Bell, de Billy Elliot) e sua amiga Wendy. A delicada, bonita e sensual Wendy. O filme começa numa situação quase final (Dick escrevendo uma carta para Wendy), explica o que aconteceu para tudo chegar naquele ponto, para então desembocar na desconcertante seqüência desenlace.
Assustados com a violência crescente na cidade, adolescentes pacifistas de Etherslope, pequena cidade do sudeste americano, sem o conhecimento do xerife da cidade (Bill Pullman), criam grupo de encontro semanal numa indústria abandonada com o paradoxal objetivo de estudar armas de fogo. Autodenominam-se ‘Dândis’, treinam tiro-ao-alvo, assistem a vídeos de medicina forense, fazem manutenção dos revólveres e pistolas e fortificam suas individualidades, prometendo nunca brandir as companheiras em público. Quando um integrante novato do grupo comenta que a avó Clarabelle quer visitar a tia, mas não o faz por medo e insegurança, os Dândis resolvem fazer um esquema de segurança para ajudar Clarabelle.
O roteiro distingue-se pela lentidão, ou falta de pressa, em fazer engrenar a história; o modo com que as coisas que se esperam acontecer não acontecem; o modo com que a realidade acaba se sobrepondo à fantasia; o modo com que a violência e o uso de armas são abordados e a maneira como é dada importância à trilha sonora, que inclui a canção de 1968, Time of the Season, dos Zombies.
Dirigido por Thomas Vinterberg e escrito por Lars Von Trier, dinamarqueses integrantes do Dogma 95, movimento que, pela autenticidade e despojamento, agitou o cinema underground nos anos 90, Querida Wendy pode ser visto ou como um faroeste – os Dândis podem ser um moderno contraponto do bando selvagem retratado em Meu Ódio Será Sua Herança, ou uma nova versão dos ‘mocinhos’ do clássico de John Sturges, Sete Homens e Um Destino (com a diferença que os Dândis são cinco caras e uma guria), ou ainda um drama de adolescentes desajustados, na linha de Vidas Sem Rumo e O Selvagem da Motocicleta. Seja sob qual o prisma, quer você imagine que o filme é uma ‘fábula’ ou uma crítica ao comportamento americano em relação às armas, quer não, Dear Wendy parece ter sido concebido – e tem estofo - para se tornar um pequeno cult.

Sunday, January 08, 2006

Domino



Richard Kelly, o diretor e roteirista de um dos filmes mais cultuados do novo século (Donnie Darko), assina o roteiro do novo filme do maninho de Ridley - Tony Scott. Enjoada da vidinha de estudante e moradora de Beverly Hills, Domino (a engraçadinha Keira Knightley) chuta o balde e se une a dois caçadores-de-foragidos-da-justiça (Edgar Ramirez e Mickey Rourke, este em nova ascensão na carreira) para fugir do tédio, despejar adrenalina no sangue e, de quebra, exercer o espírito de Robin Hood. O que seria mais um conto de uma moça-mimada-rebelde-sem-causa torna-se, nem tanto pela direção habitualmente segura de Scott, e mais pela originalidade do roteirista Richard Kelly, num material passível de promover a ingestão de algumas pipocas num sábado à tarde numa cidade do interior num tórrido mês de janeiro.

A passagem


Marc Forster nasceu em Ulm, na Alemanha, mas foi criado no bucólico interior da Suíça. Quando, aos 12 anos, assistiu um filme pela primeira vez (Apocalypse Now, na televisão), resolveu ser diretor de cinema. Sua filmografia densa inclui Everything Put Together (2000), história de uma mãe que luta para se recuperar da perda trágica do filho; A Última Ceia (Monster’s Ball, 2001, que valeu o Oscar de Melhor Atriz a Halle Berry), sobre uma mulher que se envolve com o policial que executou o marido no corredor da morte – uma das cenas mais fortes do filme é o suicídio do personagem de Heath Ledger; e em 2004, Finding Neverland (Em Busca da Terra dos Sonhos), em que a mãe de quatro filhos está com os dias contados. Diga-se de passagem: em 1998, no período de três meses, Forster perdeu pai, avó e irmão (este, por suicídio).
A obsessão do diretor Marc Forster por temas mórbidos permanece em Stay (A Passagem, 2005), onde Henry Letham (Ryan Gosling) é um estudante de Belas Artes que confessa, na quarta-feira, ao psiquiatra substituto (Ewan McGregor), que pretende suicidar-se no sábado à meia-noite. O psiquiatra conta o fato à sua namorada de cicatrizes nos pulsos (Naomi Watts), pessoa indicada para tentar ajudá-lo a evitar que Henry cumpra o prometido. O roteiro é um jogo de xadrez com o espectador, que nunca sabe o que é verdade ou delírio. Pelas cenas oníricas e detalhes enigmáticos, o filme lembra o cult belga Malpertuis, com Orson Welles. Diálogos desencontrados, atos falhos, dúvidas recorrentes, gêmeos incidentais, visões fantasmagóricas e conversas surreais, tudo costurado por fusões ágeis e uma câmera dinâmica, mantêm o interesse até a seqüência final – que pretende ser explicativa, mas provoca uma série de questionamentos.

Thursday, December 22, 2005

Os Produtores

A trajetória deste filme é curiosa: cinema - Broadway - cinema de novo. Tudo começou em 1968, quando Mel Brooks, que, de acordo com Jean Tulard, 'com Woody Allen, é o representante mais ilustre da escola cômica judaica de Nova Iorque', logo na estréia como cineasta, recebeu, por 'The Producers', o Oscar de Melhor Roteiro original. O filme teve Gene Wilder no papel de Leopold Bloom e no Brasil ganhou o título 'Primavera para Hitler'.
Concebido inicialmente como uma peça, era natural que a película merecesse uma montagem na Broadway, o que aconteceu no final dos anos 90. O sucesso na Broadway animou Brooks a readquirir os direitos do filme e produzir a nova versão fílmica, que estréia dia 23, sob a direção de Susan Stroman.

Leo Bloom (Matthew Broderick, em atuação hilária) é um contador atrapalhado que se associa a Max Bialystock (Nathan Lane, em atuação não menos hilária), um produtor gigolô de velhotas, com o intuito original de realizar o maior fracasso da história da Broadway. Três etapas precisam ser preenchidas: escolher o pior roteiro, contratar o pior diretor e descobrir o pior elenco. A dupla de picaretas, dentre as pilhas de roteiros disponíveis, escolhe o que parece ter o maior potencial de desastre. Trata-se do curioso “Uma primavera para Hitler”, de autoria de um criador de pombos-correio nazista. Para a direção, os ‘produtores’ assinam com um afetado diretor que tem no currículo bombas que não duram mais de uma semana depois da estréia. Por fim, como atriz principal, ‘selecionam’ Ulla (Uma Thurman), escultural secretária sueca sem experiência nenhuma de palco e que pouco fala inglês. O papel de Hitler acaba nas mãos do columbicultor fascista.
O filme da cineasta e coreógrafa Susan Stroman (You’ve got mail) revisita, de forma inteligente mas um tanto prolongada, o gênero comédia musical.

Sunday, December 18, 2005

King Kong


A carreira de Peter Jackson tem raízes na ficção e no horror. Vide Fome Animal – um clássico escatológico. O cerne da ‘fase neozelandesa’ é o lisérgico Almas Gêmeas (Heavenly Creatures) – que chamou a atenção pela delicadeza e coragem com que tratou o lesbianismo. A ‘fase americana’ começou com o suspense The Frighteners e culminou com a trilogia Senhor dos Anéis, com Oscar de Melhor Diretor conquistado em 2004. King Kong é seu novo filme.
Conhecer a evolução da carreira do neozelandês Peter Jackson ajuda a entender as decisões por ele tomadas em King Kong. Seria talvez um clichê, mas de forma alguma uma inverdade, afirmar que ele tinha em mente, além de reverenciar e dar roupagem nova ao clássico da década de 30, refilmado na década de 70, realizar a versão ‘definitiva’ da história. Para isso, contou-a com todos os detalhes imagináveis. O problema é que, para entrar nas minúcias, é preciso tempo e película. Felizmente, Peter Jackson tem cacife para evitar cortes e fazer o filme que quer, na metragem que escolher.
Um diretor visionário (Jack Black) alicia aspirante a atriz (Naomi Watts) e autor de peças de teatro (Adrien Brody) a embarcarem num precário navio a fim de rodar um filme numa misteriosa ilha que não está no mapa. O que eles vão encontrar lá? Só posso dizer que Jackson ‘se puxou’ e, para dar verossimilhança interna a esta versão da ‘bela e a fera’, não poupou situações das mais variadas, entre o inacreditável-risível – a corrida de brontossauros no desfiladeiro – ao grotesco-asqueroso – a carnificina perpetrada por sanguessugas, lacraias e gafanhotos gigantes na tripulação do barco Venture.
O nome do navio que leva a troupe à ilha, por sinal, resume o que é King Kong para Peter Jackson: um grande risco. Ao se aventurar numa refilmagem, corre o risco de perder público, pois muitas pessoas não se animam a ir ao cinema para ver uma sessão da tarde de roupagem nova. Ao empreender um filme de três horas de duração, arrisca-se a ser acusado de prolixo e ‘overlong’. Ao não cortar o filme no estúdio, arrisca-se a alguém inventar um intervalo e recomeçar a projeção cortando uma seqüência. Ao escalar atores como Jack Black e Adrien Brody e Naomi Watts, nenhum de ‘grande apelo de bilheteria’, aposta as fichas de seu empreendimento nele, o principal astro – King Kong.
E cá pra nós, Kong é o tipo do herói com carisma suficiente para ‘roubar’ todas cenas em que aparece. O modo com que King Kong se comunica com o objeto de sua paixão é expressivo. O relacionamento entre Kong e atriz passa por todas fases – da predatória à admirativa, do receio à confiança, da dúvida à certeza, do desentendimento à compreensão. Mas – como todo relacionamento em que uma parte ama e a outra sente apenas amizade – uma das partes sairá mais ferida que a outra.
Falando em compreensão e ferimentos, teria muito mais a dizer sobre King Kong, porém, o leitor há de compreender, a última coisa que quero ser acusado é de ferir suscetibilidades e cometer ‘spoiler’. Então só digo mais isso: é crime cortar um minuto sequer de King Kong – não é, seu responsável pela projeção do Cine Bella Citá de Passo Fundo?

Tuesday, December 13, 2005

De tanto bater, meu coração parou




De Battre Mon Coeur S'Est Arrêté.

Tom não tem escrúpulos, nem exercendo de forma ilícita sua atividade profissional, que envolve ‘administração’ de imóveis, nem servindo de álibi para as traições conjugais do amigo. Está sempre com cara de poucos amigos, aliás: tem poucos amigos. Seus dois colegas de rolos imobiliários, seu pai que está de namoradinha nova, e seus fones de ouvido, por onde sai sempre música eletrônica.

Quem olha de fora e vê Tom, vê apenas isso: um cara frio e calculista, uma pessoa bruta, violenta até, um franco atirador, um solteiro convicto de 28 anos, um young urban professional (yuppie) versão French underground, um cara que não gosta de ninguém além de si mesmo. Mas para compreender Tom, é preciso ver além das aparências.

Um convite para fazer um teste é a oportunidade inesperada de seguir a profissão da falecida mãe – pianista. Empolgado com a esperança de resgatar o talento inato, porém não cultivado, passa a ter aulas particulares com uma pianista chinesa. O diretor-roteirista é Jacques Audiard, do elogiado “Read my Lips” (2002).

As Crônicas de Nárnia - O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa


Quatro irmãos londrinos cujo pai está na guerra são enviados pela mãe para longe dos bombardeios. De um dia para o outro, Pedro, o primogênito, Suzana, Edmundo e Lúcia, a caçula, se vêem morando na enorme casa de um professor. Eles recebem ordem expressa da governanta de não importunarem o dono da casa. Os quatro tentam se adaptar à situação porque sabem que é a melhor alternativa. Lúcia, porém, reclama dos lençóis, que não são tão macios como os de casa.
Um dia, entediados com Suzana, que fica lendo uma enciclopédia e fazendo perguntas para testar o conhecimento dos irmãos, os quatro resolvem brincar de hide & seek. A brincadeira de esconde-esconde é o fato desencadeador: Lúcia se esconde dentro do único móvel de um dos quartos do segundo andar - um imponente guarda-roupa que estava coberto por um lençol. Dentro do guarda-roupa, Lúcia roça em muitos cabides com casacos de pele, tentando chegar ao fundo, mas ele não chega. Em vez disso, começa a sentir as folhas de uma árvore no rosto e quando se dá conta, está com os pés sobre a neve. Entre um misto de frio, deslumbramento e espanto, em vez de voltar ao portal que lhe dera acesso a este mundo desconhecido, prossegue seus passos na neve, espicaçada pela curiosidade. Pouco à frente, encontra um poste de luz – que será um ponto de referência ao longo do filme.
Lúcia não demora encontra um habitante desta outra dimensão; homem da cintura para cima, bode da cintura para baixo: um fauno, como ele se denomina. A pequenina humana e o fauno fazem amizade instantânea e ele a convida para um chá. Hesitante, a menina concorda e passa umas horas aprazíveis na casa do novo amigo. Então ela volta e conta para os irmãos, que não acreditam em uma palavra do que ela diz.
É evidente que não vou continuar a contar tudo com tanto detalhe. Na verdade, não vou contar mais nada. Apenas que a história envolve uma profecia; uma rainha malvada; luta pela liberdade de Nárnia; leão, castores, cavalos, lobos e raposas falantes (o leão, por sinal, com a fala inconfundível de Liam Neeson); faunos, minotauros, centauros, outros seres mitológicos e, é claro, uma batalha.
Marketing exagerado e furos no roteiro à parte, As Crônicas de Nárnia tem coisas boas, principalmente quando se concentra na construção e inter-relacionamento dos personagens.

Madredeus - Teatro do Sesi - 06/12/05



Um Amor Infinito – este é o título do novo trabalho do Madredeus e, também, do espetáculo apresentado em Porto Alegre, por iniciativa do grupo SONAE e Supermercado Nacional, com produção do Opinião.
Com dois violões, baixo acústico, sintetizadores e voz, Madredeus iniciou o show às 21 h 15. Teresa Salgueiro, a vocalista, avisou que o show seria em duas partes, com intervalo de quinze minutos. No palco minimalista, a banda apresentou as novas músicas. Ao término de cada uma delas, os fãs suspiravam, murmuravam consigo ‘que belo!’, gritavam ‘bravo!’, assobiavam, chamavam Teresa de ‘linda!’, pediam ‘Haja o que houver’ e aplaudiam. Muito.
Madredeus não veio a Porto Alegre para fazer o repertório do clássico Antologia. Só tocaram duas de seu mais vendido cd no Brasil, e só no bis. No mais, foi uma demonstração da qualidade da banda, que deixou claro que não precisa, para fazer um show primoroso, carregado de constante emoção, ficar revisitando toda hora músicas queridas do público. Aplausos intensos forçaram a banda a retornar duas vezes ao palco.
Foi no primeiro bis, com o público entoando primeiro baixinho, depois mais alto, a pedido de Teresa, e ela pode mandar que a gente obedece, ‘Haja o que houver’, que a sintonia entre público e banda durante todo o show chegou ao auge, que público e banda escancararam a reciprocidade do que sentem um pelo outro: um amor infinito.